
Deus Sabe que Sofremos

Philip Yancey

Ttulo original: When is God when it hurts
Traduo: Emma Anders de Souza Lima
Editora Vida
ISBN 85.7367.195-5
Digitalizador: desconhecido
Disponibilizado pelo Intervox
Revisado e formatado por SusanaCap
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Por que Deus permite o sofrimento? Deus  no  v  que  estou sofrendo?
      Na maioria das vezes, ns nos sentimos totalmente  incapazes de dizer ou fazer qualquer coisa para aliviar a dor dos  que sofrem. E este sentimento de incapacidade
  extremamente frustrante e entristecedor. Por  que  existe  o  sofrimento?
      Ser que a dor  um erro grosseiro de Deus? Ou  Deus  estar querendo nos ensinar alguma coisa  atravs dela?
      Neste livro, voc encontrar as mais  importantes  respostas para esse inquietante problema que diz respeito a todos ns.
      Com sensibilidade e profundo conhecimento do  assunto, o autor trata o tema de maneira clara, informativamente  rica, comentando tambm as concluses a que 
chegaram  os  maiores estudiosos do assunto.
      Um livro de estilo fcil, que responde questes difceis.
***
    Philip Yancey  autor  de  vrios  livros,  entre  os  quais "Decepcionado com Deus" e "As Maravilhas do Corpo ".  Reside com sua esposa na cidade de Chicago, 
EUA.
***
    Entrementes, onde est Deus? Este  um  dos  problemas  mais inquietantes. Quando a pessoa se sente feliz, to feliz  que nem parece precisar dele,  e  a  ele 
se  achega    afim  de ouvi-lo,  recebida de braos abertos. Mas, o  que  acontece quando voc a  ele  se  dirige  em  situao  desesperadora, baldados todos os 
seus esforos ? A porta  se lhe  fecha,  e por dentro  aferrolhada duplamente. Depois, silncio.  Da, parece ser melhor a pessoa se afastar.
    C. S. Lewis,
    A Grief Observed (Anlise de uma aflio)
      
Problema Que Permanece
      Sinto-me  completamente  incapaz,  perto  de  pessoas   que sofrem. Na verdade, sinto-me at culpado. As  pessoas  esto ali sozinhas, talvez gemendo,  faces 
contorcidas,    e  no consigo transpor o abismo  e  penetrar  no  seu  sofrimento.
      Consigo apenas observar. Qualquer coisa que eu tente  dizer, parece-me  medocre  e  formal,  como  se  recitasse    algo previamente  decorado.  H  alguns 
anos,  atendi    a    um desesperado pedido de socorro de amigos muito ntimos,  John e Claudia Claxton. Casados de novo, ambos com pouco mais  de vinte anos, comeavam 
a sua vida no Centro-Oeste Americano.
      Jamais eu tinha visto o amor afetar algum to profundamente como acontecera com John Claxton. Nos dois anos em que ele e Claudia  estiveram  noivos,  John, 
uma    pessoa    cnica, desagradvel e fria, tornou-se otimista, pronto a  desfrutar as aventuras do casamento.
       John escreveu-me uma carta que me  perturbou  extremamente.
      Erros e rabiscos  desfiguravam  a  sua  escrita,  geralmente caprichada. Ele explicou: - Queira desculpar minha   maneira de    escrever... no sei o que  
dizer. Nem consigo achar as palavras. - o casal  enfrentava um problema muito maior do que eles  mesmos.  Claudia  tinha contrado a  doena  de  Hodgkins,  cncer 
das  glndulas linfticas, e os mdicos diziam que  sua chance de vida era de apenas 50%.
       Em uma semana, os cirurgies fizeram-lhe um corte  desde  a axila at o abdome e removeram todo e qualquer trao visvel da doena. Fraca  e  aturdida,  ela 
jazia  numa    cama  de hospital.
       Naquela ocasio, John trabalhava como assistente de capelo num hospital local. - A doena de Claudia, - contou-me  ele, - fazia com que eu entendesse melhor 
a situao de  outros pacientes. Mas, no mais me interessava por eles;  pensava somente em Claudia. Tinha vontade de gritar:  -  Parem  com essas lamrias, seus 
idiotas!
       Vocs pensam que esto cheios de  problemas,  mas  a  minha esposa pode estar morrendo neste momento!
       Embora John e Claudia  fossem  ambos  cristos,  a  revolta contra Deus avolumou-se. Revolta contra um parceiro  a  Quem eles amavam e que se tinha virado 
contra eles.   -    Deus, por que ns?  - clamavam.
      - Deste-nos, provocadoramente,  apenas  um  curto  ano  de casamento feliz, preparando-nos para esta dor?
       O tratamento de cobalto arruinou o  organismo  de  Claudia.
      Ela perdeu a beleza. Sentia-se constantemente  cansada,  sua pele tornou-se escura, o cabelo comeou a cair,  a  garganta estava sempre inflamada e ferida. 
Vomitava quase tudo o que comia. Os mdicos  precisaram  suspender  o  tratamento por algum tempo, pois a garganta havia inflamado de tal  maneira que ela no podia 
engolir.
       Todos os dias, Claudia pensava em Deus e na dor que sentia, principalmente quando estava na sala de tratamento.  Naquela sala fria revestida de ao, estirada 
numa   mesa,  nua,  ela ouvia o chiado e o estalido do aparelho  bombardeando-a  com partculas invisveis. Cada dia  de  radiao  fazia  o  seu corpo envelhecer 
meses.
  As Visitas de Claudia
       No princpio, Claudia esperava consolo e conforto dos  seus amigos cristos. Estes, porm, tornaram-se  desconcertantes.
      Um  dicono  de  sua  igreja  falou-lhe  solenemente    que refletisse naquilo que  Deus  estava  tentando  ensinar-lhe.
       - Deve haver alguma coisa na sua vida que desagrada a Deus.
      Voc deve ter deixado de fazer sua vontade. Estas coisas no acontecem por acaso. O que  que Deus  lhe    est  dizendo?
       Certa vez veio uma senhora, uma viva  gorducha,  um  tanto desmiolada, que pensava ter sido chamada para ser "chefe  de torcida" das visitas aos doentes. 
Trouxe  flores,    cantou hinos, e recitou lindos salmos de lindos  riachos  e  montanhas,  sempre  batendo  palmas.  Todas  as  vezes  que  a  doena  de  Claudia 
era  mencionada, ela  depressa mudava de assunto.  Queria  afastar  o  sofrimento  com o seu entusiasmo e boa  vontade.  Quando  ela  se  foi,  as flores murcharam, 
no  mais  se  ouviram  os  hinos,  e  Claudia ali estava, face a  face  com  outro  dia  de  dor.
       Veio outra, que h anos, fielmente,  vinha  assistindo programas  de  Oral  Roberts,  Kathryn  Kuhlman, e o "Clube 700". Ela disse a Claudia  que  a  nica 
soluo estava em     buscar a cura divina.
       Dvidas me assaltaram e comecei uma busca que  se  estendeu por vrios anos, e culminou neste livro. Tenho procurado uma mensagem que ns, os  cristos,  
possamos  dar  queles  que sofrem. Acima de tudo, tenho buscado  uma mensagem que possa fortalecer minha prpria f quando sofro.  Onde  est  Deus, quando chega 
a dor? Est ele tentando dizer-nos algo? Depois de uma longa viagem pelos Estados Unidos, o telogo e  muito conhecido pastor alemo Helmut Thielicke foi inquirido 
sobre o  maior  defeito  que  observara  entre os cristos norte-americanos. Ele respondeu:
      - Eles tm opinio inadequada sobre o sofrimento.
      Acabei por concordar com ele.
      No mundo no-cristo,  essa  falha  destaca-se  ainda  mais.
      Perguntei a alguns universitrios  o  que  tinham  contra  o Cristianismo, e a maioria repetiu variaes sobre o  mesmo tema: o sofrimento:
      - No posso acreditar  num  Deus  que  permite  Auschwitz  e Irlanda do Norte.
      - Minha irm adolescente morreu de leucemia apesar de  todas as oraes dos cristos.
      - Ontem  noite um tero da humanidade foi para a  cama  com fome. Isso combina com o amor cristo?
      Lendo livros sobre a dor,  descobri  que  muitos  grandes filsofos,  favorveis  aos  princpios  e  tica  cristos, tropearam ao se defrontarem com o problema 
da  dor  e    do sofrimento, acabando por rejeitar o  Cristianismo  por  essa razo. C. E. M. Joad escreveu:
      - Quais so, pois, os argumentos que, para mim,  desfazem  o ponto de vista religioso do universo?
      Primeiro, dor e infortnio.'
      Outros filsofos, tais como Bertrand  Russell  e  Voltaire, compartilham eloqentemente do protesto de Joad.
      O confuso problema da dor e do  sofrimento  aparece  sempre, apesar de nossas  eruditas  tentativas  de  explic-lo.  At mesmo C. S. Lewis, que deu  a  explicao 
mais  inteligvel neste sculo, viu  seus  argumentos  desvanecerem-se  quando sentiu os efeitos de um cncer de ossos no organismo de  sua esposa.
      - No  conseguimos  jamais  saber o quanto realmente acreditamos em  algo,  at  que  a  sua  veracidade  ou  no torne-se uma questo de vida ou de morte 
- disse ele.
      Como a batalha de Hrcules contra a Hidra, todas  as  nossas tentativas de derrubar argumentos agnsticos esbarram contra outros exemplos de sofrimento bastante 
constrangedores.  E a defesa crist, por  ns  empregada,  geralmente  parece  uma desculpa falsa, confusa e mal-articulada.
Abordagem Pessoal
      Ao escrever este livro, no foi minha inteno dirigir-me  a filsofos. Pessoas muito mais capazes do que eu  j  fizeram isso. Ao escrev-lo, preferi ter 
diante de  mim a imagem  de minha  amiga,  Claudia  Claxton,  estirada  numa  cama    de hospital.  Nossos  problemas  a  respeito  da  dor,  na  sua maioria, no 
so apenas mentais. So  parecidos  com  os  de Claudia: dor de garganta, casamento   ameaado  pela  morte, perda de juventude, o terrvel medo do desconhecido.
      Ao escrever este livro, conversei com  cristos  que sofrem muito mais do que qualquer de ns. Para muitos deles, a  dor faz parte da vida.  a primeira sensao 
da   manh  que  se prolonga at o ltimo momento antes do sono,  se  tiverem  a sorte de conseguir dormir. Falarei sobre eles neste livro.
      Ironicamente, tambm passei uma  temporada  entre  leprosos, pessoas que no sofrem no sentido fisiolgico,  mas  desejam esse sofrimento desesperadamente.
       possvel que da prxima vez que eu cair doente, com  gripe forte, debatendo-me na cama com  febre,  ou  lutando  contra ondas de nusea, as minhas concluses 
sobre  a  dor  no  me sejam de  nenhum  consolo.    Entretanto,  como  um  cristo tentando esquadrinhar o que Deus deseja neste  mundo,  tenho aprendido muito. 
A minha  revolta  e  amargura  contra  Deus foram desaparecendo   medida que compreendia  por  que  ele permite um mundo com tal sofrimento.
      No hei de me referir a alguns itens filosficos, apesar  de importantes, tais como: De que forma o mal entrou no  mundo?
      Por que  o sofrimento distribudo de maneira  to  injusta?
      Por que as calamidades naturais? Em  vez  de  enveredar  por tais perguntas, penetrarei no  mundo  dos  que  sofrem  para descobrir, no momento da dor, o valor 
real de ser cristo.
      Primeiramente, examinarei  a  dor  atravs  do  microscpio, biologicamente, para ver o papel que ela desempenha na vida.
      Ento, voltando atrs, olharei para o planeta  como um todo, procurando  saber  quais  os  desgnios  de  Deus.  Ser   o sofrimento o grande erro de Deus?
      Ento, demonstrarei detalhadamente as reaes  que  diversas pessoas  extraordinrias  e    fascinantes    tiveram.    E, finalmente, perguntarei a mim mesmo 
qual  a  minha  atitude quanto ao meu prprio sofrimento e ao sofrimento dos outros.
      * O problema de Claudia foi resolvido quando o tratamento de cobalto destruiu todas as clulas cancerosas. J se passaram cinco anos, e ela continua perfeitamente 
s.
Primeira Parte - Por que Existe a Dor?
Sejamos agradecidos por ter Deus inventado a  dor.
Ele  no poderia ter feito coisa melhor.
Dr. Paul Brand
A ddiva indesejvel
      Estou  em  Chicago  na  luxuosa  sala  do  Orchestra    Hal.
      Deleito-me com a msica de Beethoven e Mozart, mas o longo e complexo concerto de Prokofiev no me  transmite  o    mesmo prazer. Devido  digesto do farto 
jantar de  domingo,  -me difcil concentrar na msica, e ficar acordado.
      Aos poucos,  a  msica  desaparece  ao  longe,  e  plpebras fecham-se. Vejo ao meu redor muita  gente  bem  vestida  que dorme a sono solto. Assim, eu tambm 
apio o queixo  na  mo direita e encosto o cotovelo no  - BUM!! Braos e  pernas  espalham-se.  Algumas  pessoas  em derredor fulminam-me com os olhos, os pescoos 
esticados  em minha direo. Meu sobretudo est  no  cho.  Assustado    e constrangido,  pego  o  sobretudo,  endireito-me  e    tento concentrar-me na msica. 
O corao bate desordenadamente.
      Que aconteceu? Enquanto eu vagueava na terra dos  sonhos,  o meu corpo me protegia. Enquanto eu  cabeceava,  meus  braos moveram-se abruptamente, minha cabea 
lanou-se  para trs e todo o meu corpo se contorceu.  Embora  bastante  embaraoso para mim, isso foi apenas uma atitude leal do  meu  corpo  a fim de evitar que 
eu me machucasse.  As duas pequenas bolsas no meu ouvido interno, cheias  de  fluido  e  revestidas  de pelos ultra-sensveis, detectaram uma mudana  alarmante 
no meu equilbrio. Justamente  no momento em que  minha  cabea ia bater no brao da poltrona, o ouvido  interno  soltou  um alerta geral. Com uma velocidade extraordinria, 
meus braos e pernas reagiram  dramaticamente, e eu  no  me  machuquei.
      Todas estas manobras complexas  -  aconteceram  enquanto  eu cochilava.
Detector de Perigo
      Em geral, os sensrios da  dor  operam  justamente  como  os sensrios do equilbrio que se acham no ouvido interno. Eles avisam  o  corpo  dos  iminentes 
ou  atuais  perigos.     O sentimento da dor fora o corpo a concentrar-se na  rea  em que h algum problema e a reagir  de  acordo.  s  vezes,  a reao  quase 
inconsciente. Por exemplo,  quando    vou  ao mdico para um exame geral  de  rotina  e  ele  golpeia  meu joelho com um martelo de  borracha,  minha  perna  estica-se 
violentamente. O joelho sofre a impresso  de que est sendo dobrado e reage automaticamente. O martelo atingiu os mesmos nervos  que  seriam  afetados  se  o  meu 
joelho   vergasse subitamente ao caminhar. O corpo  reage,  para  que  eu  no tropece e sofra dor maior. A reao   rpida  e  espontnea demais para permitir 
que o crebro tenha tempo de raciocinar que estou sentado numa  mesa e no em p,  e  que  realmente no h perigo de eu cair.
      Apesar de serem dispositivos de  proteo  ao  organismo,  o sistema nervoso e os seus milhes de sensrios de  dor  so, entre as funes do corpo, as menos 
apreciadas.
      Jamais li um poema exaltando as  virtudes  da  dor,  nem  vi jamais uma esttua erigida em sua honra ou ouvi  um  hino  a ela  dedicado.  A  dor        sempre 
qualificada    como "desagradvel".
      Realmente, os cristos no sabem  como  interpretar  a  dor.
      Muitos deles, se postos contra a parede numa  hora  difcil, admitiriam provavelmente que a dor    um  erro    de  Deus.
      Achariam que ele devia ter tido mais cuidado e inventado uma melhor maneira de enfrentar os perigos do mundo.
      Estou mesmo convencido de que  a  dor  tem  tido  propaganda injusta. Talvez devssemos  ter  esttuas,  hinos e  poemas exaltando a dor. Qual a razo de eu 
assim pensar?  Porque se fizermos um exame realmente acurado, veremos a estrutura  da dor por um prisma completamente diferente. Ela , talvez,  o modelo perfeito 
da capacidade inventiva.
      Comeo a examinar o corpo humano. Por que o corpo  necessita da dor? O que est ela tentando transmitir? Quero examin-la atentamente antes de poder enfrentar 
pessoas  que sofrem.
      (H  uma  necessidade  premente  de  que  esta  parte   seja discutida em nvel tcnico e biolgico muito mais elevado do que o resto do livro.  Estes  argumentos 
estabelecem    uma estrutura  qual hei de me referir mais tarde.
      Se a biologia no  do seu agrado e se voc tem o hbito  de desligar a televiso quando se trata de  assuntos  do  corpo humano,  provvel que no queira 
ler este    captulo.  No posso deixar de escrev-lo, porque esta parte  uma das mais desprezadas, embora muito importante, por  pessoas  confusas com a pergunta: 
"Onde est  Deus, quando chega a dor?").
Tentando Re-inventar a Dor
      Impressionei-me grandemente com  a  assombrosa  eficcia  da dor, quando visitei Dr. Paul Brand*, de Carville, Louisiana, o nico homem, por mim conhecido, 
a empreender  uma  cruzada a favor da dor. Sem hesitao, o Dr. Brand anuncia:
      - Devemos ser agradecidos pela inveno da dor. Deus  fez  o melhor.  maravilhoso!
      Ningum mais do que o  Dr.  Brand  est  apto  a  fazer  tal julgamento, pois ele  uma das maiores autoridades em lepra, doena que ataca o sistema nervoso.
      O apreo do Dr. Brand pela dor atingiu o seu auge depois que lhe foi concedida uma enorme verba para projetar um  sistema artificial  de  dor.  Ele  esperava 
ajudar  pessoas que sofressem doenas, cuja caracterstica  fosse  a  destruio dos sensrios da dor. Brand tinha de  tentar  colocar-se  na posio  do  Criador, 
pensar  como  ele  e  prever as necessidades do organismo humano. Depois de  contratar  trs professores  catedrticos  de  engenharia  eletrnica, um biotcnico 
e  diversos  bioqumicos  especializados  em pesquisa, ele comeou o seu trabalho.
      Em primeiro lugar, a equipe produziu um nervo artificial que podia ser colocado na ponta do dedo como uma luva.  O  nervo reagia  presso por intermdio de 
uma  corrente    eltrica que estimulava um sinal de aviso.
      Durante cinco  anos  o  Dr.  Brand  e  os  seus  assistentes atacaram os problemas tcnicos.  medida que se aprofundavam no estudo dos nervos, mais complexa 
tornava-se    a  tarefa.
      Quando deveria o sensrio  dar  o  aviso?  Como  poderia  um sensrio distinguir a presso normal de segurar um  corrimo da presso exigida para segurar uma 
planta  com  espinhos?
      Como seria possvel permitir uma atividade como jogar  tnis e, ainda assim transmitir o aviso de perigo?
      Brand observou tambm que as clulas nervosas  mudam  a  sua percepo de dor, a fim de irem ao encontro das necessidades do corpo. Quando a ponta do dedo 
sofre uma  infeco, ela se torna dez vezes mais sensvel  dor do que em estado normal.
      Esta  a razo de um dedo inflamado incomodar e  atrapalhar.
      As clulas nervosas "aumentam  o seu volume", exagerando  as reaes s pancadas e aos  arranhes.  No  houve  meio  dos cientistas, embora muito estudiosos, 
poderem  duplicar  tal proeza divina com  a tecnologia atual.
      Todos os sensrios artificiais revelaram-se frgeis, prestes a se romperem ou a se deteriorarem  pela  corroso  ou  pela fadiga do metal depois de acionados 
uma centena   de  vezes. 
      Ms aps ms, o Dr. Brand  e  seus  companheiros  apreciavam mais intensamente o notvel planejamento da estrutura da dor no corpo humano.
Pele Resistente e Sensvel
      Um exame mais  atento  do  corpo  humano  reala  o  desafio incrvel enfrentado pela equipe  do  Dr.  Brand.  sua  nica preocupao era a rea superficial 
do corpo,  a  pele,    um rgo flexvel e resistente que se  estende  sobre  o  corpo todo como uma defesa avanada contra o mundo.
      A  pele    aquinhoada  com  milhes  de  sensrios  de  dor espalhados  pela  sua  superfcie.  Entretanto,  no   esto espalhados  a  esmo;  so  distribudos 
cuidadosamente   em lugares  de maior carncia.
      Os cientistas tm descoberto tcnicas para medir  a  presso necessria para uma pessoa de  olhos  vendados  perceber  um objeto em contato com a sua pele. 
A escala chamada o  limiar absoluto do tato,  medida em gral (por  milmetro  quadrado de  superfcie  da  pele).  Os  rgos  internos  no    tm necessidade 
de tais sistemas  elaborados de  alarme.  Depois de passar pela pele, pode-se queimar o  estmago,  cortar  o crebro, ou ainda esmagar o rim, e o  paciente  no 
sentir dor alguma. Por  qu? Simplesmente pelo fato dos  defensores da dor no serem ali necessrios.  Os  rgos  internos  so raramente expostos a tal perigo, 
pois a pele e  o  esqueleto protegem-nos.
      Entretanto, se o mdico inserir um balo dentro do  estmago e ench-lo de ar dilatando-o  ligeiramente,  sinais  de  dor alcanaro o crebro: clicas, ou 
dor motivada  por gases. A estrutura da dor do estmago foi planejada para  reagir  aos seus perigos especficos. Do mesmo  modo,  o  rim  solta  um alarme de dor 
excruciante quando  uma  pedrinha  de  4mm  de dimetro acha-se presente.
      Se um rgo interno tem necessidade de informar o crebro da existncia de um perigo de emergncia e os seus sensrios de dor no foram planejados para tal 
tarefa,  o rgo  serve-se do notvel fenmeno da dor reflexa. Ele  "toma  emprestados" os sensrios  de  dor  vizinhos  para  alertar  o  corpo  da existncia de 
perigo. Por exemplo,  a vtima de um ataque de corao pode notar certa dor, embora fraca, na pele do  lado esquerdo do peito. A pele no  est  em  perigo;  o  
corao tomou-a emprestada como  uma estao retransmissora de  dor.
      Semelhantemente, a  apendicite    de  diagnstico  difcil, porque o apndice toma emprestado os  sensrios  de  dor  de diversas partes do organismo, como 
os lados perto dos  rins, por exemplo.
      Tais fatos, como a distribuio exata  das  clulas  de  dor necessrias, os limites de dor e de  presso,  e  o  sistema substitutivo da dor reflexa, convencem-me 
de que,   qualquer que seja, a estrutura da dor no aparece por acidente.
      O mal feito  algo indelevelmente cunhado com  um  propsito maravilhoso.  algo que equipa  muito  bem  o  nosso  corpo.
      Pode-se  argumentar  que  a  dor     to    essencial    ao funcionamento normal da vida, como o sentido da viso ou at mesmo a boa circulao  do  sangue. 
Como  veremos,  se  no houvesse dor, nossa vida estaria cheia de  perigo,    e  no poderamos jamais usufruir prazeres, tais como a prtica  de esporte e passatempos.
Mas,  Preciso Que Doa?
      Qualquer pessoa que estude o corpo  humano  admitir  que  o sistema nervoso    bem  arquitetado.  Mas,  algum  poderia naturalmente  indagar:  -    preciso 
que  a    dor    seja desagradvel? Claro que um sistema  protetor    necessrio, mas precisa doer? H ocasies em que uma penetrante exploso de dor invade  o 
crebro,  contorcendo  o  paciente.    No poderia Deus ter achado outra maneira de alertar-nos? 
      A equipe do Dr. Brand analisou estas perguntas  medida  que trabalhava numa clula  nervosa  artificial.  Durante  muito tempo, eles usaram  um  sinal  audvel 
produzido    por  um aparelho de audio, um sinal que zumbiria quando os tecidos estivessem recebendo presses normais e zuniria ruidosamente quando os tecidos 
estivessem realmente   em  perigo.  Mas  o sinal no era suficientemente desagradvel. O  paciente  era capaz de tolerar o forte rudo se quisesse fazer  algo  como 
apertar uma chave de parafuso  com muita fora, mesmo que  o sinal lhe avisasse que isso lhe era prejudicial. Tentaram-se luzes cintilantes, que no  funcionaram 
pela  mesma  razo.
      Finalmente, Brand  recorreu a choques eltricos para obrigar as  pessoas  a  deixarem  de  fazer  aquilo  que  lhes   era prejudicial. As pessoas tinham de 
ser foradas a retirar  as mos; no  era suficiente apenas  alert-las  do  perigo.  O estmulo tinha de ser to desagradvel quanto -  Descobrimos tambm que o 
sinal  tinha  de  estar  fora  do  alcance  do paciente  - disse Brand. - At mesmo  pessoas  inteligentes, quando queriam fazer algo que  sabiam  resultar  no  
choque, desligavam  o  sinal,  faziam  o  que  tinham  em  mente,  e religavam  o sinal quando sabiam no haver  mais  perigo  de choque. Isso fez-me lembrar da 
sabedoria de Deus ao  colocar a dor fora do nosso controle.
      Depois de cinco anos de trabalho, de milhares  de  horas  de trabalho individual, e de uma despesa de mais de  um  milho de dlares, o Dr. Brand e os seus 
associados  abandonaram  o projeto. Um sistema de alarme que se ajustasse  para  apenas uma mo, alcanaria um preo exorbitante, estaria sujeito  a freqentes  
avarias    mecnicas,        e    ainda    seria irremediavelmente  inadequado  para  interpretar  o   grande nmero de sensaes percebidas pela mo. O  sistema 
chamado s vezes de "o grande erro  de  Deus"    era  demasiadamente complexo para ser reproduzido at mesmo pela tecnologia  mais sofisticada.
      Paul  Brand  diz  com  absoluta  sinceridade: -   Sejamos agradecidos a Deus pela existncia da dor! Por definio,  a dor  suficientemente desagradvel, 
a ponto de forar-nos  a retirar os dedos de um fogo  aquecido.  Mas,    justamente essa caracterstica que nos  livra  da  destruio.  Se  no fosse um sinal 
de alerta  que  exige  pronta  reao,    no prestaramos a ateno devida.
      Para os que sofrem de artrite deformante  ou  de  cncer  em estado avanado, a dor  terrvel  e  qualquer  alvio,  at mesmo um mundo sem dor, parecer 
o prprio cu.  Mas,  para a grande maioria das pessoas,  a  estrutura  da  dor  funciona diariamente como proteo.  realmente planejada para que  a vida seja 
possvel neste planeta  hostil.
      A dor, portanto, no  o grande erro de Deus.  uma  ddiva, a ddiva que ningum deseja. Sem ela, nossas vidas  estariam em perigo e prestes a sofrer decadncia.
      Mais do que nunca, a dor  deve  ser  compreendida  como  uma estrutura de comunicao.   ela  que  une  o  nosso  corpo, preservando  simultaneamente   os 
diversos    rgos    e consolidando-os  para o objetivo comum da proteo. 
      Longe de mim o afirmar que toda dor   boa.  Algumas  vezes, ela torna a vida completamente miservel. Mas, mesmo  assim, est cumprindo a sua misso de alertar 
o  organismo  de  uma sria enfermidade. A "ddiva da dor" nem sempre  corresponde a muitos problemas relacionados com o sofrimento.  Mas    o ponto inicial de 
uma  perspectiva    realista  sobre  dor  e sofrimento.
      Muito freqentemente  o  trauma  emocional  da  dor  intensa impede que apreciemos o seu valor intrnseco. Com  um  brao quebrado, ao tomar aspirina para 
amortecer a dor  latejante, a pessoa se esquece de agradecer a dor. Mas,  naquele  exato momento, a dor est alertando o  organismo  para  o  perigo, mobilizando 
as defesas antiinfecciosas  ao redor  da  parte afetada, e  evitando  piores  conseqncias.    dor,  exige ateno, o que  extremamente importante para a  recuperao 
do organismo.
      * O Dr. Brand  recebeu  a  famosa  distino  mdica  Albert Lasker e recebeu a Comenda do Imprio Britnico das mos  da rainha Elizabeth.
      * Apesar de estes sensrios serem tremendamente  sensveis, a pele  tem  uma  sensibilidade  grosseiramente  primitiva  se comparada com a sensibilidade do 
olho ou  do  ouvido,    que detectam mudanas de  luz  e  vibrao.  Para  produzir  uma sensao de tato, a energia  de 100 milhes a 10 bilhes de vezes a sensao 
visual ou auditiva.
      * Os cientistas ainda  conseguem  medir  outro  fenmeno  do sistema nervoso chamado limite dos dois pontos.  As  clulas da dor so inmeras, mas no esto 
espalhadas    ao  acaso.
      Temos exatamente o  nmero  necessrio.  O  teste  dos  dois pontos mede a sensibilidade da pele ao sofrer uma presso de dois alfinetes ou duas cerdas, estando 
a pessoa com os olhos vendados, a fim de determinar a  proximidade  em  que  devem estar os alfinetes  para que a pessoa sinta uma s picada  e no  duas.  Em  outras 
palavras,  este  teste  demonstra  a proximidade em que esto os sensrios individuais de dor. Na perna,    duas  picadas  tornam-se  indistintas,  quando  os alfinetes 
esto a uma distncia de 68mm. Mas,  no  dorso  da mo, distinguem-se duas picadas a uma distncia de 32mm,   e na ponta do dedo da mo a uma distncia de 2mm. Na 
ponta  da lngua, entretanto, a distncia  de apenas 1 mm.
      Isso explica o fenmeno  bastante  comum  de  sentir-se  uma partcula  de  comida  entre  os  dentes.  Com  a    lngua, descobre-se rapidamente em que fenda 
acha-se a comida.  Mas, com a ponta do dedo,  mais difcil localiz-la. Os  espaos entre os dentes "parecem menores" com o dedo do  que  com  a lngua.
    Quem  jamais  foi  ferido,  zomba  de  cicatrizes.
    William Shakespeare

O Inferno Indolor
      No queremos a dor. Mesmo conhecendo os detalhes mdicos  do seu  valor,  no  nos  convencemos  de  que    uma    parte necessria, altamente desejvel, 
da nossa  vida.  Mas    uma viagem  que  fiz  na  primavera  de  1976    impressionou-me indelevelmente, a ponto de passar a apreciar a  dor.  Passei uma semana 
com o Dr. Paul Brand, o apologista  da dor.
      O Dr. Brand tem um interesse todo especial na  estrutura  da dor; ele passou a maior parte da sua vida entre leprosos que so destrudos dia aps dia por terem 
um  sistema defeituoso de dor. A palavra "lepra" evoca imagens exageradas de  dedos sem ponta, lceras, pessoas sem pernas,  rostos  deformados.
      Livros  e  filmes  como  Ben    Hur  e   Papillon    tm-nos condicionado, muitas vezes erroneamente, a pensar na  lepra, ou hansenase*, como uma das doenas 
mais cruis.
      O mal de Hansen  cruel, mas no tanto  como  o  so  outras doenas. Age primeiramente como anestsico,  amortecendo  as clulas de dor das mos,  ps,  nariz, 
ouvidos    e  olhos.
      Realmente nada grave, poderia algum pensar. A  maioria  das doenas  temida por causa da dor que provocam.  O  que  faz uma doena indolor tornar-se to 
horrvel?
      A qualidade anestsica do mal de Hansen  justamente a razo pela qual surge a to falada destruio e  decomposio  dos tecidos. Durante milhares de anos, 
pensou-se  que  a  doena causava lceras nas mos e nos  ps,  e  que  essas  lceras produziam a putrefao da carne e a perda das  extremidades.
      Principalmente  mediante  pesquisas      do    Dr.    Brand, descobriu-se que em 99% dos casos, o mal  de  Hansen  apenas amortece as extremidades. A destruio 
que se segue  devida  falta do sistema de alerta   dor.
      Como se d essa destruio? Nos  povoados  da  frica  e  da sia, tem havido casos de  pessoas,  com  essa  doena,  que entraram numa fogueira para retirar 
uma  batata  que    ali tinha cado. No h coisa alguma  em  seu  organismo  que  a impea de fazer tal coisa. Havia pacientes  no  hospital  de Brand, na ndia, 
que eram capazes de trabalhar  o  dia  todo com uma p com um prego saliente no cabo; ou eram capazes de apagar a chama de uma vela com as  mos  desprotegidas; 
ou, ainda, podiam andar sobre cacos  de vidro.  Ao  observ-los, Brand comeou a formular a sua teoria de que o mal de Hansen   principalmente    anestesiante, 
e    destri    apenas indiretamente.
      Certa ocasio, ele  tentou  abrir  a  porta  de  um  pequeno depsito, mas o cadeado enferrujado no cedia. Um  paciente, um garoto de dez anos, desnutrido 
e raqutico,  aproximou-se dele, sorrindo.
      - Deixa-me tentar, Doutor.  -  e  pegou  a  chave,  com  uma contrao rpida da mo ele virou a chave na fechadura.
      Brand  ficou  atnito.  Como  pde   esse    garoto    fraco sobrepuj-lo? Mas, os seus olhos deram com a pista. No  era sangue aquilo no cho? Examinando 
os dedos do menino,  Brand descobriu que o fato de dar a volta na  chave  tinha  aberto uma ferida profunda no dedo, a  ponto  de  ficarem  expostas pele, gordura 
e articulao. O garoto, porm,    nada  tinha percebido. Para ele, a sensao de cortar seu  prprio  dedo era a mesma de apanhar uma pedra ou de jogar  uma  moeda 
no bolso.
      A rotina diria acaba com as mos e os ps dos pacientes que sofrem do mal de Hansen; eles  no  possuem  um  sistema  de alarme. Se torcem um tornozelo, lacerando 
tendo  e msculo, acomodam-se a isso e andam com ele torcido. Se uma  ratazana lhes ri um dedo  noite, s o percebem na manh seguinte.
Visita a Carville
      Eu prprio vi os devastadores resultados de uma vida sem dor quando fiz uma visita ao hospital do Dr. Brand.  Atualmente, ele trabalha em uma das  instituies 
mais    notveis  dos Estados Unidos, um "leprosrio" em  Carville,  Louisiana,  o U.S.. Public Health Service Hospital".
      Por causa do estigma da lepra,  Carville  acha-se  em  lugar afastado e de difcil acesso. O hospital foi  construdo  no local de uma antiga fazenda, que 
l havia h  112 anos e que antigamente era  rodeada  por  um  pntano.  O  terreno  foi comprado nos  anos  de  1890,  para  ser  ali  construdo  o hospital dos 
leprosos.  Mas,  para  que  os    vizinhos  no suspeitassem  da  verdadeira  inteno  dos  compradores,  o pretexto foi de ali se fazer uma criao de avestruzes.
      S o  hospital  abrange  mais  de  136  hectares  de  terra, incluindo um campo de golfe de nove buracos  e  um  lago  de guas  drenadas  do  pntano,  alm 
de  modernos  meios  de tratamento da doena. No mais existe  o  arame  farpado  ao redor de Carville, e os visitantes so realmente bem-vindos.
      *  Em certas ocasies, h at trs excurses  por dia.
      O ambiente  agradvel, os  edifcios  so  projetados  para pacientes em cadeiras de rodas, os cuidados mdicos  so  os melhores possveis, e o tratamento 
 gratuito  com as drogas mais modernas  disposio dos pacientes.  primeira  vista, a vida neste cenrio  sombra das plantaes torna-se  quase invejvel. Atualmente 
a  doena    est  sob  controle.  Na maioria dos casos, ela pode ser detida no primeiro  estgio.
      Mas ainda permanece um aspecto horrvel do mal de Hansen:  a perda da sensao de  dor.
A Perigosa Auto-harpa de Lou
      Tive a oportunidade de visitar um ambulatrio  em  Carville.
      Dois fisioterapeutas, uma enfermeira  e  o  Dr.  Paul  Brand sentaram-se  em  semicrculo  defronte  a  uma  tela      de televiso. Trs pacientes seriam 
vistos naquele  dia,  todos eles com srios problemas.
      Veio o primeiro, um  havaiano  de  meia  idade  chamado  Lou (naturalmente,  no    o  seu  nome  real).  Lou  era  mais deformado do que a maioria, pois 
veio a Carville quando    a doena j se encontrava em estado adiantado.  J  no  tinha pestanas, e havia alguma coisa diferente nas suas plpebras, o que lhe dava 
uma  aparncia  desequilibrada,    como  que faltando  algo.    que  as  suas  plpebras   j    estavam paralisadas, de maneira que as lgrimas tendiam a extravasar 
como se ele estivesse sempre chorando.  O Dr. Brand disse-me num cochicho que Lou estava quase totalmente cego.  A  perda da sensibilidade foi parcialmente responsvel 
por  isso:  a superfcie dos seus olhos  deixou de distinguir a  irritao e o desconforto que requer um piscar de olhos;  e,  como  as plpebras    amortecidas 
cada    vez    piscavam    menos freqentemente, isso afetou  a sua vista.
***
      Os ps de Lou eram tocos gastos, sem  dedos.  As  suas  mos estavam  marcadas  com  fendas  e   cicatrizes    profundas, resultado de antigas lceras. Mas 
o seu  principal  problema era psicolgico. Lou sentia que uma porta tinha sido fechada entre ele e o mundo. Quase cego, no podia perceber  bem  as pessoas. Tinha 
perdido completamente o sentido  do  tato,  e no podia nem mesmo sentir se lhe  queimasse  a  mo  ou  se pisasse em pregos. O ltimo sentido que ainda possua 
era  a audio e era esta a fonte do seu  grande temor.
      Com a voz tremendo, Lou contou ao grupo o quanto ele amava a sua auto-harpa. Ele podia tocar melodias havaianas do  tempo da sua infncia e sonhar com os dias 
da  sua juventude.  Era um devoto cristo e tinha prazer em tocar os hinos de louvor a Deus, chegando mesmo a tocar em sua  igreja.  Para  tocar, Lou prendia a palheta 
ao  nico lugar do seu dedo que  ainda possua algum tato. Ele era capaz de sentir uma variao  na presso de modo a selecionar as cordas e toc-las.  Mas  ele 
no era    suficientemente  sensvel  para  estar  alerta   presso perigosa. Horas de auto-harpa haviam deixado calos e ulceras no seu polegar. Somente agora procurava 
a  clnica.
      Tivera medo de vir antes. - Podia o Dr. Brand achar um jeito para que ele continuasse a tocar auto-harpa sem  prejudicar a mo? - ele pedia, quase implorando. 
A  equipe  observou  a mo de Lou no monitor de televiso. Usavam o termograma,  um aparelho que converte as diversas temperaturas do  corpo  em cores berrantes. 
No  termograma,    a  mo  de  Lou  estava delineada  numa  mistura  psicodlica  de   verde-amarelado, amarelo-limo, vermelho-escarlate, e todas as nuances  entre 
essas cores. O verde representava   as  partes  mais  frias, violeta representava o calor quase normal. Vermelho vivo era um sinal de perigo, pois  mostrava  que 
a  infeco  estava sendo combatida  internamente.  Amarelo  demonstrava  perigo extremo.
      O nico ponto mais til do polegar  de  Lou  era  facilmente visvel. Era do tamanho de uma  ponta  de  alfinete  de  cor amarela; estava inflamado pelo uso 
constante. 0   termograma  o melhor sistema de alerta que a cincia pode oferecer  s pessoas que no sentem dor. Infelizmente,  ao  contrrio  da dor, somente 
detecta o perigo depois  do perodo de  presso e no durante. Qualquer pessoa estaria plenamente consciente de um polegar infectado. Latejaria o dia todo, at  
que  no fosse mais usado e  recebesse um  adequado  tratamento.  Mas Lou no possua tal vantagem. Ele no  tinha  capacidade  de saber quando estava prejudicando 
e  aumentando  o  ponto  de infeco  do polegar.
      A equipe projetou uma luva para a mo de Lou, a  qual  viria aliviar parte da presso da palheta da auto-harpa. Depois de ter ele partido,  a  enfermeira  
que  trabalhava    com  Lou expressou o seu pessimismo: - Lou detesta luvas. Elas chamam ateno s mos e, certamente, a luva diminuir  o  controle sobre o toque. 
Com certeza, ele a  usar  no  primeiro  dia, para depois deix-la de lado.
      Lou j estava afastado das pessoas,  tendo  perdido  contato com elas  medida que perdia os sentidos da vista,  tato,  e tambm um pouco da audio. Agora, 
achava-se ameaado o  seu ltimo grande  amor:  a  ntima  auto-expresso  atravs  da msica. Podia ser que ele voltasse dentro de poucas  semanas  com uma infeco 
generalizada tendo como  conseqncia  uma leso permanente no polegar.  Ele  corria  o  risco  de  at perder aquele dedo. Mas, o tratamento   voluntrio.  Sem 
o seu prprio  sistema de dor para for-lo a agir, Lou  tinha a arriscada opo de ignorar o sinal  de  alerta  dado  pelo termograma.
Uma Escova e Um Sapato
      Outro paciente, um homem  de  pele  azul,  entrou  na  sala.
      Heitor tinha uma fala arrastada e profunda. Vinha do  Texas, um dos poucos estados da Amrica do Norte onde    o  mal  de Hansen pode ser encontrado. O seu 
organismo no se dava  bem com  as  sulfonas  geralmente  usadas   para    tratar    os hansenianos, e os mdicos estavam tentando  uma  nova  droga que era um corante. 
Era essa a razo da sua pele estar  toda manchada de  azul.  Heitor  sacrificava  alegremente  a  sua aparncia normal para deter a disseminao  do mal de Hansen 
por todo o corpo. 
      O termograma, entretanto, prontamente  revelou  um  vermelho vivo, sinal de perigo, na  membrana  entre  o  polegar  e  o indicador da mo direita. Um calo 
escondia qualquer    sinal externo de infeco. Interrogando-o  minuciosamente,  o  Dr. Brand e os outros tentavam  descobrir  quais  as  atividades dirias de Heitor. 
De que maneira ele  se    barbeava?  Como calava os sapatos? Qual era o seu trabalho?  Jogava  golfe?  Jogava bilhar?
      Em algo  que  fazia  diariamente,  Heitor  estava  segurando alguma coisa com demasiada  firmeza  entre  o  polegar  e  o indicador. A sua mo ficaria mais 
e  mais  danificada,    a menos que se  pudesse  descobrir  qual  a  atividade  que  o prejudicava, e tal atividade fosse retirada de sua rotina.
      Finalmente, descobriu-se. Depois de um ameno dia de trabalho como caixa de uma cantina, Heitor ajudava a fazer  a  faxina do  local.  Diariamente  ele  esfregava 
o  assoalho    para eliminar  qualquer  mancha  de  refrigerante  ou  doce.    O movimento para frente e para trs, unido  sua  incapacidade de regular a fora 
a ser imprimida no cabo da  escova, havia danificado o tecido do lado de dentro do polegar. O mistrio estava resolvido.
      Heitor agradeceu  equipe  efusivamente.  Um  fisioterapeuta prometeu conseguir do chefe de Heitor a mudana da atividade que o prejudicava.    Veio  o  ltimo 
paciente:  Jones.  Em contraste com a grande  maioria  das  pessoas  de  Carville, Jones estava vestido  ltima moda. Usava bonitas calas  de tecido xadrezado 
e via-se que a sua camisa tinha  vindo  do tintureiro. Os seus sapatos eram, tambm,  muito  diferentes dos  feios  sapatos  pretos  ortopdicos  da  maioria    
dos pacientes.  Jones calava sapatos elegantes, de bico fino, e tinham uma bonita cor marrom, demonstrando  terem  sido  bem engraxados.
      Na realidade, os sapatos eram  o  problema.  Ele  se  vestia muito bem, porque trabalhava em regime  de  tempo  integral, como vendedor, numa  loja  de  mveis. 
Os  terapeutas    de Carville haviam tentado convencer Jones a usar sapatos  mais apropriados aos seus ps, embora menos  elegantes,  mas  ele jamais aceitou tal 
idia. Para ele, o  trabalho    e  a  sua imagem eram mais importantes do que a perda de grande  parte do p.  Quando Jones tirou os sapatos e meias, o p  mostrou 
aquilo que eu jamais havia visto.  No  havia  protuberncia alguma onde  deviam  estar  os  dedos.  Havia  apenas  tocos redondos  sobre  os  quais  ele  andava. 
Os    termogramas ilustraram  graficamente  o  problema.  Sem  os  dedos  para amortecer o efeito do calcanhar levantado  ao  andar,  Jones foi gastando  sistematicamente 
o  toco,  causando  infeco permanente. Uma pessoa normal mancaria  automaticamente,  ou passaria a usar outro tipo de calado. Mas Jones  no sentia os sinais 
de perigo. A equipe conversou longamente  com  ele sobre o problema, mas Jones  foi  delicadamente  inflexvel.
      Ele  no  estava  disposto  a  usar  os  sapatos  feitos  em Carville, que lhe pareciam inadequados    sua  aparncia  e posio. Isso faria com que os seus 
fregueses  suspeitassem de que havia algo de errado com ele. A fisionomia e as  mos eram quase normais. Ele  no deixaria que os ps o trassem.
      Finalmente, o Dr. Brand chamou o sapateiro e  pediu-lhe  que fizesse uns  ajustes  nos  sapatos  de  Jones  que  pudessem aliviar a presso.
      Depois da sada dos pacientes, o Dr. Brand virou-se para mim e disse:
      - A dor  muitas vezes  julgada  como  agente  inibidor  que cerceia certas atividades. Eu a vejo, porm, como  a  grande doadora de liberdade.  Veja  estes 
homens.  Lou:    estamos procurando  desesperadamente  uma  maneira  de  lhe  dar   a liberdade de tocar auto-harpa.  Heitor:  ele  no  pode  nem esfregar o cho 
sem prejudicar-se. Jones: orgulhoso   demais para um tratamento adequado; ele teria de usar um sapato que no o deixasse perder uma parte ainda maior do p. No 
pode calar e andar normalmente; para  isso, precisaria da ddiva da dor.
Pessoas Sem Dor
      Carvlle e outros hospitais para  hansenianos  ao  redor  do mundo tm legies de pessoas que  esto  se  destruindo  sem sentir a dor. Mas, a lepra no  
a nica coisa  que amortece os sentidos. O diabtico defronta-se com  perigo  semelhante de perda de dor  nas  extremidades.  Viciados  em  lcool  e drogas podem 
tambm  ter  os  seus  sentidos    amortecidos.
      Durante  o  inverno  em  pases  de  clima   frio,    muitos alcolatras morrem porque o corpo no sente o frio cortante.
      H pessoas que nascem com uma estranha  deficincia  chamada "indiferena congnita  dor". Estas pessoas tm uma espcie de sistema de alerta, mas, como as 
luzes  cintilantes  e  os sinais audveis do Dr.  Brand, no produzem dor. Para  elas, a sensao de tocar um fogo quente  a  mesma  de  tocar  o piso da entrada 
da garagem. Para uma criana, especialmente, h o perigo  dela interpretar os sinais de  dor  como  sendo sinais de prazer e, portanto, prejudicar-se.
      Uma famlia contou a fantstica histria de sua garotinha  a quem tinham nascido quatro dentinhos. A me, ouvindo-a rir e murmurar no quarto ao lado, foi at 
l esperando    que  ela tivesse  descoberto  alguma  nova  diverso.  O  nen  tinha mordido a ponta do dedo e estava  brincando  com  o  sangue, fazendo desenhos 
com as gotas. Sem dor, ela  havia perdido o sentido inato da autoproteo. Como explicar  o  perigo  dos fsforos, facas e lminas de barbear a crianas  como  esta?
      Uma menina de sete anos beliscou  tanto  seu  nariz  que  as suas narinas ficaram cheias de lceras.
      Estas pessoas podem sofrer operao cirrgica sem anestesia, e muitas vezes impressionam seus amigos  com  proezas,  tais como enfiar um alfinete nos dedos. 
Mas  a  sua    vida  est marcada pelo perigo. Uma mulher quase perdeu a  vida  porque contraiu uma sria doena sem sentir o  sintoma  de  alerta, que seria dor 
de cabea. Muitos prejudicam  os seus prprios ossos porque no conseguem  reconhecer  o  abuso  a  que  os sujeitam. Podem torcer o pulso  sem  saber  que  isso 
tenha acontecido, e continuar a us-lo  para o  seu  prprio  mal.
      Uma garota de dezesseis anos perdeu todos os  dedos  da  mo por negligncia.
      Aqueles que sofrem  de  insensibilidade  congnita  precisam depender de indcios  que  eles  aprendem  a  observar.  So capazes de sentir alguma coisa, tal 
como uma leve   sensao de ccegas.  A  fim  de  poderem  reagir,  entretanto,  eles precisam prestar muita ateno  rea em questo. Uma pessoa normal reagiria 
imediatamente; eles precisam   concentrar-se para saber o que fazer.
      Os exemplos de "inferno indolor" so numerosos  e  trgicos.
      Deviam fazer com que todos ns nos descartssemos  da  noo usual de que a dor  uma coisa desagradvel  a ser evitada a todo o custo. Geralmente, a dor no 
refreia a vida. Mais  do que qualquer outra coisa, ela nos liberta para que  possamos aproveitar  a  normalidade    neste  planeta.  Sem  a   dor, levaramos vidas 
desequilibradas  e  anormais,  encontrando perigos desconhecidos, sem nunca podermos  estar  certos  de no estarmos destruindo  a ns prprios.
      Antes de visitar Carville,  livros  de  medicina  j  tinham feito a sua parte para me convencer do valor da dor.  Eu  j estava comeando  a  ver  que,  mesmo 
no  caso  de  Claudia Claxton, a dor no era o problema  fundamental,  mas  sim  a prpria doena. A dor estava apenas informando-a de  que  as clulas  do  cncer 
e  os  raios   de    cobalto    estavam prejudicando o  seu  corpo.  Sem  a  dor,  ela  poderia  ter morrido, inconsciente  presena da  doena.  A  semana  que 
passei em Carville deixou memrias visuais muito  profundas.
      Todas as vezes em que sou tentado a revoltar-me contra  Deus por causa da dor, lembro-me de Lou, dos  seus  olhos  sempre lacrimejantes, do seu rosto cheio 
de cicatrizes,  incapaz de sentir o toque de algum, procurando freneticamente um jeito de continuar com a sua msica, seu ltimo amor na vida.
      O nico ambiente seguro para uma pessoa  incapaz  de  sentir dores  ficar na cama  o  dia  todo  .  .  .  mas  at  isso produzir feridas.
      *Todos os pacientes preferem o termo hanseniase, porque este no traz o estigma social e moral da palavra "lepra".
      - Lepra  uma palavra to  temida  que  tem  sido  impossvel informar o pblico sobre a verdadeira  natureza  do  mal  de Hansen. Pelos pacientes de Carville, 
est demonstrado    que dentre todas as doenas  contagiosas,  o  mal  de  Hansen   provavelmente a menos contagiosa, e que 90% das pessoas  so imunes.  Apesar 
de  um  contato  dirio    com    pacientes infectados, em noventa anos de  funcionamento,  somente  uma pessoa, um empregado, contraiu o mal de Hansen em  Carville.
      Assim mesmo, suspeita-se que ele  j  tenha  vindo    com  a doena incubada, pois era oriundo de uma rea endmica.
      * Stanley Stein, autor do livro "No Longer Alone" (No Mais Sozinho), o mais famoso paciente de Carville, ficou cego por causa de outra peculiaridade do mal 
de    Hansen.  Todas  as manhs ele lavava o  rosto  com  um  pano  molhado  em  gua quente, mas nem a  mo  nem  o  rosto  tinham  sensibilidade suficiente  para 
avis-lo  de  que  estava    usando gua fervendo. Gradualmente, ele destruiu  os  olhos  com  a  sua higiene diria.
     inconcebvel! Estou com 69 anos e  jamais  vi  uma  pessoa morrer. Nem jamais estive na  mesma  casa  em  que  houvesse algum morrendo. E nascer? Somente 
no ano  passado    vi  um nascimento, ocasio em que fui convidado  por  um  obstetra.
    Imaginem s! Estes so os maiores acontecimentos da  vida  e esto  inteiramente  fora  da  nossa  experincia.  Omitimos cuidadosamente  as  fontes  das   emoes 
humanas    mais profundas,  e  ainda  temos  esperana  de    levar    vidas emocionalmente  plenas.    muito  difcil  sentir  alegria, quando no se teve a experincia 
da dor.
    George Wald Prmio Nobel
      
A Agonia, depois o xtase
      Se  algum  visitar  um  leprosrio,  provavelmente   jamais voltar a fazer perguntas sobre o importante papel  da  dor. Sem ela, a vida  uma seqncia  
miservel  de  receios    e perigos.  Levando  em  considerao  fatos  fisiolgicos,  a maioria admitir que realmente um pouco de dor  coisa  til e at boa.
      Entretanto, mais do que este aspecto da dor,  negligencia-se o elo ntimo existente entre dor e prazer. As duas sensaes funcionam em conjunto, uma freqentemente 
acompanhando  a outra, tornando-se algumas vezes  quase  indistinguveis.  A dor no somente  til  como  alerta;  pode  tambm  ser  um elemento essencial nas 
nossas experincias  reais ricas.
      Parece esquisito? Possivelmente, pois nossa cultura  moderna metralha-nos  diariamente  com  um  conceito   absolutamente diverso. Aprendemos que a dor  a 
anttese do  prazer.  Quem sente uma leve dor de cabea, corre a tomar aspirina.  Se  o nariz comea a escorrer, trata-se logo  de  sec-lo  com  um descongestionante 
da  mucosa  nasal.    Ao  menor  sinal  de constipao, corre-se  farmcia e escolhe-se um lquido, ou plula, ou ainda um enema.
      Ns, os modernos, isolamo-nos de um mundo que  reivindica  a dor como sua parte integral. Em toda a histria,  exceto  em tempos muito recentes, a dor foi 
uma ocorrncia    normal  e diria, coisa natural para qualquer  pessoa.  Atualmente, a dor  considerada um acessrio, um intruso que  precisa  ser eliminado.
      A  sociedade  globalizada  afasta-nos  do  ciclo  dirio  de sofrimento  e  morte  do  mundo  animal.  Quantas    pessoas conhecidas  seriam  capazes  de  
torcer  o  pescoo  de  uma galinha?   No    fcil.    preciso  ter  fora  e  rpida coordenao para virar o pescoo enquanto se segura o  animal que se debate 
e, ento, separar o pescoo num estalo rpido, mas o processo ensina algo sobre a vida. Os pedaos de carne encontrados no  balco  do  supermercado, sem  penas, 
sem sujeira, sem sangue, apertados no  invlucro,    nada  dizem sobre a vida; removem-na de ns. 
      Deixe-me acrescentar que eu compro galinha no  supermercado, e o meu escritrio tem ar-condicionado para  me  aliviar  do desconforto do calor. Tambm uso 
sapatos  para    evitar  a aspereza do cho e dos cascalhos, e uso luvas de tnis  para evitar bolhas  e  calos.  Fao  estas  coisas  deliberada  e alegremente, 
porque  elas  tornam  minha       vida    mais confortvel. Mas elas tambm me ajudam a ficar isolado. Luxo e conforto abundante do-me uma perspectiva do  mundo 
e  da dor, que jamais foi compartilhada   em  qualquer  sculo  da histria e no  compartilhada, tampouco, por dois teros da populao atual do mundo. Eu e a 
maioria dos  americanos  do norte, sofremos a tendncia  de analisar a dor como algo que pode e deve ser dominado pela tecnologia. O nosso  ponto  de vista distorcido 
adota o mito de que dor e prazer so coisas diametralmente  opostas. Nosso  estilo  de  vida  sugere-nos isso diariamente.
Crebros Excitados
      Um  biotcnico  de  Louisiana  compara  o  crebro   a    um amplificador. Ele recebe uma deslumbrante coleo de fontes de energia. Em vez de discos ou fitas, 
o crebro recebe   os sentidos  do  tato,  viso,  audio,  etc.  Quando  um  dos sentidos comea a  enfraquecer,  o  crebro  automaticamente aumenta o seu volume. 
s vezes, uma  pessoa  com  o  mal  de Hansen no percebe a perda de um  sentido    at  que  tenha desaparecido inteiramente; isso porque o  seu  crebro  veio 
compensando a perda com aumento de volume at o  momento  em que o sentido no funciona mais.
      A cultura moderna entristece-me, porque  vem  constantemente aumentando  o  volume.  Temos  ouvidos:   eles    so    to bombardeados com decibis que os 
tons mais  sutis  perdem-se para sempre.  Temos  olhos:  confrontamo-nos  com  o  brilho ofuscante dos nons e o brilho fosforecente dos anncios, ao ponto de o 
pr-do-sol e a borboleta ficarem eclipsados  pela comparao.  Temos  nariz:  perfumes  qumicos  esto    to facilmente ao nosso alcance, perfumamo-nos  com  to 
grande variedade  de  odores,  e  jogamos  tantas  toneladas     de partculas desagradveis no ar, que muitos de ns no  temos a mnima a idia do cheiro do mundo 
ao natural.
      No mais andamos ao lado do lago para  ouvir  as  rs  e  os grilos, ver os peixes na  gua  como  submarinos,  sentir  o cheiro suave das flores silvestres. 
Nem tampouco   visitamos lugares onde a natureza est longe de ser sutil.  l que as rochas se avultam caprichosamente no horizonte  em  formatos gigantescos; quedas 
d'gua  agridem    os  sentidos  com  um rugido ensurdecedor, com borrifos de gua gelada, e  com  um espetculo visual de  beleza  a  mudar  de  cenrio  a  cada 
momento; animais que mais parecem    desenho  animado,  tais como o alce e o castor, esperam ser por ns  Descobertos. Em lugar de tudo isso, as  nossas  experincias 
so  vicrias: afundamo-nos numa poltrona em frente a  uma  TV  bruxuleante com cores que no so nada naturais.
      Em nossa cultura, h pessoas usando drogas para intensificar a percepo; sentam-se sozinhas,  apreciando  um  espetculo interior de luz psicodlica) as suas 
emoes    mudando  de marcha como numa corrida em alta velocidade.
      Adolescentes usam a palavra "drogados" para as  pessoas to sobrecarregadas de sensaes que  se  tornaram quase embotadas.  Eu  prefiro a palavra "excitados". 
Sentir sensaes de  segunda  mo", sensaes  j  preparadas  por outros,  fcil demais. Deixamos de sentir prazer em  coisas que exigem o nosso esforo, pelas 
quais  temos de lutar.  Se a busca envolver dor ou sofrimento, ns a abandonaremos.
      Annie Dllard escreveu um  dos  meus  livros  favoritos:  Um Peregrino no Riacho do Latoeiro (Pilgrim  at  Tinker  Creek) que ganhou em 1975 o prmio do "National 
book",  e tambm  o prmio "Pullitzer". Se me perguntassem do que se  trata,  eu diria: -  uma senhora que vive ao lado  de  um  riacho,  em agonia, faz passeios 
no bosque  e    defronta-se  com  ratos almiscarados e com lagartas, alm de muitas  outras  coisas.
      No h muito enredo; o interessante  a reao dela.  mesmo um livro notvel por  mostrar uma pessoa que  olha,  ouve  e cheira ativamente. No  um  livro 
idlico  de  adorao   natureza.  So  descobertas  muito  mais  profundas  do  que qualquer de ns  faria. A autora pode tornar um passeio pela floresta  muito 
mais  sensacional  do  que  uma  viagem    Disneylndia.
      A tendncia de nossa cultura  afastar-nos de  um  mundo  de sensaes ativas, ao vivo,  principalmente  quando  envolvem dor.
Esteiras de Folhas de Coco
      Da mesma maneira que  os  msculos,  nossos  sentidos  podem tornar-se mais  receptivos,  mediante  estmulos  repetidos.
      Alguns cientistas afirmam que as pontas dos  nossos    dedos so incrivelmente sensveis  porque  na  infncia  eles  so muito usados. Os terminais  nervosos 
podem  tornar-se  mais sensveis do que j so. A sensibilidade da  pele  pode  ser aumentada,  apenas  pelo  fato  de  se  escovar   o    brao diariamente com 
uma escova de nilon. Com o correr do tempo, o brao estar apto a receber maior  gama  de  sensaes  de prazer e de dor.
      Por esta razo, o Dr. Brand, meio por brincadeira, e meio  a srio, sugeriu que  os  nens  fossem  criados  em  esteiras speras de folhas de coco, e no 
em camas  com    cobertores macios. Rodear um  nen  com  sensaes  macias  e  neutras, reprime  o  desenvolvimento  dos  nervos  e    limita    sua possibilidade 
de interpretar o mundo. Brand tambm    contou que sua esposa no permitiu que ele rodeasse o  cercado  dos filhos com arame  farpado.  Crueldade?  Apenas  treinaria 
a criana a aceitar um mundo onde certas  coisas, como  foges quentes, esto fora dos nossos limites e so dolorosas.  Ele  de opinio de que quanto mais mimamos 
as crianas, mais as preparamos para uma  vida de isolamento,  sem  as  sensaes que elas poderiam ter.
      Andar descalo, por exemplo, principalmente na areia  ou  na grama, ajuda a aumentar o nmero de sensaes. As  variaes sutis do formato e da textura da 
grama alimentam  o  crebro com as informaes sensoriais necessrias,  o  que    vital para o  desenvolvimento  do  crebro.  Cientistas  franceses fizeram  uma 
experincia,  na  qual  algumas        pessoas prontificaram-se  a  viver  por  algum  tempo  em  aposentos isolados  de  qualquer  estmulo  externo.  Os    cientistas 
chegaram  concluso de que, para terem uma vida  normal, as pessoas precisavam ser bombardeadas com estmulos  externos.
      Sem  estes  estmulos,  elas  se  tornam  desorientadas    e inquietas, chegando mesmo a sofrer alucinaes.
       fcil esquecer que  os  mesmos  sensrios  nervosos  e  os mesmos condutores que levam  mensagens  de  dor  ao  crebro levam tambm as mensagens de prazer. 
A sensao de   coceira (desagradvel) e a sensao de ccega (agradvel)  sofrem  o mesmo estmulo, sendo que a nica diferena  que  a  ccega envolve o movimento 
de alguma coisa  em ao sobre a pessoa: uma pena em contato com a pele, ou a carcia de um  dedo  em ponto sensvel. Os sensrios so os mesmos; ns simplesmente 
interpretamos uma   ao  como  agradvel  e  a  outra  como desagradvel. Algumas dores, como a de  uma  alfinetada  que pode parar a coceira de uma mordida de 
mosquito, esto  mais prximas  do prazer que do desprazer.
      Os sensrios dos dedos que  alertam  o  indivduo  contra  o calor, ou contra um leve  choque  eltrico,  ou  contra  uma superfcie spera, so os mesmos 
que o levam  a  sentir    o veludo ou o cetim. Os  sensrios  que  transmitem  o  prazer sexual so os  mesmos  que  levam  mensagens  de  alarme  ao crebro.
      As pessoas que  gostam  de  tomar  banho  quente  geralmente deixam correr gua mais quente do que podem  suportar.  Elas esperam  alguns  poucos  minutos 
e,  ento,  cuidadosamente colocam a mo ou a perna dentro da gua.  Oh!  Uma  dolorosa exploso de dor. Tiram o membro e depois  tentam  novamente.
      Desta vez a dor  menor. Ento elas colocam   outras  partes do corpo na gua. O processo de mergulhar o corpo dentro  de uma banheira cheia de gua quente 
ilustra a  ntima  ligao entre a dor e  o  prazer.  As  duas  sensaes  misturam-se, tornando-se    indistinguveis.  As    clulas    ajustam-se rapidamente, 
e aquilo que parecia ao crebro uma  substncia perigosa torna-se alguns segundos depois suave e relaxante.
Passas na Montanha
      
      A associao ntima entre sofrimento e prazer no se  aplica somente ao corpo. A experincia humana demonstra  que  essas duas qualidades acham-se entrelaadas. 
Freqentemente,    o prazer intenso s aparece depois de uma luta prolongada.
      Um dos meus amigos costuma  fazer  longas  caminhadas  pelas montanhas.  uma atividade rdua e cansativa, que o leva aos limites da sua capacidade fsica. 
Ao fim do    dia,  ele  se joga exausto no saco de dormir e acorda  cheio  de  dores  e arranhes.  Tropeando  nas  pedras  soltas  e  atravessando passagens difceis 
pelas rochas, ele  fica com  os  msculos dodos, machuca os seus dedos, e sente muita dor. Mas o  meu amigo relata que, no meio de todas  estas  experincias,  
os seus sentidos so  grandemente    afetados.  Parece  que  se tornam mais vivos. Quando ele respira  grandes  golfadas  de ar, torna-se mais consciente da existncia 
do ar. Seus olhos e os seus ouvidos  ficam mais atentos ao que se passa do que normalmente. Certa vez,  depois  de  andar  uma  tarde  numa neblina fria, ele explorou 
os seus bolsos  procura de  algo para  comer. A  sua  comida  tinha-se  acabado,  sobrava-lhe apenas uma caixa de passas. Negligentemente, abriu a caixa e jogou 
a primeira passa na boca. Sentiu  um  sabor  incrvel.
      Comeu  outra  e  mais  outra.  Pareciam  at    superpassas, muitssimo mais gostosas e  refrescantes  do  que  quaisquer outras que houvesse algum dia comido.
      O fato de usar o seu corpo, bem como todos os seus sentidos, deu-lhe uma conscincia  de  prazer  numa  gama  de  valores inteiramente nova. Ele  jamais  sentiria 
tal  sabor,    to delicioso e extraordinrio, em umas simples  passas  se  no fosse  pela  fadiga  e  pelo  esforo  violento  de  escalar montanhas o dia todo.
      Lin Yutang descreve uma  antiga  filosofia  chinesa  no  seu livro "My Country and My People" (Meu pas e  meu  povo):
      - Sentir-se ressequido e sedento em terra quente  e poeirenta, e receber grandes gotas de gua na pele despida, no   isso a felicidade? Sentir coceira numa 
parte ntima do  corpo,  e finalmente conseguir escapar  dos  amigos  para,  num  lugar escondido, co-la, no  isso  a  felicidade?  -  Na  longa lista de "felicidade" 
de Yutang, quase todas  elas  combinam sofrimento com xtase.
      As sensaes de fome e sede podem levar  ao  tormento. Mas, sem elas, poderamos  ser  abenoados  com  as  delcias  do paladar?
      Os atletas conhecem muito bem essa estranha irmandade  entre sofrimento e xtase. Observe um levantador Olmpico de peso.
      Ele se aproxima da barra de  ao  com  pesados    e  enormes discos.  Respira  fundo.  Faz  uns  trejeitos,  flexiona  os msculos. Abaixando-se,  d  alguns 
arrancos  preparatrios para ficar mais flexvel. Ento,  ele  se    agacha,  retesa todos os msculos do corpo num enorme reflexo,  e  comea  a levantar. Veja 
s a dor expressa no seu rosto. Cada milsimo de segundo em que empurra o  peso para cima at  chegar  aos ombros e depois levant-lo acima da cabea est estampado 
na agonia da sua face. Os msculos esto gritando  por  alvio.
      Se for bem  sucedido, ele atira os  pesos  ao  cho  com  um tremendo estrondo. Pula para o alto, as mos enlaadas acima da  cabea.  Agonia  absoluta  e 
xtase  absoluto  em  dois segundos.  Um no teria existido sem o outro,  Mas,  se  lhe perguntarmos o que ele acha da dor, ele ficar perplexo.  J a esqueceu, 
ela foi pelo prazer. sobrepujada .
Um Preldio de Trs Anos
       Num nvel mais elevado, a maioria das realizaes humanas de grande mrito envolve uma grande histria de lutas. Seria  o prazer possvel sem o processo da 
dor?  As    esculturas  e Pinturas de Miguelngelo  envolvem.  anos  de  sofrimento  e misria. Qualquer que tenha conseguido algo de valor em  sua casa, tal como 
construo de mveis  ou  o  simples  ato  de plantar um jardim, conhece esta  verdade.  O  prazer,  vindo depois da dor,  absorve-a. Jesus usou o  nascimento  de 
uma  criana  como analogia: nove meses de espera, dor excruciante,  e,  ento, xtase absoluto.
      Falei certa vez com Robin Graham, a pessoa mais jovem que j velejou ao redor do mundo, sozinha. Quando comeou a  viagem era um garoto imaturo de dezesseis 
anos,   procura de algo.
      Durante  os  trs  anos  em  que  velejou  pelo  mundo,  foi seriamente atingido por uma  violenta  tempestade  martima, viu o mastro rachar-se em dois,  
e  por  pouco  no  sofreu destruio total numa tromba d'gua.
      Ao chegar  zona  das  calmarias  equatoriais  onde  no  h ventos nem correntes martimas, ele  ficou  to  desesperado que desistiu de tudo , encharcou 
o barco com  querosene    e ateou fogo . Mudou de idia imediatamente e pulou  de  volta para o barco afim de extinguir  o  fogo  com  suas  prprias mos. Depois 
de trs anos , Robin entrou  no  porto  de  Los ngeles e foi  saudado  por  barcos,  bandeiras,  multides, jornalistas, carros buzinando e apitos de navios. A 
alegria de  retornar  foi  muito  diferente  de    qualquer    outra experincia que ele tivera. Mas, ele  jamais  teria  sentido essas emoes de alegria se apenas 
voltasse de um  agradvel passeio pela costa. O sofrimento e a  agonia  da  viagem  ao redor do  mundo  tornaram  possvel  a  exultao  da  volta triunfal. Partiu 
um garoto de dezesseis anos e  voltou    um homem de dezenove. Impressionado pela  sade  mental  que  a auto-realizao pode trazer, Robin comprou imediatamente 
uma fazenda em Kalispell, Montana, e l construiu  uma cabana de toras cortadas a mo. Editores e agentes de cinema  tentaram engod-lo com viagens ao  redor  do 
pas,  com  a  fama  de conferencista  e  com  o  conforto  de     grandes    lucros financeiros; mas Robin a tudo declinou.
O Cenrio da Coragem
      H um corolrio para o princpio cristo sofrimento/prazer.
      O real esprito do Cristianismo acha-se no  fato  de  que  a verdadeira  satisfao  vem,  no   por    uma    realizao egocntrica e confortvel, mas por 
meio de servio tedioso e sofrido.  Madre  Teresa,  de  Calcut,  encontra  um   nvel inteiramente novo de  paz  e  felicidade.  O  leprosrio  de Carville, no 
estado de Louisiana, foi originalmente comprado pelo  estado,  que  pretendia  ali  estabelecer  uma  grande organizao para os sofredores  do  mal  de  Hansen. 
Mas  o estado no  conseguiu  ningum  que  limpasse  as  estradas, consertasse as cabanas dos escravos, nem drenasse o pntano.
      Ningum queria trabalhar perto de pessoas com  essa  doena.
      Finalmente, uma ordem de  freiras,  as  Irms  de  Caridade, ofereceram-se  para cuidar dos leprosos. Como pessoa  alguma quisesse  ali  trabalhar,  elas  
mesmas    cavaram    valas, consertaram as construes, e tornaram o lugar  habitvel  e durante o tempo todo glorificaram a Deus e levaram   alegria aos pacientes. 
Elas  aprenderam  a  associao  talvez  mais profunda sofrimento/prazer da vida: o  servio  sacrificial.
      No se pode tirar o sofrimento das experincias  da  vida  e conden-lo  severamente.  A  reao  instintiva  de  revolta contra Deus por permitir ele a dor, 
 extremamente    ftil.
      Ela est por demais entrelaada com as nossas  sensaes,  e ,  freqentemente,  um  passo  necessrio  ao  prazer  e   realizao. Espero que, ao envelhecer, 
no  venha  a  morrer por entre lenis esterilizados, preso a um  pulmo  de  ao num ambiente totalmente livre de germes, mas  num  campo  de tnis, forando o 
corao numa ltima e violenta rebatida de um septuagenrio, ou, talvez, descendo arquejante e ofegante por uma trilha na  parte  sul  das  Cataratas  do  Yosemite, 
sentindo pela ltima vez   no  rosto  enrugado  os  borrifos d'gua. Se eu gastar a vida procurando felicidade em drogas, conforto e luxo, terei enganado a mim mesmo. 
"A  felicidade foge daqueles  que a perseguem." A  felicidade  vir  a  mim inesperadamente,  como  subproduto,  como    uma    surpresa adicional, depois de eu 
ter investido a vida em alguma coisa de valor. E, provavelmente, esse investimento  inclua  muito sofrimento. Sem ele,  muito difcil imaginar o prazer.
      Somente depois  de  estar  deitado  na  palha  putrefata  da Prilio,  que senti dentro de mim os  primeiros  impulsos  do bem - gradualmente, fui descobrindo 
que a linha que separa o bem do mal no passa por estados, nem por  classes  sociais, nem tampouco por partidos polticos, corao humano, por dentro de todos mas 
por dentro  de  cada os coraes humanos. Portanto, priso, bendigo o teres feito parte da minha vida.
    Alexandre Solzhenitsyn 
    Arquiplago Gulag

O Planeta Maculado
      
      Pense na terra,  o  nosso  lar.  Deixe  que  os  seus  olhos absorvam as nuanas brilhantes e os sombreados mui delicados do pr-do-sol ou do arco-ris. Enterre 
os dedos dos ps  na areia e sinta a espuma ondulada e os  borrifos  da  onda  do mar. Visite um museu e estude a arte abstrata de  borboletas - 10000 variedades, 
muito mais admirveis  que  os  desenhos dos  modernos  pintores  abstratos;  tudo   condensado    em delicadas  amostras  de  material  volante.  Rodeado  dessas 
coisas maravilhosas,  fcil  acreditar  num  Deus  amoroso.
      Entretanto, o mesmo sol que esbanja as cores  no  firmamento pode tambm transformar o solo africano  em  uma  superfcie seca e lustrosa,  cheia  de  pequenas 
rachaduras,  trazendo desastre a milhes de pessoas. O constante ritmo  retalhante da arrebentao pode, quando estimulado por uma  tempestade, transformar-se num 
paredo  da  morte,  de  seis  metros  de altura,  destruindo  cidades  e  vilas.  E  as   inofensivas amostras coloridas que passam a vida esvoaando por entre 
as flores so agarradas e destrudas pela ferocidade  constante dos ciclos vitais da natureza. Embora seja o mundo a vitrina de Deus, tambm  uma fortaleza rebelde. 
Pode ser uma  coisa maravilhosa, mas pode igualmente ser coisa muito m.
      Pense no homem. O mesmo pas que produziu  Bach,  Beethoven, Lutero, Goethe e Brahms trouxe ao mundo Hitler,  Eichmann  e Goering. O pas que engendrou  a 
Constituio  dos  Estados Unidos produziu a escravido e a Guerra Civil. H  em  todos ns  traos  de  inteligncia,  criatividade  e    compaixo entrelaados 
com traos de fraude, egosmo e crueldade.
      O mesmo acontece com o sofrimento.
      Depois de um minucioso exame, o sofrimento pode  parecer  um amigo de  confiana  e  digno.  O  sistema  nervoso,  quando marcado pelo gnio, pode ser apreciado 
na pintura  primorosa de um Rafael. Do ponto de vista restrito de um biotcnico, a estrutura da dor certamente parece ser uma das maiores obras de Deus.
      Entretanto, a dor chama a nossa ateno, no por  intermdio do  microscpio,  mas  mediante  espasmos  de  tormento.  Se relacionarmos  cada  sinal  de  advertncia 
  sua    causa especfica, a  estrutura  da  dor  parecer  boa  e  em  bom funcionamento. Mas se, em mbito maior, virmos a  humanidade contorcendo-se de  dor, 
morrendo  de  inanio,  sangrando; bilhes morrendo de  cncer  aos  poucos.  .  .  eis  a  um problema. Os filsofos preferem o ponto de vista mais amplo, de 
maior perspectiva que discute "a soma total do sofrimento humano", como se toda a dor humana pudesse  ser  extrada  e colocada num grande frasco a fim de ser apresentada 
a  Deus:
      - Aqui est toda a dor e todo o sofrimento do planeta Terra.
      Qual a razo de tanta misria? -  um dilema.  A  dor  podia ser um sistema de alarme suave  e  eficiente,  mas  h  algo neste planeta em  sublevao  total. 
O  sofrimento  est-se alastrando e no pode ser controlado.
      Neste livro ainda  sero  apresentadas  pessoas  com  medula dorsal fragmentada e judeus sobreviventes do holocausto. So essas as pessoas com que precisamos 
nos defrontar. - Nenhuma racionalizao  piegas  pode  resolver    suas indagaes cortantes. So essas as pessoas que levantam  a  questo:
      - Onde est Deus quando chega a dor? Se a nossa  f  no  lhes souber  responder,  nada  mais  podemos  dizer  a  um  mundo alquebrado.
      O problema da dor  muito mais profundo  do  que  o  simples reflexo das clulas nervosas.  J  vimos  exemplos  de  "dor til", isto , da dor avisando  e 
protegendo.  Mas,  o  que dizer dos  efeitos  colaterais  da  dor?  O  que  dizer  das implicaes  psicolgicas  quando  a  dor  corri  a   alma, estimulando  
amargura  e  desespero?  Por  que  h   pessoas amaldioadas com artrite, cncer, ou defeitos  de  nascena, enquanto outras h outras saudveis? Por que existem 
tantas causas de intensa "dor  no-til"  disseminadas  por  toda parte?
      Apesar  de  algumas  pessoas  no  passarem   por    intenso sofrimento fsico na vida, todas as pessoas que conheo  tm alguma dor da qual no se  livram. 
Pode  ser  personalidade torcida,  um  relacionamento  rompido  ou   um    sentimento consumidor  de  culpa.  .  .  De  qualquer  maneira,  a  dor reaparece sempre 
corroendo a satisfao.
      Para  bem  visualiz-lo    preciso  que  nos  afastemos  do microscpio onde observamos  as  clulas  nervosas  reagindo linda e obedientemente ao  estmulo. 
Olhemos,  depois,  com todo o nosso interesse para o rosto  dos  angustiados  seres humanos. A pergunta "Onde est Deus  quando  chega  a  dor?" torna-se "Onde est 
Deus quando a dor no cessa?" Como  pode Deus permitir dor to intensa e injusta?
O Animal Selvagem
       A Bblia registra a entrada  do  mal  e  do  sofrimento  no  mundo  em  conexo  com  a   maravilhosa    mas    terrvel  qualidade  dos  seres  humanos: 
a  liberdade.  O  que  nos  torna diferentes  dos  botos  brincalhes,  dos  lees  que  rugem, dos pssaros canoros?  Os  seres  humanos  foram  os  nicos  libertados 
do comportamento    instintivo    e estereotipado da espcie animal. Temos o poder  da  escolha, da  autodeterminao.  Podemos   at    mesmo    manipular    e 
controlar nosso meio-ambiente.
       O  homem  livre,  entretanto,  introduziu  algo  de    novo no planeta: a  rebelio  contra  o  plano  original.  Temos  apenas uma vaga idia de como a  
terra  deveria  ter  sido,  mas  sabemos  perfeitamente  que  a  humanidade  fugiu   do  modelo  primitivo.  -  Falamos  dos  animais  selvagens   -  diz  Chesterton-, 
mas    o  homem    o    nico    animal  selvagem. Foi ele que fugiu. Todos os  outros  animais  so  submissos; obedecem    severa  respeitabilidade  da  tribo 
ou                   o tipo.
      O  homem    um  animal  selvagem  porque      o    nico, neste pontinho  de  rocha  chamado  Terra,  que  resiste  a Deus, sacode o punho e diz: - Fao 
o que quero porque assim o  desejo,  e    melhor  que  Deus  me  deixe    em    paz. 
       Construmos  uma  parede  que  nos    separa    de    Deus.
       Dentro dela vivemos exatamente como queremos. Algumas vezes seguimos  as  regras  ditadas    por    ele:    o    caminho do amor, da paz e da benevolncia; 
outras vezes,  no.  Mui notavelmente,  Deus  escuta.  Permite  que  o homem   tenha liberdade de fazer o que deseja, de desafiar todas  as  leis do universo, pelo 
menos por algum tempo. "Ao criar o  mundo, deu-lhe liberdade. No foi um poema  o  que  Deus  escreveu, antes  uma  pea;  uma  pea  que  ele  planejou  com   toda 
perfeio, mas que necessariamente foi levada  em  cena  por atores e diretores humanos, os  quais  desde  ento  s  tm atrapalhado tudo.
      E aqui que comea o debate sobre os aspectos  universais  do sofrimento. No julguemos Deus apenas pelo mundo,  como  no julgaramos Picasso somente pela 
sua "Fase  Azul".  O  mundo est em rebelio. O mundo est  "condenado"  por  Deus. Ele prometeu que haver julgamento. E o fato deste  mundo  cheio de maldade  
e  sofrimento  ainda  existir    uma  prova  da misericrdia de Deus, e no da sua crueldade.
      Seja como for, dor e  sofrimento  foram  desencadeados  como companheiros necessrios  mal empregada  liberdade  humana.
      Quando o homem escolheu voltar-se contra Deus, o  seu  mundo livre foi arruinado para sempre.
Outro Caminho?
      Para manter seu compromisso  com  o  livre-arbtrio  humano, Deus imps certos limites a si prprio. Todas as  vezes  que um criador interpe um intermedirio, 
  por  ele  limitado.
      Tomemos como exemplo uma analogia de C. S. Lewis. Deus fez a madeira, um produto til.  Produz  os  frutos  das  rvores, sustenta as folhas que do a sombra 
e  abrigam  pssaros  e esquilos. Ainda que retirada da rvore, a madeira  til. Os homens usam-na para se aquecerem, para construrem  casas  e moblias.  As  
propriedades    da    madeira - dureza, inflexibilidade,  inflamabilidade -  permitem    que ela desempenhe essas funes teis.  Mas  no  momento  que  esse material 
com tais propriedades foi  legado  a  um  mundo  de homens livres, um perigo inerente o acompanhou. O homem pode tomar um pedao de madeira  e,  por  causa  da  
sua  dureza, us-la para esmagar a cabea de outro homem.
      Deus poderia, suponho, descer e  mudar  as  propriedades  da madeira para as de esponja, a fim de que  o  porrete  apenas ricocheteasse levemente. Mas no 
  essa  a  sua  inteno.
      Estabeleceu  leis  fixas  que  podem,  na  realidade,    ser pervertidas por nossa liberdade mal dirigida. A estrutura da dor,  embora  ddiva  til,  est 
sujeita  ao  abuso  e  ao sofrimento extremo na terra. 
      Uma vez dados os parmetros da proteo do livre-arbtrio do homem, poderia Deus ter agido de outra maneira? Poderia  ele ter mantido alguns dos benefcios 
da estrutura da dor sem as desvantagens?
      H dvida sobre  a  possibilidade  de  funcionamento  de  um sistema de alarme que no  inclua  sofrimento.  Conforme  as tentativas  do  Dr.  Brand  e  a 
experincia  das   pessoas incapazes de sentir a dor  mostram,  no    suficiente  que sejamos apenas alertados para o  perigo.    necessrio  que haja dor, a 
fim de que sejamos obrigados a agir.
      Ainda h outra indagao: teria  sido  uma  boa  coisa  Deus criar um mundo sem dor, ou um mundo com menos sofrimento?  A Bblia claramente  demonstra  que 
h  algumas  coisas  mais terrveis para Deus do que a dor dos seus filhos.  Pense  na dor psicolgica de Abrao quando Deus lhe pediu que  matasse o seu prprio 
filho  Isaque.  Ou  na  sua  terrvel  dor  ao tornar-se homem e suportar os pecados do mundo. Cticos  tm citado estes exemplos como prova da falta  de  compaixo 
de Deus. Para mim, estes acontecimentos provam que  h  algumas coisas, como o falar a verdade, mais importantes  na  agenda de Deus que o mundo livre sofredor. 
Isso at mesmo  para  os seus mais fiis seguidores.
      Pode-se argumentar, o dia inteiro, se Deus  deveria  ou  no ter permitido a existncia de um vrus ou trs  bactrias  a menos. Ningum sabe responder a tais 
perguntas,  nem  a  uma pergunta  que  deveria  vir  anteriormente  a  esta.    Como determinado  vrus  entrou  neste  mundo?  Teria  sido   uma atividade criativa 
direta de Deus? O  resultado  prtico  do sofrimento est, porm, em harmonia com a opinio da  Bblia sobre o planeta  Terra.    um  planeta  maculado,  e  disso 
lembra- nos o sofrimento.
O Megafone
      O que pode Deus usar que fale to alto a ponto de prestarmos ateno? O que nos convencer de que  esta  terra  no  est levando a vida planejada por Deus?
      C. S. Lewis introduziu a frase "dor, o megafone de Deus".   uma frase apropriada, porque a dor realmente  grita.  Quando dou uma topada com o dedo do p, 
ou toro o tornozelo, a dor avisa meu crebro aos berros que h algo errado.
      Semelhantemente, a existncia  do  sofrimento  na  terra  , assim acredito, um berro a todos ns  de  que  alguma  coisa est errada.  isso que nos  faz 
parar  e  examinar  outros valores.
      Poderamos, como muitos fazem, acreditar que o  objetivo  da vida  ter conforto. Divertir-se, construir uma linda  casa, empanturrar-se de boa  comida,  ter 
sexo,  levar  uma  vida agradvel. Isso seria tudo.
      Mas, a presena do  sofrimento  complica  tal  filosofia.   verdadeiramente difcil acreditar que  o  mundo  exista  com essa finalidade, quando a tera parte 
dos  seus  habitantes vai para  a  cama  com  fome  todas  as  noites.    difcil acreditar que o  propsito  da  vida  seja  o  divertimento, quando vemos jovens 
adolescentes amassados  pelas  estradas.
      Ainda que a pessoa tente esquecer tudo e apenas aproveitar a vida, o sofrimento est presente, trazendo  lembrana  quo superficial seria a vida se o mundo 
se resumisse apenas  nas experincias individuais.
      Algumas  vezes  sussurrando,  outras  vezes   gritando,    o sofrimento    um  "clamor  transcendente"  de  que  toda  a condio humana  est  fora  do  
seu  funcionamento normal.
      Alguma coisa est errada numa vida de guerras, violncias  e insultos. Precisamos de auxlio. Aquele que  deseja estar  em paz com o mundo, que pensa que  
viver    o  nico  alvo  da existncia, s pode alcanar a  sua  meta  com  algodo  nos ouvidos; o megafone do sofrimento grita muito alto.
      Foi essa espcie de Cristianismo que fez  G.  K.  Chesterton dizer: - Filsofos modernos disseram-me repetidamente que eu estava no lugar certo; embora concordando 
com eles,  sentia-me deprimido. Mas, tendo  ouvido  que  eu  estava  no  lugar errado, a minha alma cantou de alegria, como  o  pssaro  na primavera. Otimistas 
haviam-lhe informado de que este  mundo  o que h de melhor, mas  isso  no  lhe  deu  conforto.  O Cristianismo fez-lhe sentido pelo fato de admitir livremente 
que este planeta  maculado e desfigurado.
      Depois desta experincia, Chesterton descobriu que "o bem no  apenas um instrumento para ser usado,  mas  uma relquia para ser guardada como a carga do 
navio  naufragado de Cruso, ainda que  seja  apenas  um  tmido  sussurro  de alguma coisa originalmente sbia;  pois,  de  acordo  com  o Cristianismo, somos os 
sobreviventes  de  um  naufrgio,  a tripulao de uma nave preciosa que afundou antes  do  raiar deste mundo.
      Mas o importante  que  foi  justamente  isso  que  reverteu inteiramente a razo para otimismo, e, no instante em que  a reverso  feita, sente-se um alvio 
semelhante  ao  que  se sente quando um osso   recolocado  no  lugar.  Eu  tinha  o hbito de chamar-me otimista, afim  de  evitar  a  blasfmia evidente demais 
do pessimismo. Mas todo o otimismo do  mundo  falso porque tenta provar que ns nos ajustamos ao  mundo.
      O otimismo cristo  baseado no fato de no  nos  ajustarmos ao mundo.
      Pode-se culpar a doutrina crist pela origem do  sofrimento, isto , que ele    resultante  da  malograda  liberdade  do homem, de ser fraca e  insatisfatria. 
Pelo  menos,  porm, como observa Chesterton, o conceito de um mundo  maravilhoso mas fracassado enquadra-se ao que conhecemos  da  realidade.
      Algumas religies tentam  negar  a  existncia  da  dor,  ou elevar-se acima dela. Mas o sofrimento  compatvel  com  a viso crist do universo que revela 
ser o nosso  habitat  um planeta maculado.
      A dor, o megafone de Deus, pode  afastar-nos  dele.  Podemos odiar a Deus por permitir ele tal  misria.  Ou,  por  outro lado, a dor pode levar-nos a ele. 
Podemos crer nele,  quando diz que este mundo no  tudo o que existe, e saber que  ele est  preparando  um  lugar  perfeito  para  aqueles  que  o seguirem na 
terra destruda pela dor.
Unidades de Terapia Intensiva
      Se houver dvida quanto ao valor megafnico  do  sofrimento, basta visitar a U.T.I. de um hospital. Difere  de  todos  os outros lugares do mundo. Por sua 
sala de espera, passa  toda a espcie de gente. Alguns ricos, outros pobres. H  pessoas bonitas, feias, negras, brancas,  elegantes,  mal  vestidas, espirituais, 
atestas,  funcionrios  e  trabalhadores.   A U.T.I.  o nico lugar do mundo onde tais divises no fazem a menor diferena, pois todos eles esto unidos  pelo 
mesmo simples e terrvel lao: o amor a um parente ou um amigo  s portas da morte. Ali  no  se  v  uma  centelha  de  tenso racial.  Diferenas  econmicas  
e  religiosas  desaparecem.
      Muitas  vezes  consolam-se  uns  aos  outros,   ou    choram silenciosamente. Enfrentam  as  emoes  mais  profundas  da vida; alguns chamam ento o pastor 
ou o padre pela  primeira vez. S o megafone da dor   suficientemente  poderoso  para tornar estas pessoas humildes e faz-las reexaminar a vida.
      John Donne, poeta do sculo 17, passou por  uma  experincia de grande sofrimento. Por ter-se casado com a  filha  de  um lorde que no aprovava o  casamento, 
perdeu  o emprego  de assistente do Presidente da Cmara dos Lordes, foi  separado  fora de sua  esposa  e  confinado  numa  masmorra.  Nessa ocasio ele escreveu 
uma frase sucinta, que bem demonstra  o seu  desespero,  "John  Donne/Anne   Donne/Undone" (Unio desfeita). Mais tarde, ele sofreu uma longa enfermidade  que solapou 
a sua resistncia at o ponto de quase morrer.
      Durante a sua enfermidade, Donne escreveu uma  coletnea  de preces  sobre  o  sofrimento,  as  quais  fazem  parte   das meditaes mais comoventes sobre 
o assunto. Numa  delas  faz ele a seguinte declarao: "A doena que o obriga a  guardar o leito fora-o a pensar na prpria condio espiritual."  A afirmao  
vlida. Geralmente ignoramos o megafone de  Deus - a dor fsica -  que  est  sempre  lembrando-nos  de  quo fracos  e  necessitados  somos,    tanto    fsica 
quanto espiritualmente.
As Buscas de Roger
      Encontrei um exemplo bem atual do valor  megafnico  da  dor quando entrevistei um jovem estudante do 2 grau, de dezoito anos, que trabalhava para "Busca 
e Salvamento", um grupo  de voluntrios  que  atendiam  a  emergncias  externas.  Roger Bowlin foi escolhido pela equipe de  salvamento  de  Seattle apesar de  
sua  pouca  idade,  por  ter  aptides  atlticas extraordinrias e um bom treinamento de primeiros  socorros. 
      Ele  tinha  por  hbito  observar  o  impacto  da  dor   nas ocorrncias dos fins de semana.
      Semana aps  semana,  Roger  e  o  seu  companheiro  viveram experincias dilacerantes. Certa vez, escalaram uma  geleira mvel  na  superfcie  do  Monte 
Sloan,    procura  de  um excursionista desaparecido. Roger ouvia  os  sons  perigosos que  indicam  o  avano  da  geleira;  estrondos  roucos   e estalidos penetrantes 
como  tiros  de  espingarda.  Ele  viu pequenas fissuras  transformarem-se  em  grandes  fendas  de metro de largura. Retrocedendo para salvar a  prpria vida, os 
dois abandonaram a busca, e o  excursionista  jamais  foi achado.
      Em outra  ocasio,  Roger  foi  chamado  para  procurar  uma suicida numa ilha em Puget  Sourid.  Ela  havia  deixado  um bilhete e desaparecido. Roger achou 
o corpo num pasto, atrs da casa da mulher,  tendo  ao  lado  o  retrato  do  esposo.
      Viam-se grossos rastros de sangue sados do pulso cortado.
      - Lembro-me perfeitamente de outro corpo contou-me Roger.  - Ela tinha sido estuprada e jogada no  rio  Sound.  As  guas glidas lanaram o seu corpo branco 
sobre um banco de  areia no meio do rio.  Impressionava  o  fato  de  ela  estar  to branca, com a pele toda enrugada e rija. Era horrvel sentir um corpo sem vida, 
pensar o que ela devia ter passado e que, apenas algumas horas antes, tinha  sido  uma  pessoa  normal como eu. Isto sacudiu-me terrivelmente. Senti necessidade 
de desabafar com amigos.
      Roger  ento  descobriu  que  pouqussimas  pessoas    esto dispostas a falar sobre morte e tragdia.  -  Eu  nem  podia acreditar. Quase ningum queria falar 
sobre  a  morte,  como preparar-se para ela  e  como  Deus  enquadra-se  nisso.  As pessoas estavam dispostas a falar confortavelmente  sobre  o clima, roupas ou 
sobre futebol. Mas ningum queria falar das coisas que so realmente importantes.
      Finalmente, Roger  tornou-se  cristo.  A  viso  crist  do mundo, de que  um lugar sangrento e trgico e  de  que  ns precisamos aproximar-nos de Deus, 
foi a nica que  realmente o atingiu. Atualmente ele confessa que, se no  fosse  pelos lgubres  efeitos  das  tragdias  que  encontrou,    jamais ter-se-ia chegado 
a Deus. Foi o sofrimento - no o seu,  mas o de outros - que o forou a examinar os  valores  da  vida.
      Percebeu que a sua  vida  estava  incompleta;  precisava  de auxlio para reorganiz-la.
      Como uma criana que se chega ao pai pedindo auxlio,  Roger Voltou-se para Deus, pedindo-lhe  que  transformasse  a  sua vida. A est  o  valor  megafno 
do  sofrimento.    uma mensagem dirigida a toda a  humanidade.  Ser  uma  mensagem especfica? Qual a razo do sofrimento? Analisaremos isso no prximo captulo. 
Penso, porm, que Deus  usa  o  sofrimento para levar-nos a confiar nele, como uma  criana  confia  no seu pai.  Analisando  superficialmente,  Deus  pode  parecer 
injusto, ou insensvel aos nossos apelos de auxlio. Mas ele os ouve. Como um Pai, ele sofre conosco.
      No  fcil ser filho. Pensamos que j somos suficientemente adultos para dirigir nosso prprio  mundo  sem  tais  coisas confusas como dor e sofrimento  que 
nos  fazem  lembrar  da nossa dependncia. Pensamos que somos suficientemente sbios para tomar nossas prprias decises sobre  moralidade;  para viver corretamente 
sem que o megafone da dor  esteja  soando estridentemente em nossos ouvidos.
      Estamos errados. A histria do jardim do den  prova  que o homem, num mundo sem sofrimento, escolheu viver contra Deus.
      Assim ns, portanto, que viemos depois de  Ado,  temos  uma escolha. Podemos confiar em Deus, ou culp-lo pela  situao atual do mundo. Somente um Deus pessoal 
pode ser  solicitado a prestar contas a um rebelde.
    Albert Camus
    O Rebelde 
O Que Est Deus Tentando Dizer?
      Rodeado por parentes a chorar,  um  casal  hispano-americano Achava-se sentado no cemitrio de Sutter, segurando as  mos um do outro e  olhando  estupidamente 
para  o  esquife  que continha os restos do seu filho Bobby de 17 anos. A jovem sobrinha do rapaz, em soluos desesperados, jogou-se sobre o caixo, onde seis colegas 
de Bobby haviam depositado  cravos brancos. Na grande multido vrias pessoas choravam.  O  pai sacudiu a cabea algumas vezes como se tivesse  recebido  um golpe; 
depois, junto com a esposa, caminhou como um autmato em direo  limusine verde  frente do longo cortejo.
      No cemitrio a Sra. Harry Rosebrough de olhos enxutos via  o filho ser sepultado. Havia morrido  no  dia  do  seu  dcimo sexto aniversrio. Pamela Engstrom, 
usando  um  vestido  de seda, azul e branco - presente da me - tinha morrido um  dia antes do seu dcimo oitavo  aniversrio.  Entre  as  vtimas estavam tambm 
as gmeas Carlene e  Sharlene  Engle,  de  18 anos, que adoravam cantar as  msicas  compostas  pela  me:
      "Acorde Sorrindo  Luz do Sol" e  "Orgulhe-se  da  Amrica".
      Depois do funeral, estacionaram a poeirenta  perua  Ford  de Sharlene do outro lado da  rua  da  sua  casa  com  o  aviso VENDE-SE.
      Isto aconteceu na cidade de Yuba, Califrnia,  em  junho  de 1976, onde 15. 000  pessoas  choraram  os  seus  mortos.  Um nibus, com 53 componentes do Grupo 
Coral da escola local  e a acompanhante Christina Estabrook, arrebentou 22 metros  do gradil de proteo da estrada e caiu numa depresso de  seis metros e meio 
de profundidade. Parou com as rodas para  cima ainda rodando,  e  com  o  teto  esmagado  de  encontro  aos assentos.
      Viam-se folhas de msica coral cheias de sangue.
      Algum gritou:  meu Deus! - na parte da frente do  nibus  - soluava  Kini  Kenyon,  um  garoto  de  16    anos,    cuja namorada fora morta ao seu lado. 
Perry Martin,  de  18  anos, acrescentou: - Era tudo  uma  confuso  de  choro,  gemidos, pernas e braos espalhados. - Resultado final: 29 mortos e 25 feridos.
      Todos freqentavam a mesma escola.  No  comeo  daquele  ano tinham encenado "O Violinista no Telhado".  Faltavam  apenas trs semanas para a formatura, e 
muitos tinham  ido  ao  seu primeiro baile no sbado  anterior.  Agora  os  seus  amigos andavam  aturdidos  pela  escola,  parando  algumas    vezes desconsoladamente 
 janela do diretor  para  ler  o  boletim dirio que informava a condio dos feridos. Karen  Hess,  18 anos, presidente do  Grmio  Estudantil,  disse:    esta 
a primeira vez que a  maioria  de  ns  vemos  amigos  ntimos morrerem.'
    Revista Time, 7 de junho de 1976.
      
Por que Yuba?
      Por que no Salina, no estado de Kansas... ou  Clarkston, na Gergia ou Ridgewood, em Nova Jrsey?
      Por que o conjunto vocal da escola? Por que no a banda... ou a equipe de debates. . . ou o time de futebol?
      Por que todos aqueles vinte  e  nove  jovens  mereceram  uma pavorosa  morte  na  estrada?    Estaria    Deus    tentando comunicar-lhes alguma coisa? Ou estaria 
ele dando uma  lio a seus pais e amigos?
      Um  adolescente  daquela  escola  no  poderia  evitar  tais perguntas. Os  passageiros  que  sobreviveram  ao  acidente, teriam de forosamente querer saber 
por  que  estavam  vivos enquanto amigos morreram. Depois de uma  sangrenta  tragdia como a do nibus em Yuba, as perguntas vm   tona,  algumas amargas, outras 
aflitas.
      Os cristos tm grandes dificuldades em  responder  a  essas questes. Para os que acreditam num  mundo  de  acasos,  que diferena faz um nibus sofrer um 
desastre  em  Yuba  ou  em Salina? Mas, para quem acredita num mundo governado  por  um Deus poderoso, que ama ternamente os seus filhos,  isso  faz uma diferena 
tremenda.
      Ser que Deus desce  terra, torce  um  pouco  as  rodas  de nibus escolares,  e  fica  observando-os  ricochetearem  de encontro  mureta? Ser que ele traa 
a  lpis  vermelho  um risco atravs do mapa do  estado  de  Indiana  planejando  o caminho exato a ser  tomado  por  um  ciclone?  Ali,  atinja aquela casa, mate 
aquela criana  de  seis  anos,  mas  suba agora e no atinja a casa prxima. Ser que  Deus  interfere nessas coisas terrenas, brincando com as ondas do  mar,  
com os terremotos e com os furaces... esmagando  os  homens como se fossem tocos  de  cigarros?    assim  que  ele  nos recompensa e pune, a ns, suas vtimas 
indefesas?
      Pode parecer sacrilgio formular tais perguntas.  Mas,  elas tm obcecado, no somente  a  mim,  mas  tambm  a  cristos conhecidos meus. E estas perguntas 
tm  ne  sido  atiradas, como lanas, por amigos escarnecedores.
      Que Deus fala  raa humana em geral usando  o  megafone  da dor  um fato. A dor, porm, jamais chega de forma genrica, mas como um  golpe  de  direo  
certa.  E,  assim,  fico  a imaginar: o que  estar  Deus  tentando  dizer-me  com  esta garganta inflamada? Com a  morte  do  meu  amigo?    ele  o responsvel? 
Ter ele uma mensagem especfica para  mim,  ou para os sobreviventes de Yuba?
      A dor tem valor como proteo aos nossos corpos. Quase todos admitem isso. O sofrimento tem  at  mesmo  valor  moral  ao salientar a nossa condio carente 
e temporria  no  Planeta Maculado; pelo menos, a maioria dos  cristos  aceita  isso.
      Entretanto, a maior parte da confuso  mental  sobre  dor  e sofrimento depende, assim penso, do problema  da  causa.  Se Deus  est  mesmo  no  comando,  
ligado  de  algum  modo  ao sofrimento do mundo, por que  ele to  extravagante  e  to injusto? Ser ele um sadista csmico que se deleita em  ver-nos sofrer?
      Num banquete, sentei-me ao lado de uma pessoa que se referiu a um terremoto na Amrica do Sul.
      - Sabia que nesse terremoto morreu uma porcentagem menor  de cristos do que de no-cristos? perguntou ele com absoluta sinceridade.
      Eu fiquei a cogitar sobre os cristos que foram mortos. O que teriam eles feito para serem jogados na rea perigosa com os pagos vulnerveis? E fiquei a pensar 
sobre  essa  afirmao presunosa de  que  Deus  teria  poupado  grande  parte  dos cristos, como se fosse uma contagem de  pontos  no  Coliseu Romano: Cristos 
4, Gladiadores 3.
      Como  que Deus se ajusta neste mundo  que  ele  criou  para ns? Ser que ele paira sobre ns, interferindo  de  vez  em quando a fim de quebrar um brao, 
causar uma morte  trgica, desencadear uma inundao? Ou ser que  ele  silenciosamente deixa o mundo atolar-se sozinho,  em  guerras,  tragdias  e histrias violentas?
O Que Diz a Bblia?
      Se procurarmos na Bblia uma resposta para a pergunta: "Quem fez  isso?",  encontraremos  respostas  variadas.  Um  exame superficial do Antigo Testamento 
parece  indicar  que  Deus realmente interveio de maneira sistemtica na  histria.  Na maioria das vezes ele o fez por razes baseadas no princpio de  recompensar 
o  bom  e  punir  o  perverso.  Em  algumas ocasies, ele usou o sofrimento, chegando mesmo a fazer  com que pessoas  morressem.  Fez  com  que  exrcitos  perdessem 
batalhas, apenas para ensinar-lhes uma lio.
      Os livros dos profetas  esto  cheios  de  advertncias  com respeito ao  sofrimento.  Mas,  numa  leitura  mais  atenta, veremos que sempre que uma  situao 
adversa  era  predita, apresentava-se antes uma lista de pecados causadores  dessa desgraa. Ams  retratou  todos  os  gritantes  pecados  dos vizinhos pagos de 
Israel antes de pronunciar  o  julgamento de Deus sobre eles. Jeremias, Habacuque, Osias, Ezequiel  - todos  eles  registraram  listas  detalhadas  de  pecados 
e iniqidades  que  levaram  Israel    punio.  E  a   nica esperana de que Deus pudesse deixar de  punir,  era  sempre condicionada ao arrependimento. Se Israel 
se arrependesse  e se voltasse para Deus,  sua  mo  seria  detida.  Se  Israel continuasse em rebelio, sua mo se abateria sobre  o  povo.
      Deste modo, o julgamento vinha diretamente de Deus, mas  no era injusto nem extravagante.  Era  consistente,  e  s  era desencadeado depois de multa advertncia.
      Os Salmos tambm esto cheios de promessas de  recompensa  e punio. Davi suplicou a Deus ansiosamente para que  punisse os seus inimigos pela injustia deles 
e  recompensasse  sua prpria fidelidade.
      (Muitas explicaes tm sido dadas para justificar por que o Antigo Testamento apresenta to repetidamente  a  filosofia: "O bem ser recompensado e o mal 
ser punido." Dizem  alguns que  isso  era  necessrio  para  que  fossem  atingidos  os objetivos de Deus no Antigo Testamento. Deus  preparava  uma nao para 
si, que sobressasse em contraste com as  outras; um povo selecionado para dele vir  o  Messias.  Para  tanto, estava ativamente envolvido nos  acontecimentos  histricos.
      Certamente, o plano de longo alcance de Deus era a  redeno do mundo atravs de Cristo. Mas, para que  tal  plano  fosse realizado,  Deus  necessitava  estabelecer 
uma  frente   de retido e justia. Quando Israel  se  rebelava  contra  esse plano, ele punia.)
      Generalizando, o Antigo Testamento apresenta a concepo  de um Deus que raramente intervinha. Embora fizesse milagres  e mudasse por vezes a ordem natural 
do mundo,  assim  o  fazia com  um  propsito  especfico,  e  depois  de  considervel advertncia. As suas intervenes, entretanto, eram exceo, e no a regra. 
Basta ler a histria sangrenta dos homens  de Deus e  dos  profetas  perseguidos  para  se  perceber  esta afirmao. O novo Testamento, porm,  parece  afastar-se 
do padro  recompensa/punio,  possivelmente  por  causa    da mudana da maneira de Deus agir no mundo.
Deus na Terra
      Com  a  vinda  de  Jesus,  aconteceu  algo  de  indito    e inescrutvel. Deus entrou inteiramente na  histria  humana.
      No mais interferia de fora. Repentinamente passou a residir no corpo de um ser humano do planeta Terra. Que efeito  teve esse fato sobre o plano? O  que  
fez  ele  na  terra?  Jesus realizou  milagres  sobrenaturais,  e  nenhum  deles    como punio. Geralmente ele os fazia a fim  de  ilustrar  alguma verdade profunda. 
O  Evangelho  de  So  Joo  chama-os  de "sinais".
      Algumas vezes, Jesus parecia relutante em intervir,  dizendo a seus seguidores  que  os  sinais  eram  realizados  apenas porque eles tinham  necessidade  
deles.  Muitas  vezes,  ele pediu aos discpulos que no divulgassem seus milagres,  que silenciassem.
      Houve ocasies em que  Jesus  deliberadamente  escolheu  no intervir na ordem  natural  das  coisas.  Por  exemplo,  ele resolveu no chamar os anjos do cu 
para  livr-lo  da  sua hora mais amarga, antes da morte.
      Estaria Jesus tentando dizer-nos que no  bom Deus intervir em nosso viver dirio? O reino do cu, justamente o  que  h de mais importante na vida,   um 
reino  espiritual  a  ser formado dentro do corao e da mente do homem? Que  o  poder de Deus  no  deve  ser  apresentado  ao  mundo  de  maneira espetacular?
      Qual foi a atitude de Jesus para com a pergunta:
      Quem  responsvel pelo sofrimento? - Aqui,  novamente,  h diversas  respostas.  Em  Lucas  13:16,  por  exemplo,   ele declarou que Satans foi a causa do 
sofrimento de uma mulher presa    doena  por  dezoito  anos.  No  mesmo   captulo, entretanto,  Jesus  desviou-se  desse  princpio.  Algum  o informou de uma 
atrocidade: Pilatos,  o  governador  romano, assassinara judeus  que  ofereciam  sacrifcios  a  Deus  no templo.  Jesus  voltando-se,  disse:  -  Pensais  que  
esses galileus  eram  mais  pecadores  do  que  todos  os   outros galileus? - E referiu-se tambm a outra tragdia da poca: a morte de dezoito homens com  a  queda 
da  torre  de  Silo, fazendo ento a mesma pergunta. Na realidade,  Jesus  estava sugerindo  que  esses  homens  nada    tinham    feito    de extraordinrio que 
merecessem tal destino. Eram  iguais  aos outros homens, Talvez a torre tivesse cado apenas  por  ter sido mal feita. (Acho que Jesus responderia  semelhantemente 
se interpelado acerca da tragdia de Yuba: - Vocs acham que eles eram mais pecadores do que os  outros  adolescentes?  - Talvez o desastre tivesse tido por nica 
causa  um  erro  do motorista ou uma falha mecnica.)
      Em Joo 9, Jesus refuta a clssica explicao do sofrimento.
      Seus seguidores apontaram para um homem, cego  de  nascena. 
      Alardeando piedade falsa, perguntaram: -  Quem  pecou,  este homem ou os seus pais? - Jesus respondeu claramente:  -  Nem ele nem seus pais... - . Deus,  com 
essa  doena,  no  estava "punindo"  o  homem  nem  sua  famlia  como  pensavam    os discpulos.
 Deus a Causa?
      Por causa  de  sugestes  bblicas  como  estas,  duvido  da afirmativa de que Deus causa diretamente o  sofrimento  para dar-nos lies especficas.  Ele 
permite  a  existncia  do sofrimento, o qual como seu  megafone  pode  ser  til  para finalidades morais. Mas no posso acreditar que ele  imponha a dor com um 
propsito especfico.
      Assisti certa vez  cerimnia fnebre de uma garota  de  dez anos morta num acidente de carro. A me, chorando, dizia: 
      - O Senhor levou-a para junto de si. Ele deve ter tido algum motivo, Obrigada, Senhor!
      Tenho  conhecido  cristos  que,   ao    ficarem    doentes, Atormentam-se com a pergunta: - O  que  est  Deus  tentando ensinar-me? - ou - Como posso aumentar 
a minha f para ficar livre dessa doena? Como fazer para que Deus me liberte?
       provvel que este raciocnio esteja  errado.  Talvez  Deus no esteja tentando dizer-nos coisa especfica alguma, todas as vezes que sofremos. Dor e sofrimento 
so partes inerentes do nosso planeta, e os cristos no esto isentos delas.  Na metade das vezes sabemos  por  que  estamos  doentes:  pouco exerccio, dieta inadequada, 
contato com  germes.  Ser  que realmente esperamos que Deus  esteja  sempre  protegendo-nos onde quer que encontremos algo de perigoso?
      
      A Bblia no esclarece a questo. Algumas vezes Deus  causou sofrimento  por  uma  razo  especfica,  geralmente    como advertncia. Algumas vezes  o  sofrimento 
foi  causado  por Satans.  Em  outros  casos,  como  no  desastre  de   Silo apresentado por Jesus, Deus  no  estava  enviando  mensagem alguma.  Mas,  h  uma 
passagem  na  Bblia  que  trata  do sofrimento,  passagem  esta  que  trata  exaustivamente   do assunto, e que contm uma mensagem inequvoca. Vem no  livro de 
J, bem no meio do Antigo Testamento.
      J foi um homem reto, um homem espiritual. Amava a  Deus  de todo o corao. Notavelmente, Deus o usou  como  um  exemplo para provar a Satans que os seres 
humanos podem ser  fiis.
      Se havia um homem que no merecesse sofrer pelos seus  atos, esse seria J.
      O que aconteceu, porm? Incrivelmente, J sofreu  uma  srie de calamidades  e  desgraas  injustas.  Assaltantes,  fogo, bandidos, e depois um forte vento 
derrubou  a  casa  matando todos os seus filhos.  Da  sua  grande  famlia  e  inmeras riquezas s restou a esposa, que lhe foi de pouca valia!
      Num segundo ataque,  apareceram-lhe  tumores  dolorosos  por todo o corpo. Em questo de horas, a sua vida  tornou-se  um fracasso. Todos os terrores do inferno 
caram sobre ele.
      J coava-se e gemia.  Esse  sofrimento  extraordinrio  no combinava com a sua crena em um Deus amoroso e justo.
      Nessa situao, J e seus trs amigos discutiam  o  mistrio do sofrimento. Cada um dos seus amigos deitou  erudio.  Em resumo, seus argumentos eram praticamente 
os mesmos.  -  J, Deus est tentando dizer-lhe algo. Seu sofrimento  tem  sido enorme, e deve haver uma razo. O nico motivo lgico   que Deus est zangado com 
algum pecado seu.  Portanto,  confesse sua falta, e Deus aliviar o seu sofrimento. - A outra opo foi dada a J por sua esposa: - Amaldioa a Deus e morre.
      Nenhuma  delas  foi  aceita.  J  sabia  que  o  que   havia acontecido no correspondia  justia. Em  desespero  total, ele chegou mesmo a pensar que Deus 
fosse sdico, que "ri  do desespero do inocente" (J 9:23).
      Qual a resposta para J?  As  falas  dos  seus  trs  amigos pareciam suspeitas como acontece com a fala da  maioria  dos cristos nos nossos  dias.  No  
h  defesa  do  sofrimento, encontrada neste livro ou em  outro  qualquer,  que  j  no esteja contida na  conversa  daqueles  trs  amigos  de  J.
      Pareciam homens devotos e  reverentes.  Pois,  mesmo  assim, Deus os repreendeu por suas palavras loucas.
      J no quis aceitar os argumentos  convincentes  dos  amigos por diversas razes. Sabendo no seu corao que ele era reto e no merecia castigo, J mantinha 
a sua posio  apesar  de golpes como: - voc mais reto do  que  Deus?  -  J  tambm observou que nem  sempre  o  mal  e  o  bem  so  punidos  e recompensados 
nesta vida. H ladres que prosperam, enquanto alguns homens  realmente  santos  levam  uma  vida  pobre  e sofrida.
Liberdade Dolorosa
      J tambm sugeriu um argumento que me parece ter  silenciado seus trs amigos: a doutrina do livre-arbtrio.
      Freqentemente desejamos  que  cada  pessoa  "receba  o  que merece". Imaginemos um mundo em que cada punio por  pecado cometido viesse  to  rapidamente 
como  a  dor  fsica.  Se pusermos a mo no fogo, seremos  imediatamente  punidos  com uma advertncia de dor. Como seria este mundo,  se  fssemos punidos sempre 
e imediatamente pelos pecados que cometemos?
      Todos saberiam claramente o que Deus esperava deles. Se  lhe obedecessem, sentir-se-iam bem e seriam  recompensados,  tal como uma foca que recebe um peixe 
pelo seu  bom  desempenho.
      Se lhe desobedecessem, receberiam um  choque  eltrico.  Que mundo justo e uniforme no seria!
      H, entretanto, uma enorme falha nesse  mundo  organizado  e certo. No seria absolutamente o que Deus quer realizar aqui na terra.  No  haveria  liberdade 
nesse  mundo.  Agiramos corretamente por causa dos nossos  interesses  imediatos.  A bondade seria contaminada por motivos egostas. Ns apenas o amaramos por 
causa de uma necessidade inata e programada, e no  por  causa  de  uma  escolha  deliberada  em  face   de alternativas atraentes.
      Seria o  mundo  autmato  de  B.  F.  Skinner,  ao/reao, ao/reao. Em contraste, o  carter  cristo  descrito  na Bblia revela-se quando a nossa escolha 
recai sobre  Deus  e seus caminhos, apesar de tentaes e impulsos de agirmos  de outra maneira. Conforme as palavras de John Wenham, "A maior virtude no pede recompensa 
que no o conhecimento de  estar procedendo conforme  vontade de Deus.    evidente  de  que apenas haver virtude, se as aes no forem condicionadas a recompensas 
e sofrimentos. Agir corretamente apenas por  que  o certo no seria possvel se a ao  fosse  imediatamente recompensada e a escolha no nos custasse coisa alguma..
       o desejo de Deus que  ns  o  amemos  por  nossa  livre  e espontnea vontade, embora tal escolha nos traga sofrimento, por estarmos submissos a ele,  e 
no  aos  nossos  prprios sentimentos  e  a  recompensas.    de  sua   vontade    que permaneamos fiis  a  ele,  mesmo  quando  temos  todos  os motivos para 
reneg-lo violentamente.
       esta a mensagem de J.  Satans  desafiou  a  Deus  com  a acusao de que os seres  humanos  no  so  verdadeiramente livres,  porque  Deus  havia  recompensado 
J    ricamente; portanto, ele s poderia ser-lhe fiel. Estava J sendo  fiel apenas  porque  Deus  lhe  havia  proporcionado  uma    vida prspera? Ficou provado 
que no. J  um eterno  exemplo  de algum que permanece fiel a Deus, mesmo' quando o seu  mundo desmorona ou quando parece que Deus se voltou contra ele. J apegou-se 
 justia de Deus quando, aparentemente, ele era o melhor exemplo  da  pretensa  injustia  de  Deus.  Ele  no procurou o doador por causa das suas ddivas;  quando 
todas as ddivas foram removidas ele ainda procurou o doador.
      E, assim, at mesmo no Antigo Testamento onde o sofrimento  tantas vezes identificado com a punio de Deus,  o  exemplo maravilhoso de J sobressai. Ele 
suportou um sofrimento  que no merecia, fato que  demonstra  estar  Deus  profundamente interessado num amor oferecido com liberdade.
Livre, No Preso
       uma verdade difcil de compreender; grandes  inteligncias tm tropeado nela. C. G. Jung seguiu estranhos  raciocnios para explicar o comportamento de 
Deus no livro de J. Chegou a ensinar que a  encarnao  e  a  morte  de  Jesus  eram  o resultado do seu sentimento de culpa pelo modo de tratar J.
      Achava Jung que Deus habitou  o  mundo  em  Jesus  para  que pudesse desenvolver a sua conscincia moral.
      Jung subestimou o valor que Deus d ao  amor  oferecido  por Livre-arbtrio. Era to importante para Deus uma  reao  de fidelidade da parte de J, que permitiu 
a ocorrncia de  uma injustia.  to importante para Deus que lhe  ofereamos  o nosso amor por livre e espontnea vontade, que  ele  permite que o nosso planeta 
seja uma lcera do mal no seu  universo, isso durante algum tempo.
      E  ser  que  Deus  se  afasta  de    ns    tranqilamente, deixando-nos sofrer? No. Ele, o Senhor de todos os  tempos, infinito e eterno, pde ver desde 
o comeo a saliva  cuspida em sua face, pde sentir a madeira spera  ferindo  as  suas costas ensangentadas, pde ouvir  a  zombaria  da  multido escarnecedora. 
A nossa submisso, dada  livremente  a  Deus, custou tudo isso; -lhe, portanto, de enorme valor.
      A Bblia volta a falar do relacionamento de  Deus  com  seus filhos, mediante uma interessante analogia. Deus, o noivo,  apresentado cortejando a noiva. Ele 
quer o seu  amor.  Se  o mundo fosse construdo de  maneira  que  cada  pecado  fosse punido  com  sofrimento  e  cada  atitude   correta    fosse recompensada com 
prazer, a analogia  no  subsistiria.  Para tal situao, a analogia teria de ser de uma  mulher  presa, que foi comprada, despojada de sua liberdade, e  trancada 
 chave num quarto para que o seu senhor tivesse a certeza  de encontr-la ao retornar. Deus no "prende" sua  igreja  para seu prprio prazer. Ele nos  ama,  d-se 
a  ns,  e  espera ansiosamente por nossa livre reao.
      Em resumo, o livro de J acaba de vez com  a  idia  de  que todas as vezes que sofremos  porque Deus nos  est  punindo ou tentando ensinar-nos algo especfico. 
No foi o  caso  de J, que, acima de tudo, no merecia tal  sofrimento.  Embora seja verdade que s  vezes  Deus  manda  o  sofrimento  como castigo (como as dez 
pragas  do  Egito),  mas  no  se  pode argumentar com os fatos passados, como o fizeram  os  amigos de J, e presumir que cada sofrimento esteja  ligado  a  uma 
falha especfica. Foi  o  prprio  Deus  quem  contestou  as acusaes deles.
Combate  Peste e aos Tornados
      Seria uma tragdia se a Bblia no  negasse  radicalmente  a teoria de que todo o sofrimento est relacionado com  nossos pecados, se o dilema de  J  no 
tivesse  sido  pintado  em pinceladas  to  universais  e  arrebatadoras.   Pois,    se aceitssemos que todo o sofrimento e toda a dor vem de  Deus como uma lio 
para ns (como, por exemplo, acontece  com  o islamismo), o prximo raciocnio lgico seria  um  fatalismo resignado.  Como  poderia  uma  pessoa  batalhar  contra 
a poliomielite, clera,  malria,  peste,  febre  amarela,  se estas doenas fossem agentes de  Deus?  No  estariam  sendo mandadas para ensinar-nos uma lio?
      A igreja crist  tem,  realmente,  errado  ao  aceitar  essa doutrina e escritores leigos tm  explorado  nossa  fraqueza com muita perspiccia. Em seu romance 
A Peste, Albert  Camus apresenta um padre catlico, Padre Paneloux, dividido por um paradoxo. Deveria ele devotar a sua energia  ao  combate  da peste, ou ensinar 
os seus paroquianos a aceit-la como sendo de Deus?  Num  sermo,  ele  chegou    seguinte  concluso:
      "Realmente, a agonia de uma criana era  humilhante  para  o corao e para a mente. Mas, era por essa  mesma  razo  que precisvamos aceitar o fato. E era 
tambm por isso que  -  e aqui Paneloux garantia aos seus paroquianos que no lhe  era fcil dizer isso - sendo da vontade de Deus,  precisava  ser tambm  da  nossa 
vontade.  Somente  os  cristos    podiam enfrentar tal problema honestamente... Precisamos  ir  ao mago daquilo que  inaceitvel, justamente porque    assim 
que  somos  constrangidos  a  fazer  a  nossa  escolha.    O sofrimento de crianas era o nosso po de aflio,  mas  sem este po nossa alma morreria de fome espiritual."
      H anos, dois pesquisadores da Universidade de Chicago e  da Universidade  do  Sul  de  Illinois  estudaram  vtimas   de tornados nos Estados Unidos.  Descobriram 
que  os  sulistas (Alabama) sofriam uma porcentagem maior de mortes por  causa dos  tornados  do  que  os  habitantes    do    centro-oeste Illinois), mesmo levando 
em considerao fatores  como  as diferenas de material de  construo.  Depois  de  profunda investigao, os pesquisadores concluram que  os  sulistas, sendo 
mais  religiosos,  tinham  desenvolvido  uma  atitude fatalista em relao ao desastre. - Se o  tornado  tiver  de vir, que venha; nada  posso  fazer  para  impedi-lo. 
Os  do centro-oeste, entretanto,  ouviam  as  reportagens  sobre  a previso do tempo,  guardavam  bem  o  equipamento  solto  e dirigiam-se a um lugar seguro at 
que o tornado passasse.
      "Os de Alabama estavam muito mais inclinados  a  aceitar  as foras externas que controlam nossa vida. Achavam  que  Deus estava ativamente envolvido nas suas 
vidas,  em  vez  de  o aceitarem  como  uma   presena    benevolente    mas    sem interferncia direta.
      "Os  de  Illinois  tinham  a  tendncia  de  acreditar    na tecnologia para ajud-los a enfrentar a natureza.  Mas  cada pessoa de Alabama agia de  per  si 
e  enfrentava  o  tufo, sozinho com o seu Deus."'
      Se estas concluses forem realmente exatas, aceito este fato como uma perigosa perverso do dogma cristo.  O  sofrimento no  um ato direto de Deus que precisamos 
aceitar  como  um castigo. Alabama devia ouvir a previso do  tempo.  O  Padre Paneloux devia estar nas  linhas  de  frente,  combatendo  a peste. O prprio Jesus 
passou a vida na terra  combatendo  a doena e o  desespero.  Ele  jamais  sugeriu  uma  aceitao resignada ou fatalista do sofrimento. Como habitantes de  um planeta 
maculado, temos o direito, at mesmo a obrigao, de combater os efeitos negativos da queda do homem.
Os Distintivos do Mrito Cristo
      Assim como uma vida perversa nem sempre traz sofrimento, uma vida virtuosa nem sempre  isenta-nos  de  dores  cruis.  Na realidade, a Bblia, especialmente 
o Novo Testamento,  pouco encoraja  aqueles  que  se  engajam  no  Cristianismo   para deleitar-se com o sol e a paz de um mundo menos doloroso.  A parte do  cristo, 
nesta  vida,    apresentada  em  termos assustadores. As epstolas de Tiago,  Pedro  e  aos  Hebreus advertem  aos  cristos  para  estarem  preparados  para   
o sofrimento. E entre o nmero dos fiis vitoriosos  descritos em Hebreus 11 esto  aqueles  que  foram  torturados  at  a morte,  aoitados,  acorrentados,  apedrejados 
e  estiveram famintos no deserto.
      Alguns cristos, principalmente  aqueles  que  enfatizam  as milagrosas curas de Deus, ficam perplexos ao lerem na Bblia alguns conceitos que no se enquadram 
facilmente com as suas crenas. - Por que Deus no interveio mais vezes na  Bblia?
      Por que ele  no  cura  todos  os  cristos  agora?  -  eles perguntam.
      Essa indagao decorre de  uma  tendncia  oculta  vinda  do desejo  de  evitar  a  dor  a  qualquer  custo.  Parece  que reservamos os nossos mais  vistosos 
distintivos  de  mrito para aqueles que foram curados, apresentando-os  em  artigos de revista e em especiais de televiso; isso faz com que  as pessoas que no 
foram curadas sintam-se  como  se  Deus  no tivesse se interessado por elas. Fazemos com que a f  seja, no uma atitude de confiana em algo que no se v,  mas 
um caminho para se conseguir algo a  ser  visto,  alguma  coisa mgica ou estupenda, como um milagre ou ddiva sobrenatural.
      A f inclui o sobrenatural, mas tambm  inclui  a  confiana diria, dependente, apesar dos resultados. A f verdadeira  aquela que acredita sem provas slidas, 
a convico de fatos que se no vm, a substncia das coisas esperadas. Deus  no  apenas um mgico.
      Vi recentemente  um  programa  de  testemunhos  de  cura  na televiso. Os aplausos maiores vieram quando  algum  contou que a sua perna foi curada justamente 
uma  semana  antes  da data  marcada  para  amputao.  A  audincia  gritava    de entusiasmo, e o apresentador do programa declarou: - Este   o melhor milagre 
da noite.  -  No  pude  deixar  de  pensar naqueles que tinham  tido  seus  membros  amputados;  deviam estar pensando tristemente por que havia a sua f falhado.
      Uma pessoa doente no  necessariamente sem espiritualidade.
      A Bblia no declara que o cristo dever ter uma vida  mais fcil, mais livre de  germes,  ou  mais  segura  do  que  os no-cristos.
      As leis naturais que regem este planeta  so,  em  conjunto, boas leis que se ajustam ao plano  de  Deus  para  homens  e mulheres. Tornando-nos cristos, 
isso no  nos  fornece  uma cpsula espacial hermeticamente  fechada,  livre  de  germes para ficarmos protegidos dos males da terra.
      Se  Deus  impedisse  todas  as  tragdias  que   envolvessem cristos, isso nos isolaria de  tal  maneira  que  no  mais teramos identificao com o  mundo. 
Paulo  pediu  que  "um espinho da sua carne fosse removido", mas Deus recusou-se  a atend-lo. Como resultado, um nmero incontvel de  cristos tm uma profunda 
identificao com Paulo; para  eles,  Paulo tornou-se  mais  humano.  Eles  o  vm  lutando,  vivendo  o princpio que ensina, que a graa de Deus  suficiente.
Formao da Alma
      Leslie D. Weatherhead, um autor ingls do comeo do  sculo, teve srias dificuldades com a seguinte pergunta: - Por  que no remove Deus da minha  vida  o 
sofrimento?  -  Para  uma compreenso melhor ele usou uma analogia humana.  Pense  num homem muito forte, cuja esposa est sempre  queixando-se  de doenas. 0 homem 
comea a ajud-la  a  andar.  Ela  continua queixando-se, e ele passa a carreg-la para  onde  quer  que ela precise ir. Em pouco  tempo,  ela  estar  completamente 
invlida; no poder mais dar nem um passo;  depender  dele para tudo. Nesse caso, teria sido bem melhor para  a  mulher que  o  marido  no  a  tivesse  ajudado, 
deixado  que  ela cambaleasse, por mais dor que sentisse, e assim aprendesse a andar sozinha.' Semelhantemente, deixando J sem auxlio  no meio da dor e da aflio, 
sem,  o  benefcio  de  respostas confortantes, Deus permitiu que ele adquirisse nova fora.
      O que Deus deseja  deste  mundo?  Est  claro  que  ele  no pretende que este mundo seja um paraso hedonstico. Mas  se a nossa felicidade no  o  objetivo 
de  Deus,  qual  ser?
      Afinal, por que ele se incomoda com o nosso mundo?
      Alguns agnsticos, que no conseguem entender por  que  Deus permite o sofrimento, comeam por supor que o homem  um ser completo que  necessita  de  um  
ambiente  adequado.  Nessas condies, querem um mundo livre da  dor  no  qual  o  homem amadurecido possa perambular. Mas, o que acontece,  conforme declarao 
do professor John Hick no seu livro Filosofia  da Religio, 'Deus est lidando com  criaturas  incompletas.  O ambiente da terra deve promover o processo da  "formao 
da alma", no qual seres livres escolhem tornarem-se  filhos  de Deus. So as arestas difceis do nosso  mundo  que  permitem esse processo de luta e confronto.
      J vimos as vantagens de um  mundo  com  leis  fixas  e que permite a liberdade humana, embora os seres  humanos  possam abusar da liberdade e ferir ou prejudicar 
uns  aos  outros.
      John Hick continua com a imagem utpica e alega que um mundo livre de erros iria certamente abortar  os  planos  de  Deus para a humanidade.
      Suponhamos, ao contrrio da realidade, que este mundo  fosse um  paraso  do  qual  fosse  excluda  toda   e    qualquer possibilidade de dor e sofrimento. 
As  conseqncias  seriam de longo  alcance.  Por  exemplo,  ningum  jamais  magoaria qualquer pessoa; a faca do assassino viraria  papel,  ou  as balas do seu 
revlver tornar-se-iam em ar; o cofre do banco, do qual tivessem  roubado  bilhes  de  reais,  encher-se-ia novamente, de maneira miraculosa, com outros bilhes 
(o  que viria  a  ser  altamente  inflacionrio);  fraude,  trapaa, conspirao e traio no atingiriam a sociedade.  Do  mesmo modo, ningum jamais sofreria  
qualquer  acidente:  o  montanhista, o operrio de obras, ou uma criana caindo  do  alto de um prdio, todos  flutuariam  inclumes  at  o  cho;  o motorista 
imprudente jamais sofreria desastre.  No  haveria necessidade    de    administrao;    ningum    precisaria preocupar-se com outros em tempos de necessidade 
ou  perigo, porque em tal mundo  No  haveria  necessidades  ou  perigos reais.
      Para  tornar  possvel  essa  contnua  srie  de    ajustes individuais, a natureza  precisaria  elaborar  "providncias especiais" em vez de funcionar  normalmente 
de  acordo  com leis gerais e fixas, as quais os homens precisam aprender  a respeitar sob pena de dor ou  morte.  As  leis  da  natureza teriam de ser extremamente 
flexveis: algumas vezes a lei da gravidade funcionaria, outras, no; algumas vezes os  objetos seriam resistentes e slidos, outras vezes, macios . . .
      Pode-se tentar imaginar tal mundo.  claro que nossos atuais conceitos ticos no significariam nada. Se, por exemplo,  a noo de ferir algum  elemento 
essencial  no  conceito  de uma ao nefasta, no nosso  paraso  hedonista  no  haveria aes nefastas, nem tampouco aes retas em contraste com as nefastas. Coragem 
e energia No teriam lugar num ambiente em que, por Definio, no  houvesse  perigo  nem  dificuldade.
      Generosidade,  bondade,  amor  desinteressado,    prudncia, altrusmo, e todas as outras noes ticas que  fazem  parte de uma vida ideal, no poderiam  
existir.  Conseqentemente, tal mundo, por  mais  prazer  que  oferecesse,  estaria  mal equipado para o desenvolvimento  das  qualidades  morais  da personalidade 
humana. Quanto a este objetivo, seria  o  pior de todos os mundos possveis.
      Parece, ento, que um lugar  apropriado  para fazer frente  ao crescimento de seres livres, possuidores de  timo  carter, precisa ter muito em comum com 
o mundo  em  que  vivemos.   necessrio que esse mundo funcione de acordo com leis gerais e  fixas;    necessrio,  tambm, envolver perigos   reais, dificuldades, 
problemas,  obstculos,  e  possibilidades  de dor,  fracasso,  tristeza,  frustrao  e  derrota.  Se  no contivesse as provaes e perigos que  contm  -  mesmo 
no contando com a  enorme  contribuio  que  o  prprio  homem acrescenta - ele teria de ter outras provaes e perigos  no lugar destes.
       perfeitamente compreensvel que este mundo, com  todas  as suas  "dores  de  cabea  e  com  os  milhares  de   choques naturais", num ambiente to notoriamente 
planejado para  que no haja o mximo de prazer nem o mnimo de sofrimento, est muito bem adaptado para um propsito bem diferente, isto  , o da 'formao da alma".'
      De certo modo, seria mais fcil para Deus interferir, ter f em nosso lugar, e ajudar-nos  de  maneiras  extraordinrias. Mas ele preferiu colocar-se diante 
de  ns,  com  os  braos estendidos amorosamente, enquanto nos pede que andemos,  que participemos da formao  da  nossa  prpria  alma;  e  este processo envolve 
dor.
      C. S. Lewis desenvolve esta idia de maneira  muito  potica no seu livro o Problema da Dor, onde ele diz:
      No  um pai que queremos no cu, mas  um  av,  cujo  plano para o universo tivesse sido tal, que se  pudesse  dizer  ao fim de cada dia: - Todos tiveram 
um dia maravilhoso.
      Eu gostaria muito de viver num universo  regido por  essas leis, mas, j que isso no acontece,  e  eu  tenho  motivos para crer que Deus  amor, concluo que 
o  meu  conceito  de amor precisa ser corrigido . . .
      "O  problema  de  reconciliar  o  sofrimento  humano com  a existncia de um Deus amoroso somente   insolvel  enquanto damos um significado trivial  palavra 
"amor", e limitamos a sabedoria  de  Deus  pelo  que  nos  parece  ser    sensato."
      Desenhando para apenas divertir  uma  criana,  um  artista pode deixar de se ater  perfeio; no exigir de si  mesmo perfeio absoluta. Mas, ao fazer 
um quadro, que pode ser  o melhor da sua vida, - obra na qual ele pe todo o seu  amor, embora de um modo diferente, mas to intenso quanto  o  amor de um homem 
por uma mulher, ou da me pelo filho -  ele  no medir esforos para faz-lo perfeito, mesmo que isso  fosse sentido pelo quadro, se este fosse um ser  vivente. 
Pode-se imaginar um quadro que pudesse sentir todas as vezes  que  a pintura fosse apagada, raspada e recomeada pela dcima vez; provavelmente, o quadro desejaria 
que fosse  apenas  um  leve esboo e que terminasse num minuto. Do mesmo modo,  natural que desejemos que Deus tivesse planejado para ns um destino menos  glorioso 
e  menos  rduo;  mas,  ento,   estaramos desejando menos e no mais. pode ser perigoso e  talvez  at mesmo no-bblico torturarmos-nos procurando sua mensagem 
no sofrimento que nos atinge. A mensagem pode ser  simplesmente que vivemos num mundo de leis fixas, como todos  os  outros.
      Mas, de um ponto de vista mais amplo, atravs  da  histria, Deus est realmente falando-nos por intermdio da  dor,  ou, quem sabe, apesar da dor. Ele pode 
us-la  para  tornar-nos cnscios dele. A  sinfonia  que  ele  est  compondo  inclui acordes  menores,  dissonncias  e  cansativas  fugas.   Mas aqueles que o 
seguem, que esto em harmonia com o Maestro em todos estes  movimentos  iniciais,  um  dia  irrompero  com energia renovada numa melodia final.
Segunda Parte
Como As Pessoas Reagem A Dor Extrema
Ele s pode ser revelado  criana; revelado com perfeio apenas    criana  cheia  de  pureza. Toda a disciplina existente no mundo tem por finalidade transformar 
os  homens em crianas, para que Deus possa ser revelado a eles.
George MacDonald
      
Fundamentos da Vida
      Braos Curtos Demais Para Lutar Com Deus
      Digamos que voc esteja deitado num leito de hospital; sua vida sendo mantida por meio de tubos de plstico presos ao seu brao e ao seu nariz. Tudo o que 
voc possua foi destrudo numa grande catstrofe. Sua famlia desapareceu, ningum vem visit-lo. Todo o fruto do seu trabalho - casa, carro, poupana - tudo desapareceu 
para sempre. At a sua vida  est  em  perigo. 
      Voc passa pelos estgios normais  de  contestao,  com  um toque de amargura. Se  ao  menos  Deus  tivesse  um  contato direto comigo e  me  desse  as  respostas, 
voc  diz  a  si prprio. Eu quero crer nele, mas como? Nada do que aconteceu combina com o que sei a respeito de um Deus amoroso.  Se  ao menos eu pudesse v-lo 
uma  vez  e  ouvi-lo  declarar  suas razes por me colocar nessa situao, seria mais fcil.
      Houve uma pessoa, em situao muito semelhante    descrita acima, que viu seu desejo satisfeito. J, o prottipo do sofrimento, recebeu uma visita pessoal 
de Deus, cuja voz lhe veio de um redemoinho de vento. A resposta a J  o discurso mais longo atribudo a Deus nas Escrituras. E por ser a obra mais completa sobre 
o sofrimento,  existente  na  Bblia,   ele    merece    ser atentamente estudado. Talvez Deus tenha colocado ali as palavras que ele nos diria pessoalmente nas 
horas de grande sofrimento.
      Pense no cenrio. Que poderia Deus dizer a J?
      Poderia ter amorosamente colocado a sua mo sobre a cabea dele dizendo-lhe o quanto a sua personalidade cresceria naqueles dias de provao. Poder-lhe-ia 
ter revelado o seu acordo com Satans, enfatizando o fato de quo  importante era J permanecer fiel. Poderia ter feito uma  preleo sobre o valor do sofrimento 
e da dor, alertando-o de quanto seria pior se ele sofresse do mal de Hansen!
   Uma Lio da Natureza
      Deus no fez nada disso. Em palavras que poderiam ser  dirigidas at mesmo a um clube ou a uma sociedade   filosfica, Deus simplesmente lembrou a J todas 
as   maravilhas da natureza. Essas palavras tremendamente   profundas e majestosas so, muitas vezes, citadas pela   poesia que encerram, mas os leitores freqentemente 
esquecem o contexto em que J as ouviu: sem lar, sem   amigos, nu, cheio de lceras, em desespero. Bela hora para apreciar a natureza!
      Perante uma audincia deprimida, Deus  desencadeou  inditas salvas de regozijo divino. Fez  com  que  fossem  lembrados:
      - o nascer do sol:
       "Acaso desde que comearam  os  teus  dias  deste  ordem   madrugada, ou fizeste a alva saber o seu lugar?"
      - a neve:
      "Acaso entraste nos depsitos da neve, e viste os  tesouros da saraiva?"
      - o temporal com relmpagos e troves:
      "Quem abriu o caminho para os relmpagos...?  Podes levantar a tua voz at s nuvens, para que a abundncia  das guas te cubra? Ou ordenars aos relmpagos 
que saiam, e te digam: Eis-nos aqui?"
      - a leoa:
       "Caars, porventura, a presa para a leoa?  Ou  saciars  a fome dos leezinhos, quando se agacham nos covis, e esto   espreita nas covas?"
      - as cabras monteses:
      "Sabes tu o tempo em que as cabras monteses tm os filhos?"
      -o jumento selvagem:
      "Quem despediu livre o jumento selvagem, e quem  soltou  as prises ao asno veloz, ao qual dei o  ermo  por  casa,  e  a terra salgada por moradas?"
      - a avestruz:
      "Deus lhe negou sabedoria, e no lhe deu entendimento;  mas quando de um salto se levanta para correr, ri-se do cavalo e do cavaleiro."
      - o cavalo:
      "Ds tu fora ao cavalo, ou revestirs  o  seu  pescoo  de crinas? Acaso o fazes pular como ao gafanhoto? Terrvel   o fogoso respirar das suas ventas!" 
(J 38, 39).
      Leoas caadoras, guias que voam  nas  alturas,  coriscos  e relmpagos, crocodilos, boi selvagem . . . Deus referiu-se a cada um deles com a alegria de um 
artista satisfeito  com  o seu trabalho.
      
      Depois de cada descrio, Deus perguntou ou sugeriu   a J: - Tens poder para repetir tais proezas? Tens   inteligncia bastante para reger o mundo? - Deus 
at   mesmo empregou o sarcasmo no captulo 38, versculo   21: "Tu o sabes, porque nesse tempo eras nascido, e   porque  grande o nmero dos teus dias!"
      As palavras de Deus derrubaram J com poder   devastador. Deus ordenou: "Cinge agora os teus lombos   como homem; eu te perguntarei, e tu me responders.
      Acaso anulars tu, de fato, o meu juzo? Ou me   condenars, para te justificares? Ou tens brao como Deus, ou podes trovejar com a voz como ele o faz?" (40:7-9).
      A resposta de J foi uma submisso acabrunhadora e   penitente: "Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus   planos pode ser frustrado. Quem  aquele, como 
disseste, que sem conhecimento encobre o conselho? Na verdade falei do que no entendia; coisas maravilhosas demais para mim, coisas que eu no conhecia" (42:2, 
3).
        Ser que Deus responde  pergunta sobre o sofrimento   no livro de J? No diretamente. Ele evita uma explicao lgica e detalhada. Por que, ento, a tnica 
acusatria? O que Deus queria de J? 
      Simplesmente a sua confiana. Se ns, como J, somos to ignorantes acerca do mundo no qual vivemos, um mundo  que podemos ver e tocar ... quem somos ns para 
julgar o governo moral de Deus sobre o universo?
      Enquanto no formos suficientemente capazes de produzir  o corisco de um relmpago, ou at mesmo uma   aparvalhada avestruz, no teremos condies de  interpelar 
Deus. Antes de acusar Deus, ser bom considerar a   grandeza do Deus acusado.
      Um Deus com sabedoria suficiente para reger o   universo tem de ser tambm suficientemente sbio para   velar pelo seu filho J, a despeito da desolao do 
que   acontece. Um Deus com sabedoria suficiente  para  criar  a mim e ao mundo em que vivo,    suficientemente  sbio  para tomar conta de mim.
Protestos
      A atitude que Deus traz  tona, e a reao to humilde   de J, no constam na maioria dos livros modernos que j li  sobre o problema do sofrimento. Uma estante 
de todos os livros religiosos sobre o assunto poderia ser dividida em duas sees. Os mais antigos, escritos por Bunyan, Donne, Lutero, Calvino, Agostinho e outros, 
so quase constrangedores pela facilidade com que aceitam a dor e o sofrimento como agentes teis de Deus.
      Todos eles esto permeados de um senso de lealdade e  f na sabedoria de Deus. Ele sabe o que est fazendo neste mundo, e esses autores no contestam suas 
aes. Apenas tentam "justificar" os caminhos de Deus.
      Os livros modernos sobre dor apresentam um enorme contraste, a comear com os filsofos agnsticos do sculo  dezenove, continuando depois com muitos  escritores 
cristos atuais. Estes autores pensam que  a  quantidade  de infortnio e sofrimento existente no mundo  no combina  com o ponto de vista tradicional de um Deus 
bom e amoroso. Assim, muitos deles adaptam a sua prpria concepo de Deus, dando uma nova definio para o seu amor, ou contestando o seu poder de controlar o mal. 
Ao lermos e compararmos as duas categorias de livros, a diferena  estarrecedora. Parece que ns, nos dias atuais, achamos que o sofrimento no faz parte de nossa 
vida. Esquecemos que Lutero, Calvino e os outros viveram numa poca em que no havia ter nem penicilina, e que Bunyan e Donne escreveram as suas maiores obras encerrados 
em calabouos.
        O sofrimento oriundo de causas naturais (em contraste com o sofrimento causado pelo homem, como por Hitler, por  exemplo)  provavelmente muito mais controlado 
na poca atual do  que  em  qualquer  outra  da histria pregressa. Por que, ento, estes  protestos  contra Deus, estes gritos de desespero?
      Ser a nossa angustiada indignao moral completamente sem fundamento? Deus condenou tal indignao em J, acusando-o de julgar sem dados seguros. Ser que 
nossa angstia existencial moderna, a nossa mudana de opinio sobre o sofrimento, a nossa contestao de Deus, ser que tudo isso  ftil?
Reao, No Causa
      A mim me parece que o sofrimento envolve dois problemas: 1) quem causou meu desconforto; e 2) minha reao. A grande maioria de ns gasta sua energia tentando 
descobrir a causa do sofrimento, em vez de decidir como reagir. Joni Eareckson, assunto do captulo 9, levou dois anos pensando nas possveis causas do seu acidente. 
Mas, como Joni descobriu,  medida que ns nos concentramos na causa, podemos  terminar  tornando-nos amargos em relao a Deus.
      Em J, o livro da Bblia que mais vividamente apresenta a pergunta "Quem causa o sofrimento?", Deus deliberadamente evita tal resposta. Ele jamais explicou 
a causa a J. Notamos que a Bblia toda prefere desviar-se da   causa  do  sofrimento  para  tratar  da   reao    ao sofrimento. Dor  e  sofrimento  atingem-nos 
sempre;  o  que faremos agora? Os grandes apologistas da causa, os trs amigos de J, foram repreendidos por Deus. A Bblia  to clara neste ponto que concluo ser 
a pergunta " Deus o responsvel?" nada importante para os cristos. A importncia real est na pergunta "Como devo reagir, j que esta coisa horrvel aconteceu?" 
Por este motivo, a parte final do livro apresenta exemplos de pessoas que descobriram diferentes maneiras de reagir  dor. 
      Quanto  melhor reao, a Bblia d freqentemente uma resposta perturbadora:
      "Meus irmos, tende por motivo de toda a alegria o passardes por vrias provaes, sabendo que a provao  da  vossa  f, uma vez confirmada, produz perseverana. 
Ora, a perseverana deve ter  ao  completa,    para  que  sejais  perfeitos  e ntegros, em nada deficientes" (Tiago 1.-2-4).
      "Amados, no estranheis o fogo ardente que surge no  meio  de vs,  destinado  a  provar-vos,  como  se    alguma    coisa extraordinria vos estivesse  acontecendo; 
pelo  contrrio, alegrai-vos na  medida  em  que  sois  co-participantes  dos sofrimentos de Cristo, para que tambm na revelao  de  sua glria vos alegreis exultando" 
(1 Pedro 4:12, 13).
      "Nisso exultais, embora, no presente, por  breve  tempo,  se necessrio, sejais contristados por vrias  provaes,  para que o  valor  da  vossa  f,  uma 
vez  confirmado,    muito mais precioso do que o  ouro  perecvel,  mesmo  apurado  por fogo, redunde em louvor, glria  e  honra  na  revelao  de Jesus Cristo" 
(1 Pedro 1:6, 7).
      Um dos melhores exemplos da atitude ideal da Bblia para com o sofrimento diz respeito  no    dor  fsica,  mas    dor psicolgica, que se manifestou depois 
de Paulo  ter  escrito uma carta severa aos cristos de Corinto.  Refletindo  sobre isso,  ele  escreveu: Porquanto,  ainda  que  vos    tenha contristado com a 
carta, no me arrependo;    embora  j  me tenha arrependido (vejo que aquela carta vos contristou  por breve  tempo),  agora  me  alegro,   no    porque fostes 
contristados,  mas  porque  fostes  contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus,  para que de nossa parte nenhum dano sofrsseis. Porque 
a tristeza segundo Deus produz arrependimento para  a  salvao  que  a ningum traz pesar; mas a tristeza do  mundo  produz  morte. 
      Porque, quanto cuidado no produziu isto mesmo  em  vs  que segundo  Deus fostes contristados!" (2 Corntios 7:8-11). 
      "Fostes  contristados  para  o  arrependimento."  No   meu pensar, esse  provavelmente o resumo mais  sucinto  e  mais exato de todo o papel do sofrimento.* 
Ele se harmoniza   com o tom bblico que enfatiza a reao  do  cristo,  e  no  a  causa  do  sofrimento.  Encaixa-se  tambm   nos    exemplos previamente citados 
onde  Jesus  tratou  de  duas  tragdias (Lucas 13), Pilatos assassinando judeus e os dezoito  homens mortos pela queda de uma  torre.  Cristo  reforou  as  suas 
palavras com uma advertncia altissonante: "Se,  porm,  no vos arrependerdes, todos igualmente perecereis" (v. 3).
      Depois de declarar que estas tragdias no foram causadas por Deus como resultado das aes dos homens ("Pensais  que esses galileus eram mais pecadores do 
que todos  os  outros galileus?"), ele voltou-se para a reao das  pessoas.  Para os no-cristos, a mensagem  uma advertncia a fim  de  que considerem outros 
valores na  vida e voltem-se para Deus que oferece a eternidade. Para os cristos,  a  mensagem    ter confiana em Deus, como uma criana confia nos seus pais. 
Algo Produzido
      Como esta sugesto da Bblia difere da pessoa  que visita um hospital toda sorridente e fala de  coisas superficiais, incitando a olhar o lado bom da vida! 
 primeira vista,  as referncias bblicas  tambm  parecem  superficiais  com  as palavras: "Regozije-se!", "Alegrem-se!" Mas, examinemos isso mais detalhadamente. 
Cada  admoestao      seguida  de  um resultado positivo. O sofrimento produz alguma coisa.    de grande valia; transforma-nos. As passagens j citadas  e  as 
aludidas  na  nota  ao  final  do    captulo  -   enfatizam resultados diferentes: recompensa, perseverana,  pacincia, carter.
        O fato de o sofrimento induzir a uma reao  til  d uma perspectiva nova a essa experincia. Estamos sempre  prontos a suportar o sofrimento para obtermos 
algum  bom  resultado; atletas, mulheres grvidas no se incomodam com o sofrimento que resultar em algo por eles desejado. Conforme  o  ensino da Bblia, uma pessoa 
no leito  do hospital  pode  tornar-se uma pessoa melhor por causa do seu sofrimento. 
      A Bblia tambm esclarece as  expresses  "Regozije-se"  e "Alegrem-se".  Com  estas  palavras,  os   apstolos    no pretendiam que tivssemos atitude de 
algum que continua   a viver como se nada houvesse acontecido.  No  se  acha  essa interpretao nem nas reaes de Cristo ao  sofrimento,  nem tampouco nas reaes 
de Paulo. A auto-suficincia    poderia gerar tais atitudes, nunca a confiana absoluta em Deus.
      Nem tampouco sugere a Bblia  uma  atitude  masoquista  de deleitar-se com a dor. "Alegrar-se no sofrimento"  no  quer dizer que os cristos  devam  parecer 
felizes  quando    h tragdia e dor, quando na  realidade  eles  tm  vontade  de chorar.  Tal  ponto  de  vista  distorceria   a    expresso verdadeira e honesta 
dos sentimentos. Cristianismo    no   embuste ou falsidade.
      A Bblia focaliza o resultado final, o que Deus pode fazer das nossas vidas por intermdio do sofrimento. Antes que ele possa agir, entretanto, precisa  da 
nossa    declarao  de confiana nele, e essa  declarao  de  confiana  pode  ser descrita como regozijo.
      Pedi ao Dr. Paul Brand que me desse exemplos  de  cristos que tivessem suportado grande sofrimento. Ele citou  vrios, com profusos detalhes. Quando lhe perguntei 
se  a  dor  os havia levado para Deus ou se os tinha afastado de Deus,  ele pensou longamente e concluiu que no tinha  havido  a  mesma reao em todos. Alguns 
Chegaram-se mais a Deus, outros dele se afastaram amargamente. A diferena, disse  Brand,  estava na atitude deles  quanto    causa  do  sofrimento.  Aqueles presos 
a perguntas  como "Que fiz para  merecer  isso?",  "O que est Deus tentando dizer-me?", "Estou sendo castigado?", geralmente  voltavam-se  amargamente    contra 
Deus    ou resignavam-se  a um desespero fatalista. Os sofredores  mais triunfantes foram aqueles que  procuraram  a  melhor  reao para os cristos, aqueles que 
confiaram plenamente  em  Deus apesar de sua condio dolorosa. 
A Luta de Maria
      s vezes, o sofredor precisa suportar  meses  de  angstia antes de aprender a voltar-se para Deus. Uma  das  pacientes mais  famosas  do  Dr.  Brand,  Maria 
Verghese,    sentiu inicialmente pesar, amargura e agonia depois de  um  trgico acidente.
        Maria no era leprosa. Era mdica residente num leprosrio na ndia, onde o Dr. Brand  era  missionrio  mdico.  Certo dia, ela e outros jovens mdicos 
foram a um   piquenique  de camioneta.  O  motorista,  novato  no   volante,    resolveu demonstrar a sua percia. Aps irritantes momentos atrs  de um vagaroso 
nibus escolar,  o  jovem    motorista  resolveu ultrapass-lo. Repentinamente,  veio  um  carro  em  sentido contrrio.  sua esquerda estava uma estreita passagem 
sobre um pequeno aqueduto. Afobadamente,  quis pisar no freio, mas pisou no acelerador. A camioneta passou por cima do aqueduto e foi dando cambalhotas ladeira abaixo. 
      Maria Verghese, uma jovem mdica de carreira promissora, l ficou deitada no fundo do despenhadeiro,  imvel,  com  o rosto rasgado, num talho profundo, desde 
a ma    do  rosto at o queixo. As suas pernas balanavam  inteis  como  dois troncos mortos de rvore. Nos meses  seguintes,  a  vida  de Maria foi insuportvel. 
L fora, a temperatura era de  40'C. No seu  quarto  de  hospital,  Maria  estava  enrolada  numa jaqueta de plstico  grosso e num suporte  forte  tambm  de plstico. 
Ela enfrentava horas  agonizantes  de  terapia.  E semana aps semana, passava pelos  testes  de  tato,  jamais sentindo as  alfinetadas nas suas pernas.
        Tendo observado  seu permanente  estado  de  desespero  e amargura, o Dr. Brand decidiu conversar com ela. 
      - Maria -, comeou ele, - acho que  tempo de pensarmos no seu futuro profissional, no futuro da sua carreira mdica.
      A  princpio,  ela  julgou  que  o  Dr.  Brand   estivesse brincando, mas ele continuou a dizer que ela poderia  servir a  Deus  como  mdica,  talvez  proporcionando 
a    outros pacientes  as  estimulantes  qualidades  de    simpatia    e compreenso. Ela pensou nessa sugesto por muito tempo.   No sabia se lhe seria um dia 
possvel usar as pernas  de  modo a trabalhar como mdica.
      Aos poucos, Maria comeou a  trabalhar  com  os  pacientes leprosos. A equipe mdica notou que o mau-humor, o senso  de inutilidade e autopiedade pareciam 
se  desvanecer    quando Maria Verghese estava por  perto.  Os  leprosos  cochichavam entre si que a doutora da cadeira de rodas era mais invlida do que eles.
      Um dia, o Dr. Brand viu Maria rodando a  sua  cadeira  por entre os edifcios do hospital e perguntou  como  estava  se sentindo.
      - No comeo, tudo me parecia confuso -,  replicou  ela,  - mas agora parece que a vida afinal tem um sentido. 
      Logo depois, Maria Verghese passou a trabalhar  no  centro cirrgico,  trabalho  profundamente  exaustivo,  porque  ela precisava manter o seu equilbrio e 
operar sentada. 
      A recuperao de Maria dependia de muitas  horas  difceis de terapia, bem como de uma importante cirurgia na  espinha.
      Ela descobriu que a  sua  incapacidade  fsica  no  era  um castigo de Deus para lev-la a  uma  vida  miservel.  Muito pelo contrrio, descobriu que  isso 
podia lhe ser de  grande vantagem como  mdica.  Os  doentes  invlidos  aceitavam-na imediatamente e tinham com ela grande afinidade.
      Mais tarde, Maria aprendeu a andar com um aparelho. Ganhou uma bolsa de estudos para  o  Instituto  de  Fisioterapia  e Reabilitao de Nova York, e, finalmente, 
passou  a  dirigir um novo departamento na Escola de Fisioterapia  de  Vellore, ndia.
      Voltando-se para Deus e aceitando o fato de que ele  podia tecer  um  novo  plano  para  a  sua  vida,  Maria  Verghese conseguiu provavelmente muito mais 
do  que  se  o  acidente jamais houvesse ocorrido.
      Pense nas pessoas que fizeram justamente  o  contrrio  do que  Maria  fez,  que  se  afastaram  de  Deus  na  hora  do sofrimento. A nica alternativa  que 
lhes  resta    atrair ateno sobre si mesmas. Falam sobre as suas doenas como se fosse a nica  coisa  da  sua  vida.  Queixam-se,  tornam-se rabugentas e tristonhas. 
Desencadeiam a autocomiserao  que est  escondida  em  cada  um  de  ns.  Muitas  vezes,    a hipocondria aumenta as suas  doenas.    como  se  a  nica maneira 
de se relacionarem com  o  mundo  fosse  solicitando piedade.
        No quero insinuar que Deus ama  um  tipo  de  sofredor  e rejeita o outro, ou que um sofredor seja  mais  "espiritual" do que outro. Acredito que  Deus 
compreende  aqueles    que escoiceam, lutam e esbravejam (dois exemplos  excelentes:  o livro de J e A Anlise de Uma Aflio de C. S.  Lewls)  to bem quanto os 
poucos que  aprendem  a  deixar    com  que  o sofrimento os torne pessoas melhores,
      Deus no necessita das nossas  reaes  corretas  para  si prprio, para satisfazer suas  prprias  necessidades.  Acho que ele focaliza a nossa reao para 
o nosso bem,  no  para o bem dele. Ajudar-nos-ia  saber  exatamente  por  que  Deus permite o nosso sofrimento?  Tal  conhecimento  poderia  at engendrar maior 
amargura.  Mas  a  nossa  condio  melhora muito  quando  nos  voltamos  para  ele.  Perdemos  a  nossa auto-suficincia e a nossa f  renova-se,  tornando-se  
mais profunda. Isso pode produzir mudanas de  valor  inestimvel dentro de ns.
Reagindo ao Holocausto
      Num perodo de dois meses, li  dois  comoventes  relatos  de pessoas  que  sobreviveram  ao  holocausto  da   perseguio nazista  na  primeira  Guerra  Mundial. 
Bem  como  outros acontecimentos histricos, o holocausto apresenta a  questo da justia de Deus. Como pde Deus permitir que seis milhes dentre seu "povo escolhido" 
fossem to  vilipendiados?    Os dois autores, Elie Wesel e Correten Boora, expressam  duas reaes radicalmente opostas ao horrvel sofrimento.
      Noite, de Eli Wiesel, impressionou-me mais do  que  qualquer outro livro que eu jamais  lera.  Em  frases  sucintas,  bem condensadas,  Wiesel  descreve  um 
dos    mais    horrveis captulos  da  histria  humana,  onde    ele    passou    a adolescncia, Wiesel viu todos os judeus da sua  pequena  cidade  reunidos 
num gueto, despojados de todos os seus haveres e  postos  em vages de gado, onde quase a tera parte morreu.    Ele  viu sua me, sua irmzinha, e toda a sua famlia 
desaparecer num forno abastecido de carne humana.
      Wiesel viu nenezinhos jogados para cima e  aparados  com um forcado, crianas enforcadas, homens  enfraquecidos  serem mortos por seus companheiros de priso 
por alimento,  por um pedao  de  po. O prprio  Elie,  freqentemente  recebeu contnuos golpes de  cassetete;  escapou  da  morte  por  um acidente.
    Na noite em  que  o  trem  de  Wiesel  parou  em  Birkenbau, espirais da sinistra fumaa preta avolumavam-se de um  forno enorme, e pela primeira vez em sua 
vida Elie sentiu o cheiro de combusto de carne humana: "Jamais esquecerei aquela noite, mil  vezes  amaldioada.  jamais esquecerei aquela fumaa. Jamais esquecerei 
os pequenos rostos  das  crianas, cujos corpos vi transformarem-se  em espirais de fumaa  sob um silencioso cu azul. Jamais esquecerei o silncio noturno que 
me despojou, para todo o sempre, da vontade  de  viver.
    Jamais esquecerei aqueles momentos que assassinaram  o  meu Deus e a minha alma, e fizeram os meus  sonhos  virarem  p.
    Jamais esquecerei estas coisas, mesmo que eu seja  condenado a viver tanto quanto o prprio Deus. Jamais !".
      Todos os livros  de  Wiesel  apresentam  o  mesmo  toque  de tragdia sem  esperana.  No  prefcio  de  Noite,  o  autor francs Franois  Mauriac,  prmio 
Nobel,  descreve  o  seu primeiro encontro com Wiesel, depois de  ter  ouvido  a  sua histria.
      Foi ento que entendi  o  que  havia  me  atrado  ao  jovem israelita: aquele olhar, como de um Lzaro levantado  dentre os mortos, mas ainda preso s fronteiras 
sinistras  onde ele havia vagueado entre os chocantes  cadveres.  Para  ele,  o grito de Nietzche expressava uma realidade quasefsica: Deus est morto.- o Deus 
de amor, da bondade,  do consolo, o Deus de Abrao, de Isaque, de Jac, sumiu para todo o sempre, sob o olhar fixo desta  criana,  na  fumaa  de  um  holocausto 
humano exigido pela Raa,  o mais voraz de todos os  dolos.
      E quantos  judeus  piedosos  experimentaram  essa  morte!  E naquele dia, mais horrvel ainda do que  todos  os  dias  de horror, quando a  criana viu o enforcamento 
(sim!) de outra criana que, assim ele nos conta, tinha a  expresso  de  um anjo triste, e ouviu atrs dele algum gemer:  -  Onde  est Deus? Onde ele est? Onde 
estar ele agora?
      Compassivamente, Mauriac pergunta:
      - Ser que j pensamos na conseqncia  de  um  horror  que, embora aparentemente menos horrvel que outras  atrocidades,  verdadeiramente pior do que todas 
as outras  para  aqueles dentre ns que tm f: a  morte  de  Deus  na  alma  de  uma criana que repentinamente descobre o mal absoluto?'
Um Abismo Profundo
      Muitos de ns, e eu tambm, temos a tendncia  de  ser  como Wiesel, esmagados pela tragdia humana. Depois de passar por aquilo que Wiesel descreve, pode 
algum  comear    a  viver novamente? Ser que a base da vida ainda subsiste? Ser  que palavras como esperana, felicidade e  alegria  ainda  podem vir a significar 
alguma coisa?  Mediante    tais  tragdias, poder  algum  falar  sobre  o  valor  do  sofrimento    na construo do carter?
      O prprio Wiesel revelou que o repdio da sua humanidade foi quase uma experincia libertadora.
      - Pelo contrrio, senti-me muito forte, Eu era o acusador, e Deus o acusado. Meus olhos estavam abertos e eu  estava  s, terrivelmente s num mundo sem Deus 
e sem  o homem. Sem amor e sem misericrdia. Eu me tornara em cinzas,  mas  sentia-me mais forte do que o Todo-poderoso, a quem a minha vida tinha sido presa por 
tanto tempo.
      Depois de ter lido o relato profundo de Elie Wiesel em Noite e em seus outros livros, li Refgio Secreto  de  Corrie  ten Boorn. Toda a dor e todo o  sofrimento 
de  Noite    estavam presentes na histria verdadeira de perseguio contada  por Corrie. Ela no era judia, mas  foi  levada  aos  campos  de morte da Alemanha 
por ter ajudado  judeus.  Ela  tambm  viu pessoas serem assassinadas, viu a sua irm morrer, sentiu  o ferro do aoite e a dissoluo da virtude  num  mundo  onde 
reinava o mal absoluto.  Embora no descreva  a  experincia com a mesma intensidade grfica de Wiesel,  ela  faz  muitas das mesmas perguntas e, algumas vezes, 
explode a sua revolta contra Deus.
      Mas h em Refgio Secreto outro elemento,  o  qual  provou ser quase insustentvel para os revisores seculares do filme baseado no livro, o elemento da esperana 
e da vitria. Por todo  Refgio  Secreto,  encontram-se  mesclados    pequenos milagres, estudos da  Bblia,  cntico  de  hinos,  atos  de compaixo e sacrifcio. 
E, o tempo  todo, Corrie e sua  irm Betsie continuam a confiar em um Deus que as v e que  delas cuida.
       Preciso confessar que, embora as minhas simpatias  estejam com a maneira  de  Corrie  enfrentar  a  vida  e  embora  eu acredite no seu Deus de amor, tive 
de lutar contra  a  idia de achar o seu livro superficial  em  comparao  com  o  de Wesel. Era como se algo  escuro  e  altissonante  estivesse dentro de mim 
conduzindo-me ao  desespero,    forando-me  a permanecer orgulhosamente ao lado  de  Elie  Wiesel  como  o acusador de Deus e obrigando-me a jogar fora os  limitadores 
grilhes da crena. Fui tomado  pela nsia humana  inata  de voar para o desespero, para longe da esperana.
      Deus  no  condena  nossos  momentos  de  desespero  e  de descrena. Ele bem compreende isso, por ter vindo  terra  e sofrido cruelmente. Antes da ltima 
hora, seu prprio  Filho perguntou se aquele clice no poderia dele ser  passado,  e na cruz exclamou: - Deus meu, por que me desamparaste?
        Toda  a  revolta,  desespero  e  depresso  descritos  to vivamente em  Noite  esto  presentes  na  mensagem  crist, identificao completa e perfeita 
com o mundo sofredor.  Mas o Cristianismo d ainda um passo adiante, o qual em  sido  a pedra de tropeo para muitos.  a ressurreio, o momento da vitria quando 
o ltimo  inimigo,  a  morte,  foi  esmagado.
      Deus, que convida J, Corrie ten Boom,  a  voc,  e  a  mim, para tomar parte na alegria e na vitria, no nos  pede  que aceitemos um mundo utpico. Ele  
simplesmente  adiciona  uma dimenso  misteriosa,  muito    mais  profunda,   alm da experincia humana. Ele pede esperana apesar  do  ambiente desesperanado. 
Quando o sofrimento nos atinge, ele pede que no o rejeitemos; que  a nossa reao seja semelhante   das crianas, confiando sempre na  sua  sabedoria  e  afirmando, 
como bem disse Corrie.
      - Quanto mais profundo o abismo, maior ainda  o  amor  de Deus.
A Capela de Dachau
      Na capela protestante do campo de concentrao de  Dachau, perto de  Munique,  encontrei  um  homem  surpreendente  que sobreviveu ao Holocausto e cuja misso 
vital   anunciar  ao mundo que o amor de Deus ainda   mais  profundo  do  que  o atoleiro da depravao humana. Com o seu auxlio, compreendi como pde Corre 
manter tal ponto  de vista em situao  to horrenda.
      Esse homem, Cristiano Reger,  foi  prisioneiro  de  Dachau durante quatro anos. Qual o seu crime? Pertencera    Igreja Confessa, um ramo da igreja estatal 
alem que  se  opunha  a Hitler (Martin Niemoeller e  Dietrich  Bonhoeffer  foram  os seus lderes). Reger foi entregue s autoridades alems pelo organista da sua 
igreja e foi despachado    para  Dachau,  a centenas de quilmetros de distncia.
      Encontrei Reger no campo de Dachau. O Comit Internacional de Dachau, do qual Reger faz parte, tem procurado  restaurar o campo como um monumento, para que 
o mundo no  o  esquea.
      "Nunca mais"  o lema por eles adotado.
      No  fcil achar o  campo  de  Dachau,  pois  os  alemes daquela regio relutam, o que  bastante  compreensvel,  em apresent-lo como atrao turstica. 
O dia em que  o visitei estava frio, nublado e escuro. A neblina da manh era  densa quase rente ao solo, e,  medida que eu  andava,  a  umidade grudava-se ao meu 
rosto e s minhas  mos.
      No resta muito de  Dachau.  Ainda  sobram  da  guerra  os fornos crematrios originais.  Naquela  ocasio,  havia  ali trinta  alojamentos;  e  blocos  de 
concreto   de    trinta centmetros de altura ainda marcam  a  sua  localizao.  Um deles foi restaurado, e pede-se ao visitante  que  visualize as condies quando 
algumas vezes  1.600  pessoas    ficavam comprimidas em alojamentos construdos para o mximo de  208 pessoas.
      A  neblina,  a  desolao,  e  os  alicerces  dos  prdios derrubados davam uma aparncia lgubre ao lugar. Uma  criana brincava no que sobrou dos alicerces; 
havia flores  perto do arame farpado.
      Reger estava na capela protestante que fica  perto  de  um convento catlico e  de  um  monumento  judeu.  Ele  costuma percorrer o campo  procura de turistas, 
com quem   conversa em alemo, ingls  e  francs,  respondendo  a  perguntas  e recordando os dias em que ali esteve  preso.  Ele  conta  do ltimo inverno, quando 
quase no havia mais    carvo  e  os fornos j no funcionavam. Os prisioneiros no mais  sentiam o  constante  fedor  resultante  da    queima    dos    seus companheiros. 
Os cadveres eram empilhados  na neve, como  se fossem lenha, com um nmero azul em cada corpo.
      Se pedirem, Cristiano Reger contar histrias  de  horror. 
      Mas, ele ir alm, pois costuma partilhar a sua f,  costuma contar como o Deus de amor visitou-o em Dachau. -  Nietzsche disse que um homem pode suportar 
torturas  se  ele  souber  o porqu de sua vida disse-me Reger. -  Mas  aqui  em  Dachau, aprendi alguma coisa muito mais profunda. Aprendi a conhecer o "Quem" da 
minha  vida. Foi somente ele quem me deu  foras e at hoje ainda me sustm.
      No foi sempre assim. Depois de passar um ms  em  Dachau, Reger,  semelhana de Elie  Wiesel,  perdeu  toda  a  f  e esperana num Deus amoroso. Partindo 
da perspectiva   de  um prisioneiro nazista, as probabilidades  contra  a  sua  vida eram simplesmente grandes demais. Ento, em julho de 1941, aconteceu alguma 
coisa que foi um desafio   sua dvida.  Os prisioneiros podiam receber somente uma  carta  por  ms,  e exatamente um ms depois da sua  recluso,  Cristiano  Reger 
recebeu  as  primeiras  notcias    da  esposa.  A    carta, cuidadosamente recortada em  pedaos  pela  censura,  falava sobre a famlia e sobre o amor que ela 
sentia  por  ele.  No final, havia uma referncia   a  versculos  bblicos:  Atos 4:26-29. Reger procurou os versculos na Bblia. Eram  parte das palavras proferidas 
numa reunio de Pedro e Joo com  os ancios depois  de serem aqueles apstolos soltos da priso:
      "Levantaram-se  os  reis  da  terra  e   as autoridades ajuntaram-se  uma contra o Senhor e contra  o  seu  Ungido; porque verdadeiramente se ajuntaram nesta 
cidade contra    o teu santo Servo Jesus, ao qual  ungiste,  Herodes  e  Pncio Pilatos, com gentios e povos de Israel, para fazerem tudo  o que a tua mo e o teu 
propsito  predeterminaram;    agora, Senhor, olha para as suas ameaas, e concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez a tua palavra."
      Naquela tarde, Reger devia enfrentar os interrogadores,  a experincia mais assustadora do  campo.  Ele  seria  chamado para delatar o nome de companheiros 
cristos,    e,  se  no resistisse  presso, aqueles cristos seriam  capturados  e possivelmente mortos. Havia bastante  probabilidade  de  ele ser aoitado com 
porretes ou torturado com  eletricidade  se se recusasse a cooperar com os interrogadores. Os versculos pouco significavam para    ele.  Podia  Deus  ser  de  algum 
auxlio numa situao daquelas?
      Reger dirigiu-se  rea de espera do lado de fora da  sala de interrogao.  Tremia.  A  porta  abriu-se  e  um  colega pastor, a quem Reger jamais havia visto, 
passou    por  ele.
      Sem olhar para Reger, e sem mesmo mudar a expresso  do  seu rosto, ele colocou rapidamente  alguma  coisa  no  bolso  do palet de Reger, e foi embora. Segundos 
depois, guardas  da SS apareceram e introduziram-no na  sala.  As interrogaes correram surpreendentemente bem; tudo  correu  facilmente  e no houve violncia.
      Quando Reger retornou ao alojamento, suava de  nervosismo.
      Respirou fundo diversas vezes, tentando acalmar-se, e depois arrastou-se para o  seu  beliche  de  palha.    De  repente, lembrou-se do incidente com o outro 
ministro evanglico. Ps a mo no bolso e de l retirou uma  caixa  de  fsforos.  , pensou, que gesto bondoso. Fsforos  so preciosos aqui. Mas l  dentro,  entretanto, 
no  havia  fsforos.  Apenas um papelzinho dobrado.  Reger  desdobrou-o,  e  o  seu  corao comeou a bater  fortemente.  Cuidadosamente    impressa  no papel 
estava a seguinte referncia: Atos 4:26-29.
      Era um milagre, uma mensagem de Deus. No havia jeito de o ministro ter visto a carta da  sua  esposa.  Ele  nem  mesmo sabia quem era o ministro, Deus tinha 
providenciado    esse acontecimento como uma  demonstrao  de  que  ainda  estava vivo, ainda era  capaz  de  aumentar  a  resistncia,  ainda merecia confiana.
      Daquele  momento  em  diante,  Cristiano  Reger  sentiu-se transformado. Foi um  pequenino  milagre,  sim,  mas  foi  o suficiente para que a sua f fosse 
firmada em to inabalvel rocha, que no mais foi  abalada  pelas  atrocidades,  pela matana e pela  injustia  humana  que  ele  presenciou  nos quatro anos seguintes 
em Dachau.
      "Deus no  me  libertou,  nem  tornou  mais  fcil  o  meu sofrimento. Simplesmente provou a mim que ainda estava vivo, e que sabia que eu estava ali. Ns, 
os cristos,  unimo-nos.
      Formamos ali uma igreja, juntamente com  outros  pastores e padres condenados. ramos um  movimento  ecumnico forado, como dizamos; uma nica carne, parte 
do corpo de Cristo.
      "Posso somente falar por mim. Outros afastaram-se de  Deus por causa de Dachau. Quem sou eu para julg-los? O que sei  que Deus me encontrou. Para mim ele 
foi  tudo, at mesmo  em Dachau."
      Enquanto tiver sade, Cristiano Reger  no  vai  parar  de andar pelo campo de Dachau, conversando com os turistas  com sua voz afetuosa e com sotaque pesado. 
Ele  lhes    contar como era o lugar e  onde  estava  Deus  na  longa  noite  de Dachau.
Olhando Para Frente
      A teologia oferece-nos uma doutrina  chamada  Providncia, para explicar o fenmeno de  "uma  luz  na  escurido".  Por causa  da  Providncia,  o  resultado 
do  sofrimento     de Cristiano Reger e de Corrie ten Boom tem trazido esperana e alegria a milhes. Por  causa  da  Providncia,  a  aparente tragdia da crucificao 
de Jesus tornou-se  a  salvao  do mundo.
      Teria sido da vontade de Deus o regime nazista ou a  morte do seu prprio Filho? No h  resposta  para  tal  pergunta.
      Obviamente, por causa do seu  carter,  Deus  no    poderia desejar tais atrocidades, embora as  tenha  permitido.  Para mim, torna-se mais fcil visualizar 
a Providncia  como  uma doutrina que olha sempre para a  frente.    O  que  vejo  na Bblia no  um convite a olhar para  trs  e  descobrir  se
      Deus  responsvel, a fim de acus-lo. Na sua resposta a J, Deus ignorou esse ponto. Convida-nos a Bblia a olhar para a frente, para aquilo que Deus  pode 
fazer  partindo  de  uma tragdia.
      Na hora da dor, parece impossvel imaginar que disso surja algo bom.  possvel  que  Cristo  tenha  pensado  assim  no Getsmani. No podemos compreender 
como o sofrimento   ou  o mal possam ser transformados em  motivo  de  jbilo.  Mas   nisso que precisamos acreditar.
      A  Bblia  descreve  situaes  diversas,  nas  quais   o sofrimento pode ser usado para o nosso bem, apesar de eu ter colocado todos sob o mesmo ttulo "levando-nos 
para  Deus".
      Por exemplo, o sofrimento pode:
      1) Aprimorar a nossa  f  (1 Pedro 1:5-7).
      2) Tornar-nos mais maduros (Tiago  1:2-4).
      3) Manifestar as obras de Deus (Joo 9:1-3).
      4) Tornar-nos semelhantes  imagem de Cristo Romanos 8:28,  29).
      5) Produzir perseverana e carter (Romanos 5:3-5).
      
    A minha  dor  constante  oscila  de  tremendamente  forte  a insuportvel. Por que Deus no responde s  minhas  oraes?
    Brian Sternberg

Depois da Queda
      Para mim,  relativamente fcil escrever  sobre  a  reao humana apropriada ao sofrimento. Mas, o meu sofrimento atual consiste apenas em estar com o nariz 
um  pouco    entupido, coisa  no  suficiente  para  entrar  no  rol  dos grandes sofrimentos. Teorias sobre o papel do  sofrimento  no  mundo no  podem  ser  apresentadas, 
a  no  ser  com    base  em experincias reais.
      Para melhor aquilatar o sofrimento, visitei dois  cristos que vivem diariamente as suas solitrias batalhas  contra  a dor - fsica e psicolgica - que, por 
vezes,   to violenta que chega a ser incontrolvel. Ambos so jovens e foram atingidos  na  plenitude  da  mocidade.  Sob  muitos aspectos, o infortnio de ambos 
 semelhante.
      Entretanto,  Brian  Sternberg  e  Joni  Eareckson  tiveram reaes inteiramente opostas. As  suas  experincias  com  o sofrimento foram to desgastantes que 
cada  um  merece  um captulo.
      No dia 2 de julho de 1963, Brian  Sternberg  caiu  de  uma altura  de  3  metros  e  a  queda  de  um  segundo    mudou completamente  a  sua  vida.  Antes 
da  queda,  a   famlia Sternberg  era alegre e divertida. No curso secundrio Brian tinha-se devotado ao majestoso salto de vara. Ele se lanava numa rpida corrida 
pela pista empunhando a vara,   ouvia-se o baque surdo ao ser fincada no solo, via-se o salto  sbito de  um  felino,  e  ele  se  sentia  jogado  como  pedra  de 
estilingue. Quem j sentiu um n no  estmago    quando,  na extremidade de um trampolim de uma  piscina,  pode  ter  uma idia do que Bran Sternberg sentiu nas 
primeiras tentativas do salto de vara.
      Para Brian, no era suficiente ser exmio  na  tcnica  do salto. Para saltar com mais elegncia  e  habilidade,  tomou aulas extras de ginstica.
      Depois das aulas, ele, invariavelmente, treinava saltos ou aperfeioava pulos e  quedas  na  cama  elstica.  Conseguiu aprender um grande nmero de  "loops", 
tores    e  saltos mortais, regozijando-se no mero prazer de comandar o  corpo.
      Ginstica, um bal de resistncia,  talvez o  que  mais  se aproxima da arte no campo dos esportes.   Brian  harmonizava arte com a rigorosa cincia do salto 
de vara.
      Como  calouro  da  Universidade  de   Washington,    Brian estabeleceu a marca de 4,775m para o  encontro  nacional  de calouros universitrios. No ano seguinte, 
foi  classificado como  o  saltador  nmero  1  do  mundo    pelas    revistas especializadas. Estava entre os  grandes  atletas  mundiais.
      Era o ano de 1963. John Kennedy era presidente  dos  Estados Unidos.  Vencer  os  russos  tornara-se  obsesso  do povo norte-americano. Tudo indicava que 
os  Estados  Unidos,  em Brian Sternberg, possuam um vencedor, e os  olhos do  mundo achavam-se voltados para esse rapaz de dezenove anos.
      Previa-se um sucesso inacreditvel  para  a  temporada  de 1963. Todas as semanas Brian  era  manchete  nas  sees  de esporte.  Invicto  em  competies 
ao   ar    livre,    ele estabeleceu o recorde  norte-americano  nas  competies  de salo. Nessa primavera  ele  conseguiu  sua  primeira  marca mundial com um 
salto de 5,004m.
      Em rpida sucesso, Brian conseguiu novos recordes de  5,055m e 5,08 m  e  conquistou  os  ttulos  da  Associao Atltica Colegial Nacional e da  Unio  
Atltica    Amadora. 
      Foram dias maravilhosos para os Sternberg. Eles sabiam que a glria seria de curta durao, pois os astros de tal esporte no tm uma longa  trajetria  de 
sucessos.  Gostavam  de convidar os amigos para irem todos juntos ver o filho  fazer sucesso; o estdio ficava  cheio  e  a  multido  gritava  e acenava.
      Tudo mudou no dia 2 de julho, trs semanas depois de Brian ter marcado o ltimo recorde mundial.  Agora,  mais  de  uma dcada mais tarde, Brian Sternberg 
ainda compete,  mas  numa competio muito mais solitria e desesperadora. Acabaram-se os saltos de vara.
O Acidente
      Tudo comeou quando ele apanhou o suter e  gritou:  -  Me, vou fazer exerccio no pavilho. - Dirigiu o seu carro sobre a ponte do rio em direo  Universidade 
de   Washington,  e l  comeou  um  exerccio  de   aquecimento.    A    equipe norte-americana de salto preparava-se para  uma  excurso   Rssia e era indispensvel 
que Brian treinasse    o  mximo.
      Brian descreve o que aconteceu:
    Se h algum momento assustador em saltos de cama elstica,  justamente na hora em que se  deixa  a  superfcie,  pulando para cima. Naquele  momento  mesmo 
os  mais  experimentados ginastas sentem uma sensao de Pnico, sem nenhuma   razo, que s desaparece ao voltar   cama  elstica.  Deu-me  isso quando dei o salto 
para cima . Senti-me Perdido no  alto  e Pensei que ia baixar sobre as minhas mos   e  ps  como  j havia feito tantas vezes, mas o pnico tomou conta  de  mim.
    Desci, ento, com a cabea de encontro  superfcie. Ouvi um estalo no Pescoo, ento tudo acabou. Meus braos  e  pernas ricocheteavam    minha  frente,  mas 
eu  no  sentia    os movimentos. Mesmo antes de eles pararem, eu  berrei: - Estou paraltico! - numa voz to alta  quanto  Pude,  mas  que  na realidade era muito 
baixa,  pois  os  pulmes  estavam  sem foras. A paralisia tinha afetado  a minha respirao.
    Nada havia que eu pudesse  fazer.  No  podia mexer-me.
    Assustei-me a princpio, mas dePois, por  alguma  razo, o pnico desapareceu. Disse s pessoas que me rodeavam:
    - No me movam, o meu pescoo, principalmente,  precisa ficar imvel.
    - Quando vi que no podia respirar e senti que ia morrer, pedi a um garoto que fizesse a  respirao  artificial  pela boca: - Faa isso, mas no incline minha 
cabea para trs.
    Uma verdadeira  angstia  abateu-se  sobre  mim  enquanto espervamos pelo mdico. No era dor fsica, mas  s  pensar no que me havia  acontecido, j me perturbava 
.   Entretanto, naquela hora eu pensava apenas no futuro  prximo . Ainda no me ocorrera a possibilidade  de jamais andar novamente."
      Nas oito semanas seguintes Brian ficou  deitado  preso  a uma armao Foster, um dispositivo de lona e  ao,  ao  qual apelidaram de "'sanduche de lona". 
Havia uns    ganchos  em ambas as extremidades e, de Vez  em  quando,  um  enfermeiro dava uma volta na armao para  que  Brian  ficasse  ora  de costas,  ora  
de  frente,  para  evitar  escaras  e   outras complicaes.
      Os mdicos pouco sabem sobre o sistema espinhal. Eles  no podem fazer um estudo sobre o sistema em  funcionamento  sem prejudicar o paciente. Durante quarenta 
e  oito  horas  eles no sabiam se Brian viveria. Quando ele sobreviveu, eles no tinham idia do quanto poderia  ser  recuperado.  Depois  de retirado da armao 
Foster,  ele j podia  mover  a  cabea, embora no  o  fizesse  por  longo  tempo,  receoso  de  tal movimento, pois lembrava-se bem do estalo que o seu  pescoo 
dera. Ele tambm conseguiu  crispar alguns  poucos  msculos dos ombros, aqueles bojos, outrora to pujantes, que  tinham feito dele  um  bom  saltador  de  vara. 
Tcnicos  prendiam eletrodos a outros  msculos do seu corpo  e,  por  meio  de choque  eltrico,  faziam-nos  moverem-se  abruptamente.  Do contrrio, os msculos 
deteriorariam.  Brian  podia  ver  as contraes,  mas nada sentia.
      Durante certo tempo ele no sentiu dor.  Nem  parecia  que tinha pernas, braos e um tronco. Disse que sentia  como  se estivesse flutuando no quarto; parecia 
que no    estava  em parte alguma. Ele no  sentia  nem  o  colcho  onde  estava deitado.
Pesadelos e Um Despertar
      Deitado na cama o dia todo,  uma  "cabea"  e  nada  mais, Brian comeou  a  sofrer  alucinaes  de  tato.  Comeou  a imaginar que tinha pernas e braos 
que  obedeciam  ao    seu comando. Ele se concentrava, e imaginava, digamos,  um  jogo de basquete. Algo  no  seu  subconsciente  trazia  ao  nervo central a exata 
memria de uma bola de basquete,  e  ele  se sentia segurando a bola. A princpio,  isso  lhe  era  muito interessante, pois ele sonhava com o  dia  em  que  isso 
se tornasse realidade. Depois, os jogos voltaram-se contra ele. 
      Na sua alucinao,  os  objetos  prendiam-se   aos    seus    dedos imaginrios e ele no conseguia solt-los. Ou, s vezes, ele sentia a sensao de ter nas 
mos objetos  cortantes    como gilete , por exemplo. Objetos com lminas cortantes pareciam percorrer-lhe as mos, trazendo-o s  lgrimas  pelas  dores excruciantes. 
Tudo  imaginrio,    claro,    mas  para  os receptores nervosos da mente de Brian  parecia  muito  real. 
      Por muito tempo, ele no pde livrar-se  da  iluso  de  que havia uma porca aparafusada fortemente   na  ponta  de  cada dedo.
       noite vinham os  pesadelos.  Eram  pesadelos  cheios  de terror e maldade, nos quais ele se via, tal qual uma  mosca, andando pelo teto e paredes do seu 
quarto. Alguns  pesadelos no tinham forma nem enredo,  eram  sentimentos  amorfos  de terror. O acordar do pesadelo era, porm,  muitssimo  pior, pois ele no 
podia mais  acordar  do    pesadelo  da  triste realidade.
      Os ataques de depresso emocional, ainda mais intensos que as alucinaes, vinham  sem  aviso  prvio.  Durante  horas, Brian ficava a olhar para as mesmas 
paredes  e com  tremendo esforo  mental  tentava  fazer  com   que    os    msculos trabalhassem. Ele via o seu corpo de atleta atrofiar  dia  a dia, devido  
inatividade. E toda a vez  que  tentava  fazer com que algum msculo trabalhasse, sempre sem  sucesso,  ele mergulhava numa depresso mais profunda. Reclamava  para 
os mdicos:
      - No agento  mais.  No  sei  mais  o  que  fazer.  Nada acontece. No  posso  mais  continuar  assim  imvel.  Estou exausto. j tentei fazer os msculos 
me  obedecerem,  tentei demais, no posso mais... As  lgrimas  e  soluos abafavam a sua voz. 
      Quando vinham as abominveis  ondas  de  depresso,  Brian tinha  algumas  poucas  fontes  de  conforto  s  quais   se agarrava. Uma delas era o apoio da 
sua namorada e  da    sua prpria famlia. Havia tambm milhares de simpatizantes  que escreviam de lugares mui distantes, como Japo, Frana e Finlndia.  Diariamente, 
durante  uma  hora mais ou menos, os seus pais liam para ele a correspondncia.
      s vezes tinham de interromper. No Agentavam.
      As emoes  eram por  demais  abundantes.  A maioria da  correspondncia  constitua-se  de  palavras  de apoio e oraes. Um homem de setenta e nove anos 
escreveu: 
      - Meu corpo no  mais cem por cento, mas a  minha  medula espinhal est tima. De bom grado, eu a daria a voc.  Veio tambm apoio da comunidade atltica 
de todo o         mundo. Os russos cunharam uma medalha especial  para homenage-lo, fato sem precedentes. Os lderes de futebol da cidade de Kansas promoveram um 
jogo em benefcio dele.
      Depois de algumas  semanas,  veio  uma  notcia  que ainda o deprimiu  mais.  Os  mdicos  no  Podiam  ajud-lo.
      Informaram que, at quela data, nenhuma pessoa  na  sua  situao tinha voltado a andar. O que  o  tirou  do  fundo do abismo foi uma conversa telefnica 
que manteve  com  membros de uma conferncia da Associao  dos  Atletas  Cristos  em Ashland, no estado de Oregon. Por mais de  uma  hora,  Brian conversou com 
atletas,  treinadores  e  pessoal  ligado  ao esporte. Esses cristos expressaram a sua f na  recuperao de Brian, e Plantaram a sementinha da f no seu  Corao. 
O seu despertar para a vida crist deu-se trs meses depois do acidente. O seu meditar  amargo  tinha-lhe  ensinado  multas coisas. Compreendeu  que  somente  com 
o  auxlio  de  Deus poderia voltar a andar. No era o seu  prprio  esforo  que faria as suas pernas moverem-se. Se havia uma fibra  nervosa morta em sua medula 
dorsal ela teria de ser refeita,  o  que no era trabalho para a medicina. Sabia, tambm, que  a  sua f em Deus no Podia ser uma barganha.  "Se  tu  me  curares 
crerei em ti." Ele queria crer porque Deus era digno da sua f. Assumiu o risco e entregou a vida a Jesus Cristo.
      Brian comeou uma orao que ainda no terminou. Centenas, e milhares de vezes, ele tem pedido a Deus  a  mesma  coisa.
      Cada pequena parcela de sua vida lembra-o  de que  a  orao ainda  no  foi  respondida.  j  orou  com  amargura,   com splicas, com desespero, com muita 
nsia. Muitas pessoas tm orado  por  ele:  pequenos  grupos  de    atletas,  igrejas, estudantes universitrios. Sempre a mesma orao, e nunca  a resposta que 
Brian tanto deseja e acredita.
      Menos de um ano depois  do  acidente,  Brian  terminou  um artigo na revista Look com a seguinte afirmao: "Ter  f   uma atitude necessria para uma de 
duas coisas.  Ser  curado  uma delas. Se no vier a cura, paz de esprito  a  outra.
      Qualquer uma delas satisfaz."  Atualmente,  Brian  no  mais pensa assim. Para ele s h uma opo:  cura completa.
O Mundo de Brian
      Qual o alimento dessa f to firme que j  sobreviveu  uma dcada de sofrimento? Com o correr dos anos, muitos dos  que reivindicavam a cura de Brian j mudaram 
as   suas  oraes.
      Mas no os Sternberg. Sero eles teimosos ou  sobre-humanos?
      Pensava nisso, enquanto dirigia o meu carro a caminho do seu lar em Seattle. Tinham me  avisado: -  estranho.  Eles  no aceitam a condio fsica de Bran.
      No  fcil  marcar  um  encontro  com  Brian.  Telefonei, deixei uma mensagem gravada com o meu nmero de telefone,  e esperei que ele me chamasse. Brian 
nunca sabe  quando estar em condies de receber uma visita.
      - A dor -, diz ele, -  oscila  de  tremendamente  forte  a
      insuportvel.
      A casa dos Sternberg fica no alto de um penhasco escarpado acima da Universidade de Seattle. D vista para uma  ladeira ngreme onde os carros fatalmente derrapam 
com chuvas fortes ou tempestades de neve. A rua estava seca, e consegui  subir com xito.
      A  Sra.  Helena  Sterriberg,  me  de   Brian,    loira    e elegantemente  trajada,  recebeu-me    porta.  No  telhado, estava um amigo de Brian arranjando 
um sistema  rotativo de antena.  De  dentro  da  casa,  a  vista  de  Seattle    era espetacular,  atravs  de  janelas  amplas  e  envidraadas.
      Durante uns vinte minutos, enquanto um enfermeiro  preparava Brian, observei o trfego.
      O que mais  impressiona  o  visitante    o  fato  de  Brian depender totalmente de  outras  pessoas  para  poder  viver.
      Morreria se  fosse  deixado  sozinho  por  quarenta  e  oito horas.  Rapazes  da  Escola  Secundria  e  da  Universidade do-lhe banho, remdios, alimentam-no, 
seguram copos de gua para ele. Brian tem lutado  contra  essa  dependncia    aos outros, mas no h outro jeito. O seu  corpo  ser  sempre encontrado como foi 
deixado por algum.
      A cabea de Brian  de tamanho normal, mas o resto do  corpo encolheu devido  atrofia muscular.  Agora,  j  pode  fazer alguns movimentos com as mos. Pode 
empurrar   interruptores eltricos, virar maanetas embora com certa  dificuldade,  e at mesmo escrever a mquina com um dispositivo especial que prende os outros 
dedos e deixa  um livre.
      O quarto de Brian, no maior do que um quarto comum,  limita a sua vida. No h bicicleta, nem esquis, nem patins de gelo em sua garagem. Ele mostrou os  objetos 
ao    derredor.  Um cobertor Adidas sobre a cama, lembrana dos jogos  olmpicos de Tquio em 1964, jogos estes de que Brian no  participou.
      Numa parede, est uma carta  de John F. Kennedy, com a  data de 15 de agosto de  1963.  Foi  lida  no  jogo  de  futebol, ocasio em que os  times  jogaram 
em  benefcio  de  Brian.
      Kennedy escreveu:
      - Quero que saiba  que  temos  pensado  muito  em  voc  nas ltimas semanas. Desejamos as suas  melhoras.  Brian  chorou quando ouviu essas palavras.
      Mas,  mostrou-se  felicssimo  ao  explicar  o    complexo equipamento de radioamador  que  rodeava  a  sua  cama.   Com auxlio dos seus assistentes, ele 
desenvolveu alto interesse em radioamadorismo.
      Falou devagar e cuidadosamente sobre uma grande  variedade de assuntos. Gosta de falar sobre eletrnica. Gosta, tambm, de contar histrias sobre o seu papel 
como  representante da Associao  dos  Atletas  Cristos.  Tornou-se  um   popular conferencista da Associao.
      Os dirigentes da Associao dos Atletas Cristos haviam-me contado da atuao de Brian. Certa vez, na  sua  cadeira  de rodas, Brian falou durante uma hora 
perante   uma  audincia enorme de atletas, sendo que muitos deles chegaram a chorar.
      Acima de tudo, eles admiram a sua coragem.
O Milagre Que No Vem
      Brian  o primeiro a admitir o progresso  que  tem  feito.
      Mas, agora mais do que nunca, ele no aceita a sua situao.
      Ele s tem uma esperana e uma orao: cura  absoluta. Conta isso a todos que o visitam. Clinicamente,  necessita  de  um milagre. O tempo pouco fez por ele, 
e  as  suas  chances  de recuperao vm diminuindo dia  a dia.
      A parte pior  a dor.  como se o corpo de Brian estivesse em revolta. A dor vem de dentro e espalha-se  invisivelmente por todo o  corpo.  Parece  at  a 
mquina  da    dor,  que controlava diretamente o sistema nervoso  central,  descrita por  George  OrwelI,  no    seu    livro    "1984".    Vinda repentinamente, 
conseguiria derrubar um  homem,    fazendo-o uivar de dor. Para Brian,  uma horrvel rotina.
      Mais do que qualquer outra pessoa, os pais  de  Brian  tm compartilhado a sua dor e frustrao. Na  sala,  contaram-me da longa luta que todos vm  enfrentando 
diariamente. As luzes da cidade piscavam  medida  que  milhares  de  carros serpenteavam pelas ruas e pontes. Na lareira, via-se o  fogo chamejante. junto com o 
panorama, o cenrio era  repousante, ao mximo. A Sra. Sternberg  inclinou-se para falar sobre  o dilema do filho.
      Depois do primeiro choque que durou  aproximadamente  seis meses,  os  Sternberg  foram  inundados    por    autnticas expresses de esperana e apoio.  Muitos 
acreditavam    que Brian se recuperasse.  Tinha  de  ser  a  vontade  de  Deus, afirmavam, que um rapaz to jovem e talentoso viesse a andar novamente. Brian  j 
se  encontrou  com  alguns    cristos famosos, conhecidos pelos seus  poderes  de  cura,  mas  ele ainda sofre. Em certa  ocasio,  lderes  cristos  de  sete 
denominaes  diferentes  encontraram-se  no    seu  quarto, orando e ungindo-o com leo. Todos estavam comovidos,  todos criam no poder de Deus, mas nada aconteceu.
      Os  Sternberg  voltaram-se  para  a  Bblia  em  busca  de conforto e direo. Conversaram com pastores e  telogos  de todo o tipo; leram todos os livros 
existentes sobre  a razo de Deus  permitir  o  sofrimento.  Quanto  mais  liam,  mais ficavam convencidos de que Brian seria curado.
      - Descobrimos - disse a Sra. Sternberg -,  que  Deus ama.
      Mais do que isso. Deus    amor.  Muitos  nos  disseram  que devamos aceitar esta tragdia como parte  da  vontade    de Deus para ns. Mas o Jesus que vemos 
na  Bblia  veio  para trazer-nos a cura. Onde quer que houvesse dor, Jesus  tocava e a sade era restaurada. Ele jamais amaldioou  ou  afligiu ningum. Jesus foi 
a linguagem de Deus para o  homem.  Jesus viveu o que Deus de fato . Poderia Deus  ter  mudado  a  sua linguagem? Poderia a condio do  nosso filho contradizer 
o que Deus revelou como sendo ele mesmo?
      - As pessoas diziam-nos: Olhe para o benefcio que  adveio da tragdia; talvez Deus, na  sua  sabedoria,  soubesse  que Brian iria  afastar-se  dele;  assim, 
permitiu    que  este sofrimento acontecesse. Mas, o  Deus  que  achamos  no Novo Testamento  um Deus  que  respeita  o  homem,  a  ponto de dar-lhe liberdade, 
at mesmo para rebelar-se contra ele. Ns cremos que o Esprito Santo seja  cavalheiro. Ele  sugere  e insiste, mas jamais fora.
      Outros cristos que se defrontaram com sofrimento  extremo acharam conforto  em  aceit-lo  e  partir,  ento,  daquele ponto. Obviamente, Deus no se compraz 
em ver-nos    sofrer.
      Mas, de algum modo, ele o permite. Os Sternberg, entretanto, no se satisfazem com a aceitao.
      - Falando claramente -, continua a Sra. Sternberg, - acho que Deus tambm no est feliz com a condio  de  Brian.  A julgar pela Bblia,  Deus  deseja-nos 
uma  vida    plena  e abundante.  a integridade fsica e moral,   sade,  no  o corpo ao qual Brian est preso.
      - Vontade de Deus. Isso pode ser usado como  uma  resposta piedosa para toda e qualquer pergunta. Mas Deus  misterioso e profundo. jamais conseguiremos aprender 
tudo  sobre  ele.
      No podemos parar a nossa busca,  tornar-nos fatalistas,  e dizer que foi feita a vontade  de  Deus.  jamais soube  que Jesus tivesse dito a um  cego:  Desculpe, 
meu  amigo,  eu gostaria de  ajudar,  mas  Deus  est  tentando  ensinar-lhe alguma coisa; portanto, acostume-se com a  sua  cegueira.  - Quando Jesus viu o cego, 
curou-o.  E ele nos ensinou a pedir a Deus que a sua vontade fosse feita aqui e nos cus.
      Ela fez uma pausa. As palavras eram fortes, e  vieram  com uma experincia de dor, que poucas pessoas possuem. Apoiou o queixo nas mos.
      - No conseguimos saber todas  as  respostas  nesta  vida.
      Vivemos pela f. Brian, meu marido e eu  estamos  fortemente presos ao amor de Deus. Se  algo,  como  o  acidente,    no combina com o seu amor, no achamos 
que venha dele.
      - No sei por que Brian ainda no  anda.  Creio  que  Deus seja Todo-poderoso, mas tambm creio que  limitado  por  si mesmo. Satans tem poder. Acho que 
 do interesse de Satans que ns sejamos incapacitados. Alguma coisa  nos  impede  de ter aquela inteireza ideal.  Satans explora nossa fraqueza, como um boxeador 
esmurrando um maxilar machucado ou um  olho ensangentado. Ele no desiste.
      Enquanto ela falava da batalha travada entre  o  Bem  e o Mal, pensei nos ataques de Satans a Jesus enquanto aqui  na terra. A  matana  dos  menores  de 
dois  anos,  tentaes, traio e, finalmente, morte.  Depois  da  morte  de  Jesus, Satans deve ter-se sentido vitorioso. Mas Deus  transformou a aterradora e 
horrvel morte do seu prprio  Filho  em  sua mais completa vitria.
      De maneira muito mais  sutil,  e  em  menor  escala,  Deus tambm usou a tragdia de Brian,  trazendo-o  para  si,  bem como a centenas de outras pessoas. 
Ser que ele ainda  agir maravilhosamente  eliminando  a  tragdia  com   uma    cura espetacular, da mesma maneira que exterminou a morte com uma ressurreio? 
 neste alvo que esto todas    as esperanas dos Sternberg. A Sra. Sternberg continua:
      - Na condio de Brian, ningum  jamais  conseguiu  andar.
      Ningum. Mesmo assim, continuamos a acreditar. No  tenho  a mnima idia de quando Deus vai curar Bran.   bem possvel que esta batalha no seja vencida 
aqui  na  terra.  Algumas pessoas so curadas pela  orao.  Alguns  no  so  curados neste mundo. Mas, isso no modifica  o desejo de  Deus  para nossa integridade: 
corpo, mente e esprito.
      - No  desistiremos.  Somos  como  os  mdicos  que  fazem pesquisas  sobre  a  cura;  no  iremos  parar  as    nossas investigaes.  Achamos  que  Deus 
se   compraz    com    a perseverana.
Duas Imagens
      Desde 1963, os anos no tm sido s de desespero. A paralisia do trax tem cedido aos poucos, algumas vezes  at 1cm por ano. E mais um pequeno milagre: em 
todos esses anos de fadiga e tenso, nem o pai nem a me   de  Brian  ficaram doentes, um dia sequer.
      Os Sternberg descobriram algo que tambm lhes d fora.   o conceito da definio da doena. Ela  um mal. Todo o  mal que existe entre mim e Deus, entre 
mim e  outro ser  humano, ou simplesmente dentro de mim,  realmente um mal, e precisa ser curado, precisa ser restaurado!
      Durante dois anos e meio, eles pediram a Deus que mandasse um pastor  sua cidade, que fosse um instrumento de Deus  na ao  contra  contingncias  malficas. 
Finalmente     isso aconteceu! Numa igreja de Seattle, num domingo  por  ms,   noite, h um culto em que so atendidas pessoas  doentes  ou com outras necessidades. 
Aqueles que desejam  ir    frente, despendem alguns minutos em silncio com o pastor,  enquanto toda a congregao dirige a Deus as suas preces em favor  da pessoa 
necessitada. Os resultados  tm sido maravilhosos,  e a igreja  tem-se tornado notavelmente  unida.  Muitas  outras igrejas, em outros lugares, tm seguido essa 
prtica.
      Algumas pessoas acharam que os resultados dessa prtica j eram motivos para essas tragdias. Mas,  para  os  Sternberg isso no  justificativa. - Acreditamos 
num Deus amoroso.  - Dizem eles.
      Amor, como aquele demonstrado por  Jesus.  E  pretendemos contar isso ao mundo.
      Era tarde, e a nossa conversa terminou. Antes,  porm,  de partir, pedi que me  mostrassem  os  trofus  esportivos  de Brian. Fomos a um quarto atulhado  
de  trofus,    placas  e certificados. Um  deles  afirmava  Brian  ter  sido  o  mais notvel atleta do continente em 1963.
      Uma fotografia na parede chamou-me a  ateno. Mostrava-o quebrando  o  ltimo  recorde  mundial  em Compton, na Califrnia. Ele estava flutuando horizontalmente 
acima  da barra, com os braos para  frente,  cada  msculo  do  corpo encrespado e tenso. A ao foi congelada  por um instante e, de  um  certo  modo,  congelada 
para  sempre.  Meu  corao comoveu-se de dor e tristeza. Acabara de ver e de  conversar com a mesma pessoa, que era agora  apenas uma sombra daquele corpo magnfico. 
Era verdade que Brian crescera emocional  e espiritualmente.  Mas,  de  uma  certa  maneira,  ele  havia encolhido. A dor desgasta.  Consumiu mais de uma  dcada 
de sua vida. Ele j estava com trinta e cinco anos. 
      As duas imagens estavam vvidas na minha mente quando  sa para o vento frio de Seattle. O Brian da foto e o Brian real do momento, o corpo intil, dobrado, 
deitado  sobre  a  cama onde ele continuar amanh,  depois  e depois ...at quando?
      E  se  fosse  comigo?  Como  eu  me  sentiria?  Iria    eu racionalizar, ou aceitar, ou revoltar-me? E  se  eu  pudesse crer, iria a minha f sobreviver todos 
esses  anos?  Estavam os Sternberg certos ao apostarem tudo num milagre que ainda no veio  apesar  de  milhares  de  oraes?  Estariam  eles errados? Estariam 
ditando condies a Deus? Deveriam    eles aceitar  e  1ouvar  ao  Senhor  mesmo  assim"  como   alguns sugeriam?
      No sei. O que mais sobressaa era a qualidade da sua f, ardente e lutadora.
      Mas, no era pena o que  eu  sentia  por  Brian.  Era uma certeza muito grande de  que  ali  havia  fora.  Uma fora persistente,  ainda  que  os   objetivos 
jamais    fossem alcanados.
      Enquanto  o  carro  freado  descia  a  ladeira    ngreme, lembrei-me de uma analogia usada por Paul Tournier, na qual ele compara a vida  crist  a  um  espetculo 
de trapzio. 
      Pode-se balanar na barra, fazer exerccios e desenvolver os msculos,  o  quanto  se  queira.  Mas,  se  algum   quiser sobressair, precisa soltar a barra, 
e  alcanar  o  trapzio seguinte sem rede alguma por baixo.  Brian  iria  gostar  da analogia, pensei. Ele sabe o que significa soltar a barra. 
      H muito tempo os Sternberg soltaram as amarras e contaram ao mundo que eles acreditaro sempre em Deus, a despeito  do que possa acontecer ou no . . .  
para  Brian quase que uma vocao. Muitos  ao  seu  redor  no  compartilham,  mas  os Sternberg no perderam a f.  Parti,  emocionado  com  a  f obstinada daquela 
famlia.
    Quando acordo de manh, deitada de costas, esperando que algum venha at minha cama para me vestir,    que vejo  o quanto necessito dos outros. No posso nem 
mesmo  pentear  o cabelo, ou limpar o nariz sozinha.
    Joni Eareckson
      
Usando os Ps Para Danar
      Passaram-se alguns meses entre as  visitas  feitas  a  Brian Sternberg e a Joni  Eareckson.  Eu  j  ouvira  falar nela. 
      Conhecia parte da sua vida e antecipava, portanto,  o  mesmo ambiente encontrado na casa dos Sternberg, isto , uma  luta constrangedora  e  sem  fim  misturada 
com  f   firme e imorredoura. Que mais poder-se-ia esperar  de    uma  pessoa jovem com um corpo que no funcionava?  Mas  o  ambiente  na casa da Joni, que  por 
um  acaso  tambm  ficava  no  outro extremo dos Estados Unidos, era completamente  diferente.
      Vai-se at a casa de Joni Eareckson ladeando  um riacho  de Baltimore, que se transformou numa torrente quando o furaco Agnes devastou a regio h alguns 
anos.  O    ribeiro  est agora tranqilo e lindo.
      A estrada serpenteia por entre colinas altas e escarpadas.
      Uma floresta de madeira de lei ladeia a estrada at  o topo da colina mais alta, de onde se descortina   subitamente um panorama arrebatador. L no alto, fica 
a casa de Joni.  uma casa rstica feita  de  grandes  pedras  arredondadas  e de madeira talhada a mo, construda  caprichosamente  por seu pai. Bem  frente do 
chal, est uma grande cocheira, tambm de construo artesanal  de  pedra  e  madeira  de primeira qualidade.
      O estdio de Joni situa-se no alto da montanha, com  paredes de vidro que lhe do uma maravilhosa  viso panormica.  Um lindo garanho castanho costuma pastar 
no vale,    a  cauda sempre em movimento. Um co dinamarqus corre pelo gramado.
      Muitos artistas vivem escondidos em cenrios  rsticos como este. A vida de Joni  diferente da deles. Jamais ela  deixa o seu estdio, a no ser  que  algum 
a  empurre.    E ela desenha com uma caneta presa entre os dentes.  preciso que assim seja.  paraltica. Suas mos so flcidas e inteis.
      Quando adolescente, Joni ia muitas vezes  cabana. Costumava cavalgar  pelas  trilhas  da  floresta  a  uma velocidade incrvel, chapinhar no riacho com  o 
co dinamarqus,    e jogar bolas de basquete contra uma tabela ao lado do  chal. 
      Algumas vezes, chegou mesmo a  tomar  parte  em caadas  s raposas dentro da sua propriedade.
      Atualmente, porm, o exerccio dirio de  Joni  consiste em pequeninos movimentos. Ela consegue mexer  o  brao com  um movimento de bceps e  ombro  conjugados. 
Desta maneira, prendendo um garfo a um entalhe de metal do suporte que  lhe chega at a mo, ela pode alimentar-se sozinha.  E,  usando unhas bem compridas, ela 
consegue virar as  pginas  de  um livro. Passa a maior parte do tempo desenhando, com balanos e inclinaes da  cabea, enquanto  mantm  firmemente  uma caneta 
entre os dentes.
      Vagarosamente, o  seu  desenho  vai tomando forma.
      Quando a visitei, o acidente tinha ocorrido havia dez  anos, um engano de dois segundos que transformou completamente  a vida de Joni. Mas, o seu estado de 
esprito  sempre  animado no mudou. Seu rosto  resplandecente, seus olhos brilhantes e expressivos. O seu entusiasmo  to  efervescente  que  se pensa logo naqueles 
antigos  cursos, em que  se  ensinava  a pensar positivamente. O entusiasmo de Joni, porm, brotou da tragdia.
Mergulho Fatal
      O vero de 1967 foi muitssimo quente  e  mido.  O ms  de julho estava sufocante. Andei a cavalo de  manh,  e estava com tanto calor que s um mergulho 
na baa  era capaz  de refrescar-me. Minha irm Kath e eu fomos at a praia da Baa de Chesapeake e mergulhamos nas sombrias guas.
      Eu no me satisfazia em dar algumas braadas ou banhar-me em guas rasas. Queria nadar livremente com bastante gua.  Uma balsa a uns cinqenta metros era 
um alvo  perfeito e Kathy e eu nadamos rapidamente at l. ramos ambas esportivas e  um tanto imprudentes.
      Quando alcancei a balsa, subi nela e rapidamente mergulhei.
      Foi um movimento sbito, feito quase  sem  pensar. Senti  o choque da gua... e depois um baque atordoante... minha cabea bateu de encontro  a  uma  pedra 
-  no  fundo.
      Braos e pernas danaram. Senti um forte zumbido, semelhante a um choque eltrico acompanhado de intensa   vibrao.  No houve dor.
      No conseguia mexer-me.  Meu  rosto  estava  enterrado na areia spera, mas no podia levantar-me.  Meu  crebro dava ordens aos msculos para nadarem, mas 
no  havia reao.
      Prendi a respirao, orei e esperei, l no fundo.
      Depois  do  que  pareceu  ser  um  minuto,   ouvi Kathy chamando-me,  com  voz  fraca,  abafada,  que    vinha    da superfcie. Sua voz tornou-se mais clara 
e prxima, e  ento vi  a sua sombra justamente acima de mim.  Ouvi-a  dizer:  - Voc mergulhou aqui?  to raso.
      Kathy achou-me, tentou levantar-me, e cambaleou. " Deus, quanto tempo ainda", pensei. Tudo tornou-se escuro. Quando estava a ponto de desmaiar, a minha cabea 
chegou   superfcie e eu me engasguei com uma grande golfada  de ar.
      Tentei segurar-me a Kathy mas meus msculos   no reagiram.
      Ela colocou-me sobre os ombros e comeou a andar em direo  praia. Foi com horror que vi  meus  braos  e pernas  sem movimento, pendentes do seu ombro. 
Tinha perdido  o  comando do meu corpo.
      Uma ambulncia levou Joni  apressadamente  da solido  da baa para o frentico movimento do  Hospital  da  Cidade  de Baltimore. Foi colocada numa pequena 
sala protegida    por cortinas.  Uma  enfermeira  anotou  os  seus antecedentes mdicos. Outra cortou fora a sua roupa de banho, novinha  em folha,  deixando-a  
exposta  e  sentindo-se  ainda      mais indefesa. Veio um mdico com um enorme alfinete de  metal  e comeou a perguntar:
      - Est sentindo? -   medida  que  lhe  cutucava  os  ps, barriga da perna, dedos e braos.
      Procurando concentrar-se ao mximo, Joni s reagiu quando ele testou-lhe os ombros.
      Depois de uma consulta rpida com outros mdicos, um deles - o Dr. Sherrill - cortou fora os graciosos  cabelos  loiros de Joni com tesoura eltrica e uma 
enfermeira  raspou-lhe  a cabea. Ento ela ouviu o zumbido  de  uma  broca  eltrica.
      Comeou a perder a conscincia. Lembrava-se  apenas de  que algum segurava a sua cabea, enquanto  o mdico fazia  dois buracos, um de cada lado do crnio.
O Espelho
      Ao  acordar,  encontrou-se  presa  a  uma  armao Stryker semelhante   armao  Foster  de  Sterriberg).  Seu rosto aparecia atravs de um buraco feito na 
lona    qual estava presa. De duas em duas horas, a enfermeira virava a armao. 
      Duas paisagens: a do assoalho e a do teto.
      Dois ganchos, que pareciam pinas  de  gelo,  inseridos nos buracos da sua cabea,  presos  a  um  dispositivo  de mola puxavam-lhe a cabea para longe do 
corpo.
      Apesar da falta de mobilidade e da atmosfera  depressiva da Unidade de Terapia Intensiva, Joni sobreviveu s primeiras semanas em bom estado de esprito. A 
dor era pouca,  e  os mdicos  tinham  esperana  de  que   alguns nervos    se recuperassem. Naqueles primeiros dias, o seu quarto  esteve apinhado de visitantes, 
flores e presentes.   As suas  duas irms espalhavam revistas no cho para que ela pudesse ler.
      Depois de quatro semanas, quando Joni  j  tinha passado  o perodo crtico, o Dr. Sherrill  executou  uma operao  de fuso  na  medula  espinhal.  A  princpio, 
Joni estava exultante,  absolutamente  convencida  de  que  a cirurgia resolveria os seus problemas e ela poderia andar novamente. 
      A cirurgia foi bem sucedida, mas naquele mesmo   dia  o Dr. Sherrill foi franco com ela.
      - Joni, - disse ele, - sinto muito, mas o dano   permanente.
      A cirurgia no  modificou  o  quadro  clnico.  Voc jamais poder andar. Os seus braos tero movimento limitado.
      Pela primeira vez, essa verdade penetrou-lhe o esprito. At ento, ela esperava alguns meses mais de tratamento, e cura completa  depois   de    um    perodo 
de   recuperao.
      Repentinamente, compreendeu que todo o seu  estilo  de vida iria mudar. No haveria mais carros esportivos, cavalgadas, nem jogos. Provavelmente, nem namorados. 
Nunca.
      - Fiquei arrasada; - recorda ela, - minha vida tinha  sido muito  movimentada.  Tinha  o  maior  nmero  de  atividades escolares possveis. De repente, encontrei-me 
sozinha,    um mero corpo imvel entre dois lenis. Passatempos e  tudo  o que possua no significavam nada para mim.  Jamais poderia cavalgar aqueles bonitos 
cavalos, ficar    em  p  nas suas espduas, como costumava fazer. No poderia nem alimentar-me sozinha. S poderia dormir e respirar - tudo o mais  outros fariam 
por mim.
      Amarrada  lona, com o rosto para baixo, Joni viu lgrimas quentes e salgadas rolarem-lhe pelo rosto e pingar no  cho.
      O nariz comeou a  escorrer  e  ela  teve  de    chamar uma enfermeira. At para chorar ela precisava de auxlio.
      Alguns dias  mais  tarde,  Joni  ainda  ficou  muito mais deprimida. Duas coleguinhas vieram visit-la  pela  primeira vez. Tinham ainda em mente a imagem 
de Joni como  ela havia sido: vivaz, desportista.  Por  esse  motivo,  elas estavam completamente despreparadas para ver Joni depois de  tantas semanas de hospital. 
Chegaram ao lado  de sua cama,  e  seus queixos caram. - Meu Deus! - sussurrou uma delas.
      Chocadas, permaneceram num silncio  embaraoso,  e  ento saram correndo. Joni ainda ouviu  uma  garota vomitando  e outra soluando do lado de fora. Comeou, 
ento,  a imaginar o que teria acontecido  de  to  horrvel  para  causar  tal reao.
      Dentro de alguns dias, descobriu. Joni pediu um espelho  a uma visitante, Jackie, que lhe deu  uma  desculpa qualquer. 
      Joni insistiu. Nervosamente, Jackie  trouxe-lhe    um. Joni olhou-se ao espelho e exclamou: - Meu Deus, como podes fazer isso comigo?!
      Ela viu no espelho uma pessoa  com  olhos  injetados, com olheiras muito fundas. A pele era de um amarelo embaado; os dentes enegrecidos pelos remdios. Sua 
cabea ainda raspada tinha  grampos  de  metal  de  cada  lado.  Seu  peso  tinha diminudo de 57 para 36 quilos. Joni soluou gemendo:
      Jackie, preciso que me ajude. Faa uma coisa por  mim.
      No agento mais. - O que , Joni? Fao o que voc quiser.
      - Ajude-me a morrer, Jackie.  Traga-me  umas  plulas, ou mesmo uma lmina  de  gilete.  No  posso  viver  num corpo grotesco como este. Ajude-me a morrer, 
Jackie.
      A garota no  pde  fazer  tal  coisa,  apesar  da  triste condio de Joni.  Assim,  Joni  chegou  a  outra  concluso cruel: ela  era  incapaz  at  de  
morrer  por  sua  prpria vontade.
Plenitude
      Depois daquele  terrvel  dia  no  hospital,  milhares  de pessoas j se encontraram com Joni. Ela  uma conferencista popular  em  banquetes,  acampamentos, 
grupos  jovens,    e grandes convenes. Aparece em programas de televiso  e em revistas. A sua arte enfeita cartes, cartazes, e  papel  de carta em lojas por 
todos os Estados Unidos.  Quase todos  os que  se  encontram  com  ela,  ficam  mais  felizes  e  mais esperanosos. No  mais aquela garota murcha  e  em estado 
deplorvel refletida pelo espelho naquele  dia.
      Faz parte da pesada carga dos aleijados o fato de  que os mais simples atos da vida, como  cuidar  da  casa,  comer  e vestir, requeiram tremendo esforo. 
Joni conseguiu    vencer essas contingncias e sustenta-se agora com a venda dos  seus trabalhos de arte e com a sua prpria livraria. Como foi  que ela conseguiu 
isso?  -  Certa  vez,  durante  aqueles  dias depressivos no hospital, quando  a  vida  consistia  em  ser virada de cima para  baixo,  e  de  baixo  para  cima, 
para aliviar as escaras,   um  visitante  tentou  animar-me.  Ele recitou um versculo bblico, uma promessa que Jesus   deixou para seus seguidores: "Eu vim  para 
dar  vida,  e  vida   em abundncia.  "
      - Eu estava to amargurada e to descrente, que o simples pensamento  de  tal  coisa  era  uma  zombaria.  Vida em abundncia? Por mais que me esforasse, 
o mximo que podia prever era uma vida  pela  metade,  ou  uma  forma  de vida inferior, deplorvel. Sem esporte, sem amor, sem casamento... Nada.
      - Nos ltimos anos, a  minha  perspectiva  transformou-se.
      Acordo diariamente dando graas a Deus pelo que  me d.  De algum modo, e s depois de trs anos, compreendi isso. Deus mostrou-me que eu, tambm, posso ter 
vida abundante.
      A primeira lio de Joni foi  a  primeira  lio  de  toda pessoa  com  defeito  fsico:  aceitar  seu  estado  e  suas limitaes.  Fechar  os  olhos  e  
lamentar  sua    horrvel condio fsica no levava a nada. O fato de assim o desejar no mudava a fisionomia que ela tinha visto no espelho. Teve de aceitar a 
si prpria  como  quadriplgica    e  descobrir novas maneiras de lutar e vencer.
      O processo foi doloroso. Quando o namorado de  Joni punha os braos ao seu redor para apert-la,  ela  no  o sentia.
      Estava continuamente tentada a fantasiar. Passava horas com os olhos fechados, imaginando  como  seria  se  ela ficasse curada. Teria um noivo, dirigiria um 
carro  esporte,  faria longas caminhadas pelo bosque, tomaria  parte nos  jogos  da faculdade... As possibilidades eram  infinitas.  Mas  no tinham valor algum, 
pois Joni logo aprendeu que esse  tipo de fantasia no lhe suavizava  a vida. Apenas  retardava-lhe  a auto-aceitao.
      Joni tambm descobriu que  as  pessoas  "normais"  ficavam embaraadas perto de pessoas aleijadas. Ao falarem com  ela, algumas procuravam pronunciar as palavras 
claramente   e  em tom alto, usando palavras muito simples, como se ela tivesse uma deficincia mental. Na  calada,  ao  ser  empurrada  na cadeira de rodas, os 
pedestres afastavam-se  a  um  metro  e meio de distncia, indo para o meio-fio a  fim  de  deix-la passar, apesar da calada  ser  suficientemente  larga  para 
ambos. Ela compreendeu porque alguns  aleijados  no  tinham vontade de sair do  hospital  para  enfrentar  o  mundo.  L dentro, eles eram as pessoas normais. Todos 
tinham suportes, ou  talas,  ou  trao,  ou ataduras  de  gaze.   E    os profissionais eram pessoas treinadas  para  cuidar  deles  e compreend-los.
      Amigos  ajudaram-na.  Uma  das  suas  mais    emocionantes memrias daquele tempo,  um fato acontecido um  ano  depois da tragdia. Num momento de loucura, 
um amigo  empurrou    a sua cadeira de rodas  sobre  a  areia  da  praia,  correndo, levando-a para dentro da forte arrebentao das ondas.  Joni deu gritos de alegria. 
Ela  jamais  poderia  banhar-se    na arrebentao, nas  ondas  retumbantes,  mas  pde  ao  menos sentir a mar marulhante e o respingar salgado  de  encontro s 
suas  faces.  Ela  ficava  feliz,  quando  as    pessoas tratavam-na despreocupadamente, ao  invs  de  serem  sempre cuidadosas e delicadas.
      Mas, at mesmo a habilidade de sentar-se em uma cadeira de rodas foi precedida por meses de terapia angustiante. Depois de ficar deitada horizontalmente durante 
meses,  Joni  foi sendo gradualmente  levantada    posio  vertical,  embora sentada. A primeira vez que uma  enfermeira  levantou-a  num ngulo de 45, ela quase 
sofreu  um colapso  por  causa  das nuseas  e  da  tonteira,  enquanto  seu  corao    tentava ajustar-se s novas demandas.
      Escaras horrveis  tinham  aparecido.  No  fim  da  medula espinhal  e  nos  quadris  projetavam-se  ossos  em   pontas salientes. Para aliviar as presses, 
os mdicos  operaram-na (com Joni perfeitamente consciente, pois ela  no  precisava de anestesia por no sentir dor) limando as  protuberncias. 
      Mais semanas deitadas na cama, e depois  a    repetio  dos extenuantes exerccios para poder  sentar-se  novamente.  As vezes a pele arrebentava ao redor 
dos ossos, e ela  precisou submeter-se  cirurgia diversas  vezes.
      Nesses  tempos  dificeis,  Joni  muito  dependeu  do   apoio emocional dos amigos. Um grupo de estudantes cristos esteve em  contato  constante  com  ela. 
Certa   vez,    eles a surpreenderam agradavelmente,  introduzindo  sorrateiramente um cozinho em seu quarto de hospital.  Ela  riu  satisfeita quando o pequeno 
animal lambeu-lhe o rosto.
Uma Demora de Quarenta Anos
      A princpio foi-lhe dificil reconciliar a f com o  conceito de  um  Deus  amoroso.  Parecia-lhe  que  todas  as  ddivas recebidas  de  Deus,  todas  as  
boas   coisas    que    lhe proporcionaram  uma  adolescncia  ativa,  tinham-lhe   sido roubadas. O que lhe restava?
      O retorno para os braos de Deus foi lento.  A substituio da amargura por confiana no  Senhor arrastou-se  por  trs anos de lgrimas e indagaes violentas.
      Houve uma noite em que Joni convenceu-se  de  que Deus  no compreendia. A dor atingia-lhe as costas de tal maneira  que s os paralticos sabem o tormento 
que .  Geralmente,    as pessoas podem coar-se,  movimentar  um  msculo  dodo,  ou dobrar um p com cimbra. O paraltico   obrigado  a  ficar quieto, indefeso, 
e sentir a dor.
      Cindy, uma das melhores amigas de Joni, estava  ao lado  da cama, tentando desesperadamente encoraj-la. Finalmente, num impulso, ela falou sem pensar:
      - Joni, Jesus sabe como voc se sente. Voc no   a nica.
      Ele tambm esteve paralisado. Joni dardejou-lhe um olhar.  - O qu? Sobre o que est falando? Cindy continuou:
      - E verdade. Lembre-se que ele foi pregado numa  cruz.  As suas costas estavam esfoladas com os aoites que recebera, e ele deve ter desejado um jeito de  
mudar  de    posio,  ou distribuir  melhor  o  peso.  Mas  ele  no  podia.   Estava paralisado pelos pregos.
      Joni comeou a pensar. Jamais lhe havia ocorrido que  Deus tivesse  sentido  as  mesmas  agudas  sensaes   que    lhe torturavam  o  corpo.  A   idia   
foi-lhe    profundamente
      confortadora.
      Senti  Deus  incrivelmente  perto  de  mim.    J    tinha compreendido o quanto me era  importante  o  amor  dos   meus amigos  e  da  minha  famlia.  Naquele 
momento  passei   a compreender  que Deus tambm me amava.
      Poucos de ns podemos dar-nos ao luxo de chegar    estaca zero com Deus. Custei muito a chegar a tal ponto.  Antes  do acidente,  minhas  perguntas  tinham 
sido:  "Como     posso encaixar Deus nesta situao? Qual a influncia dele sobre a minha vida amorosa? Sobre os meus planos futuros?  Sobre  as coisas de que gosto?" 
No  havia  mais    opes  depois  do acidente. Era s eu, um corpo intil, e Deus.
      No podia identificar-me com pessoa alguma, a no ser  com Deus.  Aos  poucos,  ele  se  tornou  suficiente  para  mim.
      Senti-me esmagada com o fenmeno de um Deus  pessoal,    que criou o universo, viver em mim. e, em  minha  vida.  S  ele poderia tornar-me atraente e de  
algum  valor.  No  poderia viver sem ele.
      Durante os primeiros meses, at durante os primeiros anos, fiquei absorta com as perguntas no respondidas sobre o  que estava Deus tentando ensinar-me. No 
mago   do  corao,  eu provavelmente esperava que, ao entender as idias  de  Deus, aprenderia uma lio e ele me curaria.
      Calculo que todos os cristos com experincias semelhantes  minha voltam-se para o livro de J afim  de  conseguir  as respostas desejadas. J foi um homem 
de  corao  reto  que sofreu muito mais  do  que  se  possa  imaginar.  Estranhei, porm, ao notar que o livro de J no responde s  perguntas do por qu Deus 
permite que as tragdias aconteam.  Sabe-se apenas que J se apegou a Deus, e ele o recompensou. 
      Perguntei a mim mesma se era isso que Deus  queria  de  mim.
      Deixei de  exigir  uma  explicao  de  Deus  para  depender humildemente dele.
      Bem, estou paraltica.  horrvel.  Detesto  esta situao.
      Mas poder  Deus  ainda  usar-me,  mesmo  paraltica?  Mesmo paraltica, poderei ainda adorar a Deus e am-lo?  Ento ele me ensinou que eu podia.
      Pode ser que a ddiva de Deus para mim tenha  sido  a minha completa sujeio a ele. Jamais serei auto-suficiente, e  se chegasse a s-lo Deus seria expulso 
da minha    vida.  Estou consciente da sua graa para comigo a cada  momento.  Quando acordo de manh, deitada de  costas,  esperando  que  algum venha at minha 
cama para vestir-me,   que  vejo  o  quanto necessito dos outros. No posso nem mesmo pentear o  cabelo, ou limpar o nariz sozinha!
      Tenho, porm, amigos que cuidam de mim. Tenho  a  beleza  do panorama. Com o produto  da  minha  arte,  posso  at  mesmo sustentar-me  financeiramente,  o 
sonho  de  toda    pessoa aleijada.
      A paz que realmente vale  a  paz  interna,  e  essa ddiva tenho recebido de Deus que a tem dado com abundncia.
      Ainda h mais. Tenho esperana no futuro. A Bblia  diz que nossos corpos sero "glorificados" no cu. Quando eu  estava no ginsio esse conceito me era vago 
e estranho.  Agora sei, agora compreendo que serei  perfeitamente  curada.  No  fui passada para trs. Tenho  apenas  de  esperar  uns  quarenta anos, e at l 
Deus estar sempre comigo.
      Ser "glorificada". Agora sei o que  isso  quer  dizer.    a ocasio, depois da minha morte, em  que  estarei  usando  os meus ps para danar."
A Nova Cocheira
      Depois de dois anos de reabilitao, Joni conseguiu manobrar uma cadeira de rodas motorizada,  suficientemente  bem  para at apostar corrida nos largos corredores 
do hospital.  Ela matriculou-se num curso  universitrio  de  "Como  falar  em pblico" e, mais tarde, tornou-se  uma  conferencista  muito procurada.
      Joni cativa a audincia. Est sempre impecavelmente vestida, com o  cabelo  lindamente  penteado.  Quando  se  dirige  ao pblico, conta as particularidades 
do  acidente    e  a  sua longa recuperao. Suas palavras fluem clara e naturalmente.
      O que a audincia mais aprecia  o  seu  amor  e entusiasmo pela vida. Seus membros continuam imveis, mas os olhos e  o rosto brilham. Ela descreve o chal 
e o lindo  cenrio visto do seu estdio.
      - Apesar de no poder chapinhar no regato, nem  cavalgar  os cavalos, - diz ela, - posso sentar-me do  lado  de  fora,  e todo o meu ser  inundado com  perfumes, 
com  texturas    e panoramas maravilhosos.
      Ela reproduz estas cenas, algumas vezes perante a audincia, com o processo incrvel da pintura com a boca.
      Nas  palestras,  Joni  refere-se  continuamente      slida cocheira que fica perto do seu estdio.  o lugar  preferido de Joni, em toda a fazenda.   ali 
que  esto  as  memrias mais caras: o cheiro doce do feno, o barulho dos cascos  dos animais fogosos, e os cantos escuros  em  que  ela  brincava quando criana.
      Joni descreve o encantamento, a beleza, e o orgulho  do  pai de ter feito ele mesmo a cocheira. Mas, depois, ela descreve uma lembrana horrvel: o fogo  ateado 
por    vndalos  que praticamente destruiu  a  cocheira.  A  cena  terrvel  est indelevelmente gravada em sua mente: os gritos selvagens dos seus queridos cavalos, 
o  cheiro    de  carne  queimada,  os esforos desvairados da sua famlia e dos vizinhos a fim  de conter o fogo.
      A histria, entretanto, no acaba assim. O  pai,  curvo  e deformado  pela  artrite,  comeou  a  rdua    tarefa    de reconstruir a cocheira. Os alicerces 
eram os mesmos,   e  em cima deles ele colocou novas pedras grandes e  arredondadas, novas  vigas  e  novas  tbuas.  A  segunda   cocheira,    a reconstruda,  
to magnfica quanto a primeira.
      - Sou como aquela cocheira, - diz Joni.  -  Pensei  que  a minha vida tivesse sido esmagada. Mas, com o auxlio de  Deus e dos meus  amigos,  ela  foi  reconstruda. 
Podem agora entender por que sou to feliz? Recuperei aquilo que pensava ter perdido para sempre: a vida em toda a sua plenitude.
Dois Seres Que Sofrem
      Joni Eareckson e  Brian  Sternberg  representam  todas  as pessoas infortunadas para quem a  dor  e  o  sofrimento  so companheiros   dirios.    Membros 
paralisados,    corpos arruinados pelo cncer, dores  de  cabea  latejantes,  tudo isso   aflio,  e  as  suas  vtimas  indubitavelmente  se afastaro de um 
conceito tal como "a ddiva da dor".    Para elas, a frase deve soar vazia e sdica; a dor deixa  de  ser algo de natural para transformar-se em um monstro.
      Entretanto, o que muito me  impressionou  foi  o  fato  de Brian e Joni terem achado uma maneira singular de continuar, e a confiana que tm em Deus  parte 
integral  do  processo de sobrevivncia.
      Brian defronta-se honestamente  com  a  causa.  Ser  Deus responsvel? Ele e os seus pais esto convencidos de  que  a situao  to abominvel para Deus 
quanto para    eles.  As suas concluses so contrrias a algumas idias deste livro, porque Brian no as admite para o seu  terrvel  infortnio.
      Apesar de reconhecer que Deus providencialmente  usou o  seu sofrimento para o bem, ele no aceita o conceito de que Deus pode permitir tal condio at o 
fim da sua vida. Ele aposta na sua f, quase na sua teologia,  na esperana de sua cura.
      Mas, at mesmo esse ponto de vista, que se  torna  cada vez mais intolervel para os amigos dos Sternberg, chega  a ser um retorno absoluto para Deus. Brian 
aprendeu  a confiar e a crer num Deus de amor e de grande  valia,  apesar  dos  seus tormentos, pelos quais poucos ho de passar.  claro que  no cu Brian andar 
com todo vigor,  ao lado de J,  Habacuque, ou Corrie ten Boom, que viram o mundo naquilo que ele tem de pior e assim mesmo creram.
      Brian apresenta uma qualidade que  pode  ser aprendida  por todos que sofrem. Sustenta o a f ardente e combativa.  Para ele, a f num milagre. Para outros, 
seria  talvez    f  na reabilitao ou na habilidade de Deus em us-los  apesar  da tragdia das suas vidas.
      A dor de Joni Eareckson, exceto  por  breves  momentos, tem sido psicolgica.  Entretanto,  os  que  a  ouvem  sentem-se envergonhados do seu prprio sentimento 
de amargura.  A sua vida  marcada com a tnica do triunfo e da alegria. Depois de uma longa controvrsia com Deus, ela voltou-se para  ele. 
      Deus deu-lhe, ento, uma profundidade  que  chega  a  abalar cristos maduros.
      Graas a Deus, poucos de ns precisaro enfrentar  as duras experincias de  Joni  ou  Brian.  Eles  fornecem  um corpo incrivelmente experimental ao esqueleto 
da  f.  As suas vidas enquadram-se perfeitamente bem  na  "ddiva  da dor", pois apesar do sofrimento cruel no foram esmagados por ele. 
      Quanto mais profundo o abismo, maior   o amor de Deus. A f que eles tm faz com que a minha  dor  seja  mais fcil  de suportar.
      Penso na afirmao profunda e triunfante de  Jesus  em Joo 16:33: "No mundo passais por aflies; mas tende bom nimo, eu venci o mundo". Essa declarao 
foi por  ele pronunciada com toda a serenidade. Posso imaginar.
      Aquilo que no me destri torna-me mais forte.
      John Perkins
Outros Testemunhos
      Graas ao meu oficio de escritor, tenho entrado  em  contato com diversos lderes  cristos,  os  "astros"  que  promovem conferncias e cujas fotografias 
aparecem freqentemente  em revistas religiosas. Muitos so atletas ou artistas  que  se sobressaem pelo fato de serem  cristos.  Alguns  deles  so desconhecidos 
do pblico, mas so pessoas  que  possuem  uma boa dose de sabedoria crist. De todos esses, um h  que  me impressionou vivamente e de quem trago  gratas  recordaes. 
      Tenho na minha memria um lugar  especial  para  ele.    do interior do estado do Mississipi e mora perto da  cidade de Mendenhall.  uma personalidade incrvel. 
Quando deixei a casa do  Sr.  Buckley,    parecia-me  que  tinha  estado  na presena de um santo.
      Certa  vez  um  grupo  de    estudantes    universitrios, fascinados pelas  histrias  contadas  pelo  Sr.  Buckley  a respeito do Sul dos  Estados  Unidos, 
em  tempos  j  idos, vieram entrevist-lo com  um  gravador  cassete.  Ele  falou durante trs horas e meia. Quando parou para tomar  um   copo d'gua, bebeu-a 
de um trago s, e anunciou:
      - Bem, estamos agora em 1901. - O Sr.  Buckley  tem quase noventa anos.
      A casa dele  o mais lindo lar de negros que j visitei no Condado de Simpson, em Mississipi. Do lado de fora,    toda de tijolos. Do lado de dentro,  toda 
forrada  de lambris de madeira. Tem quatro ou cinco grandes aposentos.  Na maioria das vezes, entretanto, o Sr. Buckley costuma passar  os  dias numa cadeira de 
balano de madeira  ao lado do fogo, l  na cozinha, bem do jeito que ele costumava ficar junto ao fogo de lenha no barraco  de  um  s  cmodo,  em  que  vivia 
no interior do Mississipi.  Foi l na cozinha que o  encontrei, balanando, relembrando os tempos antigos, coando a cabea, cabelos brancos cortados  escovinha, 
divertindo-se  com  as lembranas   daqueles  tempos.  A  sua  pele  era  grossa  e coricea, resultado de dcadas ao sol de Mississipi.
      Moscas zumbiam pelo aposento.  A  Sra.  Buckley cozinhava ervilhas, e de  vez  em  quando  o  Sr.  Buckley limpava  a garganta e cuspia no fogo. Tinha boa 
pontaria.
      Ele nasceu vinte e  cinco  anos  depois  da  abolio  dos escravos, e conseguiu sobreviver  revolta e  amargura  dos norte-americanos do sul dos Estados 
Unidos depois  da  Guerra Civil e da  respectiva  Reconstruo.  Viveu  naqueles dias tormentosos em que a Ku Klux Kan  comeava  a organizar-se. 
      Ouviu as suas ameaas, presenciou  a  queima    das cruzes, ouviu rumores sobre linchamentos e incndios. E nos anos 60, depois  de  ser  banido  durante  
vinte  e  cinco  anos dos restaurantes dos brancos, dos hotis   dos  brancos,  e das cabines de votao dos brancos, o  Sr.  Buckley  uniu-se ao movimento dos  
Direitos  Civis.  Achando  que  Deus poderia us-lo, comeou a trabalhar com   o  Rev.  John Perkins  no registro de eleitores.
Liderando o Movimento 
      Naquele tempo, nenhum branco do Condado de  Simpson  seria capaz de alugar um prdio para os funcionrios federais  que viessem registrar os negros para fins 
de eleio.  Os negros no possuam edifcios que pudessem ser usados para tal fim, e os brancos jamais  permitiam  que  os  deles  lhes  fossem cedidos. Finalmente, 
um funcionrio  resolveu  registrar  os eleitores em um  terreno  atrs  do  posto  de  descarga  do correio. Era um terreno cercado de arame. Era um condado com 
mais de 5.000  negros,  e    somente  50  foram  registrados naqueles dias.
      Buckley ajudou a fretar nibus e camionetas para trazer os negros ao correio. Cada novo eleitor sabia dos riscos a  que se expunha. Alguns negros que se tinham 
inscrito  na  lista de eleitores haviam perdido  os  empregos.  Por  vezes,  uma multido hostil de  brancos  aparecia  gritando  insultos  e ameaas. Todavia, aos 
poucos,  os    negros  vieram.  Negros fortes, acostumados a carregar nas costas pesados fardos  de algodo, formaram uma fila de homens decididos, no centro  de 
Mendenhall, dispostos  a exigir a aceitao dos seus votos.
      Finalmente, cerca de 2.300 foram registrados.
      Ao longo desses anos, na condio de lder  da comunidade negra das cercanias de Mendenhall, Buckley andou sempre  com Deus, e as afrontas e golpes  recebidos 
fizeram    dele  um homem mais profundo e mais forte. A sua resistncia face  ao sistema, que tinha intimidado at mesmo pessoas  influentes, fez-me pensar nas palavras 
de Jesus,    "Bem-aventurados  os pobres".  No  me  parecia  que  a  maioria  dos  pobres  do Mississipi fossem muito bem-aventurados.  Buckley,  todavia, demonstrou 
quanto  os  pobres  e    oprimidos  podem    ser bem-aventurados. A sua f em Deus era  tudo  o  que  possua quando os dias eram tenebrosos e as noites longas e 
insones, plenas de medo. Ele se  agarrava  sua f; com ela  convivia como se fosse um velho amigo. Tinha chegado o momento em que Deus viera fazer  com  ele  habitao 
com  familiaridade  e desembarao.
      A f do Sr. Buckley foi duramente  testada  em dezembro de 1969, quando o ministrio local pelo rdio, a cargo do Rev. John Perkins, foi praticamente fechado 
devido  a um srio  e violento conflito racial. No fim  daquele  ms,  os  Buckley dormiam na sua casa nova, ainda cheirando a tinta, quando o Sr. Buckley acordou 
repentinamente  s  2  horas  da manh.
      Sentiu cheiro de fumaa e pulou  da  cama  bem  na hora:  a entrada da casa estava em chamas,  que  se  arrastavam  pelo rodap em direo ao seu quarto.  
Por sorte, ele e a  esposa conseguiram escapar. Perderam, porm, tudo que  possuam.  O fogo tinha sido ateado por vizinhos.
      Ele diz:
      - Acho que sofremos muito mesmo. Perdi dois  dos meus trs filhos, perdi a primeira esposa, e quase morremos queimados naquela noite. Mas o Senhor diz que 
no nos prova  mais  do que podemos suportar. Se nos parece demais, ele ali est bem ao nosso lado, dando-nos a fora que no sabamos possuir.
      Atualmente,  seu  sonho    criar  uma  pequena  igreja em Mendenhall, um exemplo da Igreja do Novo Testamento, onde as pessoas que oram, esperem resposta, 
e onde as pessoas  sejam conhecidas pelo amor que  tm  umas  s outras.  Ele  falou longamente sobre o seu desejo de ver a congregao crescer. 
No Destrudo
      - Aquilo que no me destri torna-me mais forte,  disse-me John Perkins quando descrevia as lutas enfrentadas por ele e por Buckley, no Mississipi. O rosto 
enrugado  e pacfico do Sr. Buckley parecia provar essa afirmao. Como um velho e forte carvalho, j experimentado por tormentas e nevascas, o Sr. Buckley deixa 
transparecer  aquela virtude  de  fora  e resistncia  que  a  maioria  dos  norte-americanos   jamais experimentar. H algo de incomparvel  no  fato  de  algum 
apoiar-se em Deus nos tempos  de provao.
      Depois de ter passado algumas horas com Buckley,  consegui compreender as palavras estranhas e paradoxais de  Jesus  ao proferir as Bem-aventuranas.  Antes, 
parecia-me    que  as palavras de Jesus,  "Bem-aventurados  os  pobres"  eram  uma espcie de consolo lanado aos menos  afortunados,  como  se fosse uma leve batida 
nas costas. Mas, ao  encontrar-me  com certos  negros  pobres  do  Mississipi,  tive  de  mudar  de opinio. O Sr. Buckley era altamente abenoado com um tipo e 
qualidade de vida jamais encontrada  em outras pessoas,  nem mesmo nos "astros" cristos, aos quais j me referi.  A  sua f  slida, amadurecida e muito experimentada. 
      O apstolo Paulo usa uma  frase  estranha,  "A  sua  fora aperfeioa-se na fraqueza". Ela  mal entendida e talvez  at mesmo ridicularizada por aqueles que 
praguejam  contra  Deus por permitir dor e sofrimento no mundo. Esperamos sempre que os pobres e sofredores sejam rebeldes. Mas em exemplos  como os de Paulo e do 
Sr. Buckley,  aquelas palavras vibram  alto e bom som; tornam-se verdadeiras. De certa  maneira, a dor fortalece as pessoas e acrescenta algo mais. Isso foi dito 
at de Jesus, "embora  sendo Filho,  aprendeu a obedincia pelas coisas que sofreu" (Hebreus 5:8). No  por acaso que a maioria das histrias mais inspiradoras 
sobre  a  f  tem como  protagonistas  pessoas  que o mundo considera "derrotadas". Hesitantemente, C. S.    Lewis  conclui: "No estou convencido de que o sofrimento 
. . . tenha a tendncia natural de produzir tais males (revolta e cinismo). No acho que as trincheiras  da linha de frente do  sofrimento  sejam mais cheias de 
dio, egosmo, rebelio, e desonestidade  que em qualquer outro lugar. Tenho visto coisas maravilhosas  em alguns  grandes sofredores. Na maioria das vezes, os  
homens tornam-se melhores e no piores com o  correr  dos  anos,  e tenho testemunhado que a doena final, aquela que  leva  morte, transforma situaes nada promissoras 
em tesouros de energia e mansido. Se  o  mundo    realmente  um  vale  de lgrimas, estas lgrimas esto sendo bem proveitosas. "'
A Herana de Leo
      Para algum que no sentiu na carne o ferro  do  profundo sofrer, torna-se difcil e at pretensioso escrever sobre os benefcios advindos do sofrimento. 
Provavelmente a nica maneira de apresentar este argumento  atravs de repetidas ilustraes da experincia humana. Os  milhares de pessoas que assistiram ao filme 
Leo  Beuerman    viram  nele outro exemplo de como a beleza  de  Deus  pode  ser  burilada por intermdio da fraqueza humana.
      Leo Beuerman era um singular aleijo  gentico humano.  O seu corpo era todo  mirrado,  torto  e  raqutico,  alm  de desproporcional. Ele  apresentado no 
filme  como    pessoa adulta, j com sessenta anos de idade, mas a sua altura  de menos de 60cm. Em toda a vida, onde quer que ele aparecesse, as pessoas desviavam 
rapidamente  o rosto.  Entretanto,  ele no passou os dias em cima de uma cama, nem em sanatrio  de invlidos. Morou em Iowa com a me, numa fazenda,  exercendo 
o respeitvel ofcio  de relojoeiro, embora  fosse  esse  um trabalho torturante para ele. Depois que a me,  sua  grande protetora, morreu, Leo aventurou-se mais 
no mundo  exterior.
      Fez uma  pequena carreta vermelha. Diariamente, ele procedia a um ritual, doloroso e demorado, de iar  a  carreta  a  um trator especialmente planejado. As 
mos no  eram  jeitosas, no lhe obedeciam muito na  direo  que  ele  queria.  Para apertar um parafuso, ele tinha de tentar muitas vezes.
      Ele preferia ignorar o sofrimento que isso lhe  causava.  E, de qualquer maneira, precisava encher o  seu  tempo.  Assim, Leo, dia aps dia, ia  cidade, de 
trator. L,  acionava  um sistema de roldanas e descia no local escolhido.
      S ento, estava Leo  pronto  para  o  trabalho.  Dentro  da carreta, esperava pacientemente pelos fregueses, com  a  sua mercadoria - relgios, lpis e canetas 
-  disposta      sua frente. A freguesia era, na maioria, composta de crianas  e daqueles que no se incomodavam com sua  figura  grotesca  e deformada.
      " garantido" dizia um cartaz escrito a mo  e  colocado  na carreta. Era a sua filosofia. Jamais Leo pediu esmola, nunca aceitou mais do que o preo justo 
por  suas    mercadorias.
      Independente e livre, ele atingiu o seu objetivo.  Nunca  se sentiu revoltado ou com pena de si mesmo. Embora aprisionado a  tal  corpo,  ele  conseguiu  superar 
suas    prprias dificuldades. Coisas normais a  todo  mundo,  como  dirigir, falar, ler, escrever a mquina,  foram  para  Leo  objetivos maravilhosos conseguidos 
com esforo  supremo.
      Mas atingiu o alvo. Dirigiu o seu  trator  at  a  idade  de sessenta e cinco anos, quando a vista no mais  o  permitiu; tinha  dirigido  quase  20.000  quilmetros 
na    pequena localidade em que vivia. Nos diversos  anos  que  ainda  lhe restaram, num lar para ancios, cego e surdo, ele dedicou-se ao artesanato de bolsas de 
couro para o seu  sustento. 
      Deixou  como  herana  os  seus  pensamentos,  escritos  a mquina com muita dificuldade e com muita dor:
      "No h quem no se sinta, por vezes, solitrio e  com pena de si prprio. Mas, eu no me dou por vencido facilmente. J fui fraco e doentio;  fao  agora 
o  que  ningum    achava possvel. Trabalho e me sustento, tenho prazer em viver. "Se eu acredito na bondade de Deus? Todos conhecem as  seguintes palavras da Bblia: 
'Todas as coisas  cooperam  para  o  bem daqueles que amam a Deus.' Baseado em  minhas  experincias, posso sinceramente afirmar que acredito na sua bondade  mais 
do que nunca. "
      Nenhum de ns poderia ter citado esse versculo  para Leo Beuerman a fim  de  confort-lo  na  sua  adversidade, pois poucas pessoas  neste  mundo  tiveram 
um  sofrimento    to intenso quanto o dele. Entretanto, o fato de ele poder citar o versculo e afirmar a grandiosidade da bondade de  Deus   prova de que na fraqueza 
do homem a fora  de Deus  torna-se perfeita.
      Quando os discpulos de Jesus questionaram o Mestre sobre o homem cego, ele primeiro negou que a cegueira tivesse sido castigo por algum pecado. E acrescentou: 
".  .  .  mas  foi para que se manifestem nele as obras de Deus" (Joo 9:3). Em pessoas como Buckley e Leo Beuerman, as obras de Deus  esto claramente manifestas. 
Ns,  que estamos  do  lado  de  fora observando  o  sofrimento,  esperamos  encontrar  revolta  e amargura. Esperamos que essas pessoas se voltem contra  Deus e 
o incriminem pelas injustias da vida. 
      Surpreendentemente, elas encontram nele um consolo  que  nos envergonha.
A Grande Inverso
      O  que  poder  haver  no  sofrimento  que  produza   essa inverso, onde a dor pode construir em vez de destruir?
      Jesus ensinou claramente  que,  de  certo  modo,  o  mundo encarado do ponto de vista divino  inclina-se  a  favor  dos pobres e dos sofredores. Chamado algumas 
vezes de  "teologia da inverso", este ensinamento pode ser encontrado no Sermo da Montanha e nas afirmaes de Jesus de  que  os  primeiros sero os ltimos (Mateus 
19:30;  Marcos 10:31; Lucas 13:30); aquele que se humilha ser  exaltado  (Lucas  14:11;  18:14; Mateus 23:12); ". . . o maior entre vs seja como o menor; e aquele 
que dirige  seja como o que serve" (Lucas  22:26).  A parbola do bom samaritano, e a de Lzaro  e  o  homem  rico afirmam  a  verdade  dessa  inverso  dos  nossos 
valores mundanos.
      Estaria  Jesus  repetindo  a  idia  bblica  de  que a auto-suficincia  humana  precisa  ser  esmagada,  a   mesma auto-suficincia que  pela  primeira  
vez  manifestou-se  no jardim do den? Jesus usou linguagem fortssima ao denunciar o  pecado  do  orgulho  e  da  falsa    religio.    Se    a auto-suficincia 
 o pecado mais destruidor porque, como  um m, afasta-nos de Deus, pode-se compreender perfeitamente a vantagem dos pobres e dos  que  sofrem.  Sua  dependncia 
e falta de auto-suficincia so-lhes por demais  evidentes dia aps dia, o que se lhes torna  em  vantagem.  Eles  precisam agarrar-se a algo que lhes d foras, 
e algumas  vezes  esse algo  Deus. As maiores atraes  da  vida  -  sensualidade, orgulho, sucesso, encanto  -  esto  muito  longe  das  suas existncias e no 
lhes  possvel lutar  por elas; assim,  um grande  empecilho  ao  reino    de  Deus    automaticamente removido. Buckley  e  Leo  Beuerman  no  tinham  sonhos 
de riqueza ou popularidade nem ainda de  romances  exuberantes.
      Estes objetivos estavam  alm do seu alcance, mesmo que eles os quisessem.
      George  MacDonald  refere-se  a  esse  princpio  na   sua explicao do Sermo da Montanha, pondo em destaque  a  frase "humildes de esprito". Diz ele:
      Os humildes, os pobres de esprito, os homens de corao despretensioso, os no-ambiciosos,  os   desprovidos de egosmo; aqueles que nunca desprezam  os  
outros,  os que jamais procuram  receber  aplausos;  os  homens inferiores, aqueles que nada  vem  em  si  digno  de admirao  e  no procuram, por isso, serem 
admirados pelos outros; aqueles que abdicam de tudo; estes so os homens livres do reino  de Deus, so estes os cidados da Nova Jerusalm. Os homens que esto cnscios 
da sua pobreza absoluta; no  os  homens  que so pobres  de  amigos,  pobres  de  influncia,  pobres  de aptido, pobres de dinheiro, mas aqueles  que so pobres 
de esprito, que se "sentem pobres criaturas"; que  sabem  nada haver neles que os satisfaa, e no desejam coisa alguma que os faa sentir orgulhosos;  que sabem 
que lhes  falta  muito para que a sua vida valha a pena, para que a sua  existncia tenha realmente algo de valor,  para  que  estejam  aptos  a viver; estes so 
os humildes, estes so  os  pobres  que  o Senhor chamou de bem-aventurados.
      Quando um homem reconhece que  fraco e sem valor,  ento a porta do reino de Deus abre-se para  ele;  a  verdade  foi reconhecida, e ele comeou a conhecer 
a verdade  a  respeito de si mesmo. Ele se esquece  inteiramente  dos  mritos  das suas antigas realizaes; o que passou faz parte  dele,  mas ficou na retaguarda. 
O seu interesse  volta-se  para  aquilo que ele no , para as coisas que esto acima dele e    sua frente.
      Desta maneira, os pobres so evidentemente  abenoados.  As suas  vidas  dirias  demonstram claramente  a humildade requerida para a entrada no reino de Deus.
      As declaraes do Sermo  da  Montanha  (Bem-aventurados  os humildes... os que choram.. .  os  mansos... os perseguidos) no so apenas um consolo atirado 
por    Jesus para melhorar a auto-imagem das classes  menos  favorecidas.
      So afirmaes verdadeiras que refletem a realidade do reino de Deus.
      A simples declarao de Jesus que a Bblia registra mais  do que qualquer outra (quatro vezes) expressa uma  verdade paradoxal: "Quem quiser preservar a sua 
vida, perd-la-; e quem a perder de fato a salvar." Muitas vezes o que parece ser  uma  tragdia, como a dor e o sofrimento, pode obrigar-nos  a  "perder  as  
nossas  vidas", tendo como conseqncia uma aproximao maior de Deus.
      Numa orao includa nas "Preces" de John Donne, encontra-se essa mesma verdade.  uma orao que no  pode  ser  forada aos que sofrem; ela brotou, entretanto, 
das    mos  de  um homem s portas da morte.
       Deus mui misericordioso, que aperfeioas os teus  prprios propsitos,  desde  as  primeiras    dores    desta    minha enfermidade, tu vens me lembrando 
de que um dia morrerei.   medida que a doena assediava o meu  corpo,  tu  me  fizeste lembrar de que eu poderia morrer a  qualquer  hora.  Com  os primeiros sintomas, 
tu me acordaste. Continuei  a  sofrer  e isto fez com que eu me prostrasse e  evocasse  o  teu  santo nome. Tu me vestiste com o teu eu ao despir-me do  meu  ego.
      Embotando os meus sentidos para  os    apetites  e  prazeres deste mundo, tu estimulaste  os  meus  sentidos  espirituais para a compreenso de ti.
       medida que o meu corpo se decompe, Senhor, minha  alma   enaltecida em tua direo. Apressa o ritmo  deste  processo.
      Meu paladar no desapareceu, apenas sentou-se      mesa  de Davi para saborear, e para ver, "que o Senhor    bom".  Meu estmago ascendeu  ceia do Cordeiro 
com os santos  no  cu.
      Meus joelhos esto enfraquecidos,  to fracos que me ajoelho facilmente e apio-me em ti . . .
      E,  Deus, que apareceste em chama de fogo na sara ardente, aparece, eu te peo, no meio das saras e espinhos de  minha cruel enfermidade,  de  maneira  
que  eu  possa    ver-te  e reconhecer-te como o meu Deus,  dirigindo-se  a  mim,  mesmo nestes dias lancinantes e espinhosos. Atende-me,    Senhor, por amor do 
teu Filho, que no deixou  de ser o Rei dos cus pelo fato de tu permitires que ele sofresse ao  ser  coroado com os espinhos deste mundo.
      Do mesmo modo que os gases no corpo humano simulam qualquer doena, podendo parecer  ndulos  ou  gota, o medo simula qualquer doena da mente.
      John Donne Preces 
Dois Inimigos da Recuperao
      J encontrei pessoas com reumatismo crnico deformante que s sabem  falar  em  doena.  Encontrei  tambm  outros  que somente consentem em falar de  sua 
dor  depois  de    multa insistncia. Qual a razo de comportamentos to diferentes?
      Poucas  pessoas  experimentaro  a  dor  de    uma    vida repentinamente  cortada,  como  Brian  Sternberg   e    Joni Eareckson. A grande maioria das pessoas 
ser poupada de  uma dor psicolgica como a suportada por Buckley e Leo Beuerman.
      Em geral, as dores  aparecem  por  breves  perodos,  e  com intensidade bem menor. Entretanto, as pessoas no reagem todas da mesma maneira. Haver algum 
modo  de  se  predizer qual a reao  dor? Poderemos  aprender  como  preparar-nos para a dor, a fim de diminuir o seu    impacto?    possvel traar alguns  princpios, 
com  base  nas  experincias  de pessoas que sofreram intensamente. Talvez  estes  princpios ajudem-nos a enfrentar a dor.
Intensidades de Dor
      Mdicos e cientistas esto descobrindo que a  nossa  atitude com referncia  a  uma  dor  especfica    um  dos  fatores principais na intensificao dos 
seus efeitos.
      H dores - como a do parto ou da tortura  de  um  inquisidor inimigo  -  que  as  pessoas  consideram   necessrias    ou provveis, e esto prontas a aceit-las. 
Na realidade,    h muitas  pessoas  que  deliberadamente  infligem  dor  a   si prprias por razes de beleza. Durante sculos, as  mulheres chinesas restringiram 
violentamente o tamanho  dos ps  para que estes se  conformassem  ao  seu  padro  de  beleza.  As mulheres do mundo ocidental arrancam sobrancelhas,  suportam 
sol causticante,  submetem-se    cirurgia    plstica  para melhorar  as  suas  fisionomias,  tudo  para   estarem    de conformidade com os  padres  culturais 
de  beleza.  E,  na realidade, essas pessoas recebem a nossa  aprovao. Algumas dores, como uma massagem  enrgica,  sauna  ou  um  chuveiro muito  frio,  so  
consideradas   agradveis,    expressando entusiasmo pela vida.
      Faz tambm diferena o grau de simpatia que  se  recebe  por certa dor. Graves ferimentos de guerra para um  veterano  ou dores de cabea para um  importante 
executivo    podem  ser exibidos como sinal de coragem ou  empreendimento,  trazendo portanto satisfao.  Dores  desprezveis,  menos  visveis, tais como hemorridas, 
so lgubres   e  irritantes.  Trazem constrangimento e no simpatia, e isso intensifica a dor.
      Um artigo de uma revista de esportes, Sports Mustrated, exps em 1976 as reaes contrastantes que os atletas tinham  dor. Num esporte como o  futebol  ou 
hquei,    todos  os participantes  esto  sujeitos  aos  mesmos  acidentes,  aos mesmos ferimentos e  s  mesmas  quedas.  Danos  em  regies vulnerveis como o 
joelho so bastante comuns;    quando  se est no vestirio, antes ou depois dos jogos, pode-se  notar os joelhos dos jogadores cheios de manchas vermelhas.  Pois, 
at mesmo eles reagem de maneira  diferente. 
      Alguns atletas conseguem sobressair-se no  esporte  apesar de sofrer  dores  lancinantes.  Earl  Monroe,  do  time  dos Knicks, o heri do basquete,  no  
presta  ateno      sua artrite. Muhammad Ali em toda a sua carreira lutou com  mos que latejavam constantemente. Tony  Roche,  tenista  famoso, que chegou a 
ser o 2 tenista do mundo,  luta contra  a  dor que o tem deixado fora das quadras de tnis  durante  metade da dcada de 70. O artigo acima referido cita o  Dr. 
Robert Kerlan, um conhecido ortopedista  especialista em esportes.
      Entre os superastros ou atletas de alto nvel, o  limiar  da dor  alto. Isso acontece mais  freqentemente  em  esportes onde h grande contato entre os jogadores. 
No  sei se esses atletas  so  mais  capazes  de  agentar  a    dor,    mas, definitivamente, no sentem tanto a dor  quanto  os  outros.
      No se sabe se isso  aceitao da dor, ou    se    do  seu feitio. Parece-me ser muito do feitio do atleta.    preciso que se tenha um alto limiar de dor 
para poder jogar futebol, hquei, e principalmente para  boxear. Nos esportes de maior especializao, o limiar da dor pode ser um pouco menor;  No basquete, entretanto, 
o  limiar  precisa  ser  alto,  porque exige muito contato. No se pode, por exemplo,  comparar  os limiares de jogadores de futebol e beisebol.  O  jogador  de 
futebol pode jogar com a mo quebrada, o  que  no  acontece com um jogador de beisebol que no pode jogar nem mesmo com uma bolha na ponta do dedo.
      O jornalista esportivo Mark  Kram  conversou  com atletas cujas reaes  dor eram as mais  desencontradas  possveis.
      Taz Anderson, jogador de futebol do Clube Atlanta    Falcon, que se desligou do futebol por causa da dor,   hoje  pessoa amarga e perturbada. Entretanto Merlin 
Olsen, outro  jogador que tem sido muito atingido pela dor,  resolveu ignor-la:
      O homem  um ser adaptvel. Descobre logo o que pode ou o que no pode fazer.  como  entrar  num  estbulo.  Sente-se logo o cheiro de esterco. Mas depois 
de cinco  minutos,  no se sente mais nada. O mesmo acontece com um  joelho.  Quando ele  machucado, di muito. Mas, da, comea-se a jogar  num nvel diferente. 
Muda-se um pouco    a  maneira  de  correr.
      Chuta-se com o outro p. Talvez consiga-se mudar  a  posio do corpo. Depois que o meu  joelho  foi  operado,  o fluido tinha de ser retirado semanalmente. 
No fim, a membrana estava to grossa que eles quase precisavam  de  um  martelo para enfiar a agulha. Cheguei ao ponto de  dizer:  -  Raios!
      Enfiem logo essa agulha, e  tirem essa coisa da!
      Assim, at mesmo a dor que  aceita voluntariamente,  como no  caso  dos  esportes,  pode  apresentar-se  por  meio  de diferentes prismas  da  reao  humana. 
Tudo  depende    da atitude mental da pessoa. Escolheu a dor? Qual a intensidade do seu desejo  de  venc-la?  Sentir-se-  recompensada  por agent-la? H, alm 
disso, algumas diferenas  fisiolgicas que afetam os limiares suportveis de dor.
      Para a grande maioria, h duas atitudes principais que podem afetar drasticamente a capacidade de suportar a dor. A nossa reao depende grandemente destas 
atitudes.
O Fator Medo
      0 Dr. Paul Brand ilustra os diferentes efeitos  da  dor,  ao relatar as suas experincias como mdico em Londres  durante a  Segunda  Guerra  Mundial.  Os 
feridos  que  vinham    do continente contavam-lhe  histrias  fenomenais  de  coragem.
      Alguns estavam com pedaos de granada  dentro  do  corpo, e assim mesmo corriam sob  fogo  cerrado  para  salvar seus companheiros, apesar de toda a dor que 
sentiam. O estado de esprito dos soldados britnicos era  to  alto  que  poucos paravam  de  lutar  por  causa  dos  ferimentos. Muito freqentemente, eles continuavam 
a lutar  at  que  isso  se tornasse fisicamente impossvel. Brand tratou desses homens, alguns com pernas amputadas, outros com  ulceraes enormes, resultado dos 
seus ferimentos.
      Por mais estranho que parea, estes heris  perdiam  toda  a sua bravura quando chegava a hora de receber as injees de antibitico. A penicilina, recm-descoberta 
naquela ocasio, era manufaturada primitivamente em  enormes  tonis de uma destilaria londrina. Impura  e  um  tanto  nociva,  a droga irritava demasiadamente as 
veias  quando  injetada  em grandes doses; assim,  era  necessrio  que  doses  pequenas fossem injetadas de trs em trs horas. A injeo ardia como cido.
      Brand lembra-se de uma vez em que estava de planto quando a enfermeira veio s  2  horas  da  manh  com  a  bandeja  de penicilina. Os homens j  acordavam 
momentos  antes    dela entrar na enfermaria. Ficavam na cama, de olhos bem abertos, alguns at chegavam  a  tremer  de  medo.  Quando  a  ouviam aproximar-se, vrios 
deles emitiam tristes  gemidos.  Homens adultos, os mesmos soldados destemidos que tinham  arriscado a vida no  campo  de  batalha  soluavam  descontroladamente 
quando a enfermeira aproximava-se  com a agulha.
      Nenhum deles poderia dizer que a picada de uma agulha e as gotas de penicilina, por mais dodas que fossem, excediam ao sofrimento deles na frente de guerra. 
Mas,  outros  fatores, tais como o ambiente e  a  antecipao,  faziam  com  que  a experincia de uma simples injeo de penicilina lhes  fosse muito mais aterradora 
do que o  conflito entre a  vida  e  a morte.
      O medo parece ser o denominador comum capaz de  levar  uma experincia  dolorosa  para  os  domnios  do  insuportvel.
      Asenath  Petrie,  uma  pesquisadora  da  Universidade     de Chicago, desenvolveu um fascinante sistema de classificao de pessoas em trs categorias, quanto 
 sua reao    dor, conforme descreveu no seu livro The Individuality   of  Pain and Suffering (A individualidade da dor  e  do  sofrimento).
      "Adicionadores" possuem um baixo limiar de dor; qualquer dor  para eles grandemente exagerada.  "Redutores" tm um  alto limiar de dor e podem tolerar  muito 
mais  sem  perturbao visvel, "Moderados" situam-se no meio. Ela descobriu que  o medo  o nico fator  que  melhor  descreve  a  atitude  dos adicionadores quanto 
 dor.
      John Donne, depois de notar sinais de medo no mdico que o assistia, escreveu a seguinte descrio da fora do medo.
      O medo insinua-se em cada atividade ou emoo da mente e, do mesmo modo que os gases no  corpo  humano  simulam qualquer doena, podendo parecer ndulos ou 
gota, o medo simula qualquer doena da mente. Pode  parecer  estima,  estima  de possuir  algo;  mas    apenas  medo, um medo zeloso e desconfiado de perder algo. 
Menosprezar  e    subestimar  o perigo pode parecer bravura; mas  apenas medo de  perder  a estima e o conceito supervalorizados. O homem  que  no  tem medo de 
um leo pode ter medo de  um gato; quem no tem medo de morrer  de  fome  pode  ter  medo  da  carne  que  lhe   apresentada  mesa... No conheo o  mecanismo 
do  medo, nem sei tampouco do que  tenho medo agora; no temo o apressamento da minha morte, mas temo  o  aumento  da  minha enfermidade; eu estaria desvirtuando 
a natureza humana se eu negasse que realmente  temo isso.
O Fator Desnimo
      Em 1957, o Dr. Curt Richter, um psiclogo da  Universidade Jolins Hopkins, empregou  dois  ratos  numa  experincia  um tanto perversa. Jogou o rato nmero 
1 num tanque    de  gua morna. Como os ratos so bons nadadores, ele lutou e patinou durante seis horas antes  de  sucumbir    exausto, quando ento se afogou 
rapidamente. Richter   procedeu de maneira diferente com o rato nmero 2. Antes de jog-lo na gua, ele o segurou firmemente em  suas  mos  at  que  parou  de 
se debater. Quando jogado no  tanque, o segundo rato reagiu de modo notavelmente diferente.  Depois  de chapinhar durante alguns minutos, afundou passivamente. Richter 
assevera que o rato nmero 2 "desistiu", convencido de que a sua sorte estava lanada  mesmo  antes  de  ser  jogado  na  gua.  Na realidade, esse rato  morreu 
quase  que  imediatamente  por causa do   seu  desnimo,  o  segundo  sentimento  que  pode caracterizar os sofredores e que pode levar  as  pessoas  ao desespero.
      Fortes sentimentos de medo ou de desnimo no somente pioram a situao dos  doentes;  na  realidade,  esses  sentimentos fazem com que pessoas sadias tornem-se 
mais  susceptveis   doena.  O  Dr.  Roberto  Ader,  cientista  e  professor  de psiquiatria e psicologia da Escola de Medicina de Rochester, acredita que praticamente 
todas  as doenas  so  originadas por fatores emocionais. Ele conclui: "A teoria do germe  no pode ser levada em conta. Se assim fosse, quando uma  pessoa ficasse 
resfriada num  escritrio,  todos,  absolutamente todos, ficariam tambm resfriados."
      Dezenas de estudos j estabeleceram esse fato. Uma  pesquisa famosa, denominada "Corao Quebrantado", analisou o  ndice de mortalidade de 4.500 vivos nos 
primeiros    seis  meses depois da morte das esposas. Em comparao com outros homens da mesma idade, os vivos tiveram um ndice  de  mortalidade 40% mais elevado.
      Num artigo sobre os efeitos do desnimo, a revista New  York cita o exemplo narrado pelo  Major  F.  J.  Harold  Kushner, oficial  mdico  do  exrcito  que 
foi  prisioneiro     dos vietcongues durante cinco anos e meio.
      Entre os prisioneiros no campo em que estava Kushner, havia um forte jovem da marinha, de 24 anos, que j estava ali  h dois anos, com uma sade relativamente 
boa.  Em parte,  isso estava acontecendo porque o comandante  do  campo  havia-lhe prometido que o soltaria se ele  cooperasse.  Como  isso  j tinha acontecido 
com outros,  o    marinheiro  tornou-se  um prisioneiro modelar  e  o  lder  do  grupo  de  reforma  de pensamento no campo.  medida que o tempo foi passando, 
ele comeou a compreender que  os seus captores tinham  mentido. 
      Quando perdeu as esperanas, tornou-se um morto-vivo.
      Recusava qualquer trabalho, rejeitava todo o oferecimento de comida e estmulo  e ficava deitado no seu catre chupando  o polegar. Em questo de semanas, ele 
morreu. 
      O Dr. Martin Seligman, da Universidade da Pensilvnia,  acha que essa morte ocorreu por causa da falta de nimo. Ele  de opinio que no h possibilidade 
de se dar   uma  explicao mdica para o definhamento do rapaz a ponto de morrer.
      - A  esperana  de  ser  posto  em  liberdade  sustentava-o, - escreveu Seligman. -  Quando  perdeu  a  esperana,  quando acreditou que todos os seus esforos 
tinham sido em   vo  e assim o seriam sempre, morreu. 
      Essa  experincia    um  exemplo  trgico  e  negativo   da necessidade de uma esperana pela qual se possa viver.   um vivo contraste com Brian Sternberg, 
com Joni Eareckson, e com alguns sobreviventes do campo de concentrao que  sero apresentados no prximo captulo. Mas,  representa  milhares de  pessoas  -  inclusive 
pessoas   idosas,    divorciadas, solitrias e pobres - que sucumbem por causa  do  sentimento de desnimo.
      A dor em si -  no  apenas  a  atitude  psicolgica,  mas a experincia fsica da dor - pode ser igualmente afetada pela atitude que o paciente toma,  ou  
por  seu  sentimento de desnimo. Em algumas das experincias sobre o limiar da dor, os cientistas descobriram que esse limiar podia ser  elevado de 19% a 45%,  
apenas  fazendo  com  que    o  paciente  no prestasse ateno ao  que  estava  sendo  feito.  Em  outras palavras, num teste aplicando calor  no  brao,  o  paciente 
agentava de 19% a 45% mais calor  antes de  sentir  a  dor, quando os pesquisadores  desviavam  a  sua  ateno  tocando campainhas, lendo uma histria de aventuras 
em voz alta,  ou fazendo com que a pessoa  lesse nmeros. Se ele no  tivesse nada mais a fazer do que pensar em sua dor (como acontece em muitos hospitais e abrigos 
de  ancios),  a  dor  tornava-se muito mais  forte."
      Aqui fica um aviso para a pessoa que  enfrenta  uma longa doena.  Procure  algum  modo  de  evitar  sentimentos de desnimo.    essencial,  por  exemplo, 
que  pessoas com deformaes  recebam  utenslios  que  possam  ajud-las a restaurar a sua atividade. Engenheiros britnicos inventaram um dispositivo que permite 
uma pessoa totalmente paralisada movimentar a sua cadeira de rodas, escrever  mquina, ligar a  televiso  ou  estreo,  tudo  isso  apenas   usando a respirao. 
Com diferentes combinaes de inspirar  o  ar  e expir-lo, o paraltico pode transmitir  sinais   mquina.
      Esses dispositivos podem significar a diferena entre sentimentos de desnimo e de esperana, e at  mesmo entre recuperao e desespero.  O  passatempo  de 
radioamador de Brian Sternberg e a arte de Joni Eareckson so provavelmente mais importantes para eles    que  at  mesmo o  apoio  dos queridos amigos.
      O  prximo  captulo  apresentar  algumas  maneiras    de combater o desnimo e o medo inerentes em ns  e  nos  entes sofredores que nos rodeiam.  Estas 
regras,  extradas de experincias de pessoas que  conseguiram  sobreviver, podem evitar a falncia de nimo que destruiu o  jovem marinheiro no campo vietcongue.
      Durante o sono a dor desaba gota a gota sobre o meu  corao at que, em minha  agonia,  a  graa  de  Deus    revelada.
      squilo
Preparao
      Na Sexta-feira Santa de 1964, um violento terremoto  sacudiu o Alasca, esmagando casas, eliminando ruas, e  desencadeando ondas enormes.  Famlias  foram  
separadas,    morreram  117 pessoas, e propriedades no valor de 750 milhes  de  dlares foram destrudas.
      Socilogos precipitaram-se para cidades como  Anchorage  e Seward,  prximas  do  epicentro  do  terremoto,  a fim de analisar as reaes humanas. Depois de 
entrevistarem centenas de sobreviventes  e  acompanh-los  durante  alguns anos,  as  equipes  de  pesquisa  chegaram   s seguintes concluses:
      1) Como  um  todo,  os  habitantes  do  Alasca  reagiram positivamente  crise. Houve pouco pnico e nenhum saque,  e os sobreviventes tiveram  compaixo  
uns  dos  outros.    As comunidades refizeram-se depressa dos efeitos  do  desastre. 
      Os socilogos concluram que os habitantes do  Alasca  assim agiram por estarem acostumados a lidar com   a  adversidade; para sobreviver s rudes condies 
climticas,  necessitavam de um esprito pioneiro.
      2) Aqueles que permaneceram na sua localidade  durante  os seis primeiros meses depois do terremoto adaptaram-se melhor  crise. Famlias traumatizadas que 
deixaram  o  local  logo aps  o  primeiro  tremor  tiveram  ndices  mais  altos  de divrcio e de instabilidade emocional. A impresso colhida  que  mais fcil 
vencer o medo quando   se  permanece  e  se enfrenta o resultado do desastre.
      3) Membros de famlias reunidos quando se deu o  terremoto reagiram melhor do que os membros de famlias espalhados  em locais diferentes, como escolas, "shopping 
centers", etc.
      4) A maioria do povo voltou-se para Deus em orao dramtica. A freqncia  igreja aumentou consideravelmente, mas depois de um ano voltou ao normal.
      Os cientistas analisam cuidadosamente a reao do povo depois de um desastre; mas,  pouco  proveito    tirado das concluses no sentido de ajudar as  pessoas 
a  melhor se prepararem para as suas prprias crises. 
      Cada crise demonstra que os principais inimigos so o medo e o desnimo (ou desespero), fatores estes j  muitas  vezes enfrentados pelos habitantes do Alasca.
Sobreviventes
      O que podemos oferecer aos que sofrem para que combatam os seus sentimentos de desnimo e de medo? Agora, mais  do  que nunca, a cincia mdica est em posio 
de  oferecer uma boa dose de esperana. Mas, a medicina  pouco  pode  fazer  para mudar a atitude mental  dos  pacientes.  Como  o  medo  e  o desnimo so  fatores 
altamente  importantes,      preciso encontrar um modo de neutralizar esses sentimentos. 
      Qualquer pessoa pode dar amor, esperana e simpatia aos necessitados e sofredores; eles precisam disso desesperadamente. Assim, nossos esforos devem ser dirigidos 
no sentido de  dar-lhes  a  fora  de  que  necessitam  para neutralizar o ataque devastador ao seu corpo. Stanley  Stein descreveu a sua luta contra o mal de Hansen 
no    livro  No Longer Alone (No mais  sozinho)  e  Alexander  Solzhenitsyn contou suas experincias no campo de concentrao  no  livro Arquiplago Gulag. Homens 
como estes,  que ao vencerem a dor tiveram  o  esprito  muito  mais  fortalecido,  so  provas comovedoras da capacidade da rpida recuperao do  esprito humano. 
Em tais pessoas  excepcionais,    o  sofrimento,  na realidade, contribuiu para alimentar o esprito,  nutrindo-o e fortalecendo-o.
      Uma  vez  mais,  precisamos  voltar-nos  para  as  situaes extremas a fim de extrairmos os princpios de como enfrentar os problemas, princpios que possam 
ser aplicados  s nossas prprias dores  bem  menores.  Como  podemos  neutralizar  o sentimento de terror que impregna o nosso ser juntamente com o desnimo? As 
experincias  no  campo    de  concentrao, especialmente, revelam que o desnimo pode ser superado  sob circunstncias as menos humanas.
      No livro Os sobreviventes, Terence Des Pres examinou cuidadosamente a maior parte da literatura apresentada pelos sobreviventes do Holocausto. Enquanto estudava 
a documentao dos que sobreviveram, descobriu que o  mito de que os  judeus  foram  levados    matana  como carneiros, aceitando o destino docilmente, era completamente 
sem fundamento. Atrs do arame farpado e das paredes de tijolos, os  acossados  judeus  desenvolveram  uma  nova maneira  de expressar coragem e bondade  humanas. 
Alguns,  realmente, sucumbiram. Mas outros resistiram e recusaram-se a  permitir que os nazistas esmagassem as suas mentes. Se formos  a  uma reunio de sobreviventes 
do Holocausto, no  encontraremos seres    derrotados    ou    inteis,    ou mortos-vivos. 
      Encontrar-nos-emos com polticos, mdicos e advogados.
      Des Pres refere-se  tentativa  nazista  de  reproduzir  a experincia de Skinner, em que o ambiente foi programado de forma a reduzir os reclusos a criaturas 
irracionais    cujo comportamento pudesse ser predito e controlado. Os campos de concentrao  usavam  a  dor  e  a  morte  como "reforos negativos" e alimento 
e vida  como  "reforos    positivos", aplicando-os de maneira regular e tremenda. Mesmo  assim,  a experincia  no  foi  bem  sucedida.  Alguns   prisioneiros 
cederam, alguns retrataram-se,  mas  muitos    resistiram  e encontraram os seus prprios meios de enfrentar a situao.
      Alguns sobreviventes de tais campos surgiram, no com  uma perspectiva  desvirtuada  e  deformada  de    crueldade  e desumanidade como se poderia esperar, 
mas  com  um conceito novo de virtude e esperana. Temos como exemplo  Corrie ten Boom e os descritos nas narrativas de Solzhenitsyn. Um deles  George  Mangakis, 
que  foi desumanamente    torturado  e sentenciado h dezoito anos como preso  poltico  durante  o recente  governo  da  junta  militar  na  Grcia.   Mangakis 
manteve-se firme em suas crenas ticas    e  compadecia-se, no de si, mas do seu torturador. 
      Experimentei a sina de uma vtima. Vi o rosto do  torturador muito perto de mim. O seu rosto estava em  piores  condies que  o  meu,  embora  o  meu  rosto 
estivesse  lvido e ensangentado. O rosto do torturador estava deformado por um rito que nada tinha de humano... Nessa situao, era eu o mais afortunado. Fui humilhado. 
No humilhei pessoa  alguma.
      Estava apenas suportando nas  minhas  dodas  entranhas  uma humanidade terrivelmente  infeliz. Ao passo que  os  homens, que humilham os outros, devem humilhar 
primeiro a  noo  de humanidade existente no seu prprio  ser.  No  importa  que eles se pavoneiem  nos seus uniformes, inflados porque podem controlar o sofrimento, 
a insnia, a fome e o  desespero  de seres  humanos  iguais  a  eles;  no  importa  que  estejam intoxicados  com o poder que tm nas mos. Essa  intoxicao nada 
mais  do que a  degradao  da  humanidade.  A  mxima degradao. Eles j pagaram muito caro pelos meus tormentos.
      No era eu o que estava em pior posio. Eu  era  apenas  um homem que gemia por sofrer  muita  dor.  Prefiro  que  assim seja. Neste momento,  estou  privado 
da  alegria  de ver crianas indo para a escola ou brincando nos parques. Mas os meus algozes so obrigados a olhar para o rosto dos prprios filhos.
Auxlio 
      A razo da sobrevivncia de Mangakis foi a  resultante  de um idealismo que lhe permitiu sobrepor-se aos seus captores.
      Por causa da  sua  crena  na  humanidade,  ele    passou  a contemplar seus torturadores com  piedade.  Entretanto,  so poucos os que conseguem manter tal 
fora e disposio. Entre os sofredores, a famlia costuma  ser o  centro  crucial  da esperana. Nos campos de concentrao nazistas, aqueles  que ainda tinham 
membros da famlia em liberdade  apegavam-se   esperana de que um    dia  estariam  todos  reunidos.  Para sobreviver num campo de concentrao, o que mais  ajudava 
o recluso era saber que algum se importava com ele, que havia algum ansioso pelo que lhe acontecesse.   Isso  era  o  que mais freqentemente acontecia. Os guardas 
nazistas  tentavam desfazer fortes amizades separando amigos e  encorajando  os reclusos a delatarem uns aos  outros por  quaisquer  quebras de regulamento.
      Essas situaes podem ser comparadas com as menos extremas no sofrimento do mundo "normal". Muitas pessoas,  com  dores fsicas ou psicolgicas, expressam 
um profundo    sentimento de solido. Sentem-se abandonados por Deus e  pelos  homens, porque precisam levar o seu  fardo  sozinhos  e  ningum  os entende.
      Ao ler as narrativas sobre o Holocausto, impressionou-me a alta  importncia  que  h  em  alcanar  as  almas  aflitas atravs,  da  empatia.  As  pessoas 
que  sofrem    costumam levantar  barreiras  que  complicam  esse  processo.   Dizem freqentemente:
      - Voc jamais me entender; voc nunca passou por isso.
      Em casos assim, algum que j teve uma experincia similar pode ajudar. Joni Eareckson foi sacudida,  afastada da  sua autopiedade, quando recebeu no hospital 
a    visita  de  uma amvel e radiante quadriplgica,  e  agora  ela  continua  a corrente  levando  esperana  a  outros.  O  Padre    Damien descobriu que  o  
seu  ministrio  entre  os    leprosos  de Molokai, no Hava,  somente  se  tornou  eficaz  quando  ele prprio contraiu a doena e pde falar-lhes  de  igual  para 
igual. Muito sabiamente, os hospitais  comeam a estabelecer programas em que uma mulher  ao  sofrer  mastectomia  ou  um homem a ser operado de cncer recebem visitas 
de  pacientes que j passaram por estas  experincias.
      Os  sofrimentos  podem  tornar-se  uma  armadilha  para  a autopiedade, amor-prprio ferido e auto-imagem negativa.  As outras pessoas podem ser a  nica  
maneira  de  ajudar    os sofredores a vencer o seu desespero profundo.  Metade  deste livro tratou de pessoas que tm "enfrentado triunfantemente" o sofrimento. 
 claro que  h  muitas  pessoas    que  foram destrudas por ele. Mas, a esperana   um  ingrediente  to vital na maneira de enfrentar a dor, que chego a imaginar 
se as  realsticas  "histrias  de  sucesso"    deveriam    ser enfatizadas. As pessoas com sade geralmente  cansam-se  das tpicas histrias de "aleijados que 
descobrem a felicidade e uma vida proveitosa", como as  encontradas  em  Selees  do Reader's Digest. Mas as pessoas aleijadas com quem conversei encaram  essas 
histrias   com    muita    seriedade. Os sobreviventes desafiam a  sua prpria condio.
Tristeza Compreendida
      Gastaria de muito bom grado uma fortuna pela fisioterapia da minha esposa se ela fosse invlida. Faria  o  mesmo  por  um amigo ntimo em dificuldade. Mas 
ser que eu   investiria  o tempo necessrio para minha prpria  terapia  espiritual  ou emocional? Os que sofrem geralmente precisam  de  reformular passo a passo 
a sua psique: uma  nova crena em si prprios, uma nova identidade, uma nova posio no mundo, de modo  que possam estar certos de serem apreciados.
      Um  pastor  evanglico  escreveu-me  certa  vez  sobre   uma experincia que tivera h alguns anos, um "colapso  nervoso" como declararam os mdicos.
      O mais constrangedor em tudo isso era o aparente silncio de Deus. Parecia que eu orava para uma escurido silenciosa. J pensei  muito  sobre  isso.  Era 
silncio  "apenas na aparncia". O problema estava no s na minha depresso como na comunidade crist. Para a maioria dos membros, eu era  um estorvo. Nada do que 
eles diziam tinha  relao com o que eu sofria. Um pastor orou por mim de maneira  piedosa  mas  to generalizada, que nada tinha em comum com a minha  situao.
      "Eles no sentiam o meu  sofrimento."
      Outros  evitavam-me.  Ironicamente,  os   amigos    de J provavelmente prestaram-lhe ajuda no sentido psicolgico.
      Fizeram com que ele exteriorizasse as  suas  emoes, ainda que fossem emoes de irritao. As palavras dos  amigos  de J eram vs, mas eram pertinentes 
ao problema e deram a J a impresso de que Deus estava de qualquer  modo  perto  dele. 
      Nenhuma pessoa da comunidade crist, com  exceo  da  minha esposa, ajudou-me, nem mesmo da maneira daqueles  amigos  de J.
      Anos depois o mesmo pastor, com a sade  mental  renovada, lia o Salmo 145 do plpito. Tentou concentrar-se, mas  havia alguma coisa que o atormentava: o seu 
neto   de  uma  semana tinha acabado de falecer, o que entristecera a famlia toda.
      Ele no conseguiu  continuar  a  leitura  das  palavras  que louvavam ao Senhor pela sua bondade    e  justia.  Sua  voz falhou, parou de ler, e contou  
congregao  tensa  o  que tinha acontecido. - Quando as pessoas saram  da  igreja, - lembra ele,    elas  disseram  duas  coisas  importantes  que muito  me ajudaram: 
1) Agradecemos-lhe por ter  partilhado  conosco  a sua dor; e, 2) partilhamos da sua dor.
      Estas afirmaes to simples ajudaram-me muito. No  mais me senti s. Ao  contrrio  da  poca  anterior  em  que  me sentira to deprimido, no mais me sentia 
abandonado    por Deus e por seu povo. Compreenderam a minha tristeza.
      s vezes uma simples palavra, a  compreenso  da  dor,  tudo o que se pode oferecer; isso pode ser bem melhor do que um sorriso e um "Louvado seja o Senhor!"
Esperana de Cura
      Quanto ao problema da dor,  h  um  importante  aspecto  que evitei. No tenho  enfatizado  a  cura  milagrosa  por  duas razes. Em primeiro lugar, h muitos 
livros timos  sobre  o assunto, desde testemunhos pessoais at tratados teolgicos.
      Em segundo lugar, escrevo acerca de pessoas presas pela  dor que questionam Deus. A cura  uma   soluo,  mas  no  para todos. Brian Sternberg, por exemplo.
      No deixo de dar valor  cura fsica. Estou certo de que, se um dia o mdico me disser que tenho cncer, farei tudo  para ser curado. Mas todas as pessoas 
que j    foram  curadas  e tambm aquelas que foram o instrumento para  a  cura  divina morrero um dia. Assim, a cura  no  afasta  inteiramente  o problema da 
dor, adia-o apenas.
      A esperana da cura pode  ser  um  grande  antdoto para  o desnimo, pois d ao  sofredor  um  objetivo potencial.  No extraordinrio caso de Brian Sternberg, 
essa esperana   tem vivificado a sua f por uma dcada e meia.
      Acontece, s vezes, que a esperana  da  cura,  se  no  for alcanada e se Deus resolver no curar, pode ser  um  grande impedimento para a f. Pode piorar 
o desespero  do desnimo.
      Vejamos um exemplo. Brbara Sanderville, uma jovem escritora paraplgica, descreveu-me esse processo numa carta:
    Depois de tornar-me crist, algum  me  disse  que  Deus  me curaria. Isso parecia bom demais para ser verdade, e eu  no sabia se ousava acreditar. Mas, vendo 
que na    Bblia  nada havia ao contrrio, comecei a ter  esperanas,  e  depois  a crer. Mas minha f era bruxuleante. Quando  alguns  cristos me diziam:
      - Deus no cura a todos. - Ou - Aflio    uma  cruz  que precisamos carregar - a minha f vacilava. No outono passado a minha f parecia morrer.  Desisti 
de acreditar que Deus me curaria. Cheguei, ento,  concluso de  que  eu  no  tinha coragem de passar o resto da vida  numa  cadeira  de  rodas.
    Fiquei amargurada por saber que Deus podia curar-me mas  no queria faz-lo (pelo menos assim eu achava). Eu  lia  Isaas 53 e 1 Pedro 2,2 4 e acusava Deus  
por  no  cumprir  a  sua promessa que ali estava  minha frente  como  um  pedao  de carne  defronte  a  um  co  faminto.  Ele   me    provocava mostrando-me 
a possibilidade, mas jamais permitindo que eu a alcanasse. Isso, por sua  vez,  produziu  em  mim  profundo sentimento de culpa, pois sabia pela Bblia que Deus 
era  um Deus de amor e pronto a atender os homens.  O  conflito  foi tal que minha mente tornou-se insensvel  e,  muitas  vezes, cheguei  a  pensar  em    suicdio. 
Comecei    a    tomar tranqilizantes para poder agentar os dias  medida  que  o ressentimento e a culpa construam um  muro  cada  vez  mais alto entre mim e 
o Senhor. Nessa   ocasio,  comecei  a  ter dores de cabea e problemas com os olhos. Um  oftalmologista no achou  a  causa.  Ainda  orava  porque  sabia  que  
Deus existia, mas geralmente acabava a minha  orao  chorando  e reclamando de Deus. Tinha muita pena de mim mesma, o que era altamente  destrutivo. Continuava 
a perguntar a Deus por que ele no me curava, quando est to claramente afirmado que a cura faz parte do plano da redeno.
      Mais tarde, Brbara encontrou a cura mental que acabou com a sua amargura. Ela espera a cura fsica.
      Por causa de experincias como a  de  Brbara,  acho  que  a esperana de cura deve ser  apresentada  realisticamente.  E apenas isto, uma esperana, no uma 
garantia. Se   vier,  um maravilhoso  milagre  aconteceu.  Se  no  vier,  no  houve abandono da parte  de  Deus.  Ele  pode  usar  at  mesmo  a enfermidade para 
produzir algo de bom na pessoa  doente.
Perdendo o Medo
      Para muitos aspectos do  problema  da  dor,  o  Cristianismo oferece respostas que parecem  incompletas.  Algumas  vezes, como aconteceu com Brbara, os princpios 
cristos   parecem confusos e paradoxais.  Uma  f  pessoal  pode,  entretanto, tornar a pessoa  mais  apta  a  enfrentar  o  medo,  um  dos fatores-chave na reao 
 dor.
      Pela sua prpria natureza, a  experincia  de  sobrepujar  o medo  individual, e, portanto, no  uniforme.  Eu  poderia dizer:
      - Expulse o medo pela confiana em Deus.
      - Mas para que serviria isso? Como  se  consegue  fazer tal coisa?
      A Bblia  o guia do cristo. Creio que o esclarecimento que ela traz sobre dor e sofrimento  o grande antdoto  para  o medo das pessoas  que  sofrem.  Esse 
esclarecimento    pode dissolver o medo como a luz desmancha a escurido.
      Quando sofro dor, tento refletir sobre o bem que a dor pode produzir em mim, conforme a promessa da Bblia.  Em  Romanos 5:1-5,  Paulo  nos  diz  que   as 
tribulaes    produzem perseverana, experincia e esperana; portanto,  carter  e confiana ou intrepidez.
      Eu me perguntaria:
      - Como o sofrimento pode produzir tais qualidades?
      Produz perseverana, ou constncia, diminuindo o meu mpeto, forando-me a voltar-me para Deus, Preparao 177 (?) acabou com a sua amargura. Ela espera a 
cura fsica.
      Por causa de experincias como a  de  Brbara,  acho  que  a esperana de cura deve ser  apresentada  realisticamente.  E apenas isto, uma esperana, no uma 
garantia. Se   vier,  um maravilhoso  milagre  aconteceu.  Se  no  vier,  no  houve abandono da parte  de  Deus.  Ele  pode  usar  at  mesmo  a enfermidade para 
produzir algo de bom na pessoa  doente. 
Perdendo o Medo
      Para muitos aspectos do  problema  da  dor,  o  Cristianismo oferece respostas que parecem  incompletas.  Algumas  vezes, como aconteceu com Brbara, os princpios 
cristos   parecem confusos e paradoxais.  Uma  f  pessoal  pode,  entretanto, tornar a pessoa  mais  apta  a  enfrentar  o  medo,  um  dos fatores-chave na reao 
 dor.
      Pela sua prpria natureza, a  experincia  de  sobrepujar  o medo  individual, e, portanto, no  uniforme.  Eu  poderia dizer:
      - Expulse o medo pela confiana em Deus.
      - Mas para que serviria isso? Como  se  consegue  fazer tal coisa?
      A Bblia  o guia do cristo. Creio que o esclarecimento que ela traz sobre dor e sofrimento  o grande antdoto  para o medo das pessoas  que  sofrem.  Esse 
esclarecimento pode dissolver o medo como a luz desmancha a escurido.
      Quando sofro dor, tento refletir sobre o bem que a dor  pode produzir em mim, conforme a promessa da Bblia.  Em  Romanos 5:1-5,  Paulo  nos  diz  que   as 
tribulaes    produzem perseverana, experincia e esperana; portanto,  carter  e confiana ou intrepidez.
      Eu me perguntaria:
      - Como o sofrimento pode produzir tais qualidades?
      Produz perseverana, ou constncia, diminuindo o meu mpeto, forando-me a voltar-me para  Deus,  Provando-me  que  posso vencer a crise. Isso  fortalece  
o  carter,  e  os ltimos captulos  foram  cheios  de  exemplos  de    pessoas    que fortaleceram o seu carter atravs  do sofrimento. Continuo, ainda, a indagar 
como pode Deus estar envolvido no  processo do sofrimento.
      A certeza de que Deus pode usar o sofrimento para produzir estas qualidades  deveras confortante. Que o  sofrimento   temporrio e ser  um  dia  recompensado 
  o tpico  do captulo 15, mas o conhecimento deste fato pode tambm ser a chave para estabilizar a f sob provao.
      A Bblia est cheia  de  recursos    disposio  de  quem queira afugentar o medo e o desnimo. Ler as dificuldades de J, fustigado pelo temor de que Deus 
no se importasse   com ele, pode fazer com que  o  meu  medo  seja  mais  fcil  de suportar. A histria do amor  e  da  bondade  de  Deus,  que transparece em 
toda a Bblia, pode ser um blsamo   para  as minhas dvidas. E o conhecimento sobre a orao  a  um Deus amoroso pode repelir os esforos loucos de "aumentar  a 
f" na esperana de impressionar Deus. A  Bblia mostra que no  desta maneira que a orao funciona. Deus j est cheio de solicitude  amorosa;  no  precisamos 
impression-lo    com exerccios espirituais.
      O conhecimento da dor em si, das suas funes  medicinais, tambm  pode  ajudar-nos  a  ter  menos  medo.  Para    mim, pessoalmente, tornou-se muito mais 
fcil enfrentar  uma dor, depois de  compreender  a  sua  funo,  por  intermdio  da pesquisa do Dr. Brand. Este livro foi o resultado  da  minha prpria descoberta. 
O  sofrimento  amedronta    muito  menos quando se entende o seu papel e o seu valor.
Ajudando Outros
      O  psiclogo  Thomas  Malone  da   Clnica    Psiquitrica Atlntica diz que h na vida dois tipos de pessoas. Um grupo  doentio  e  eivado  de  insuficincias. 
Esto  sempre  se lastimando:
      - Por favor, gostem de mim; por favor, gostem de mim.
      O outro grupo  composto de pessoas suficientemente ss para serem aqueles que amam. O psiclogo afirma que a melhor cura para o primeiro grupo  ajud-los 
at o  ponto em  que  eles possam transformar-se em ajudadores e aptos a  amar  outros.
      Se  conseguirem  chegar  a   essa    posio,    preenchero automaticamente as suas profundas  necessidades de ateno e amor.
      Penso que haja uma situao semelhante entre os  sofredores.
      Psiquiatras e conselheiros descobriram que a  cura  pode  se processar, se os pacientes passarem a ajudar  os outros e  a dar um pouco de si, em  vez  de  
estarem  sempre  a  receber auxlio e ateno.
      Joni Eareckson contou-me o quanto se sentiu chocada ao descobrir que muitas pessoas aleijadas preferiam permanecer nas casas de reabilitao. Parecia-lhes 
mais  fcil    ficar ali, no meio de pessoas que compreendiam as suas  condies, do que enfrentarem o mundo "l fora". Joni tornou-se  a  sua lder,  esforando-se 
nos   exerccios,        animando-os, dando-lhes esperanas,  e  querendo  ser liberada.  O  mero processo  de  colocar-se  no    lugar    deles    revelou-se teraputico. 
Ela tornou-se mais forte. A  sua    auto-imagem melhorou, e ela cessou de pensar em si  como  uma  sofredora digna de piedade.
      Brian Sternberg passou por um processo emocional  semelhante quando comeou a falar nas conferncias  da  Associao  dos Atletas Cristos em diversos lugares 
dos Estados  Unidos,  e Leo  Beuerman  conseguiu  realizar-se  nas  suas  atividades comerciais.
Esperando Pela Dor
      Este livro comeou com a experincia de Claudia Claxton,  que se defrontou repentinamente com a  doena  de  Hodgkin  e  o espectro da morte. Conversei longamente 
com Claudia e o  seu marido sobre o fato de a crise pela qual atravessaram t-los unido, quando muitas crises  idnticas separam os casais.
      Por que  o  medo  e  o  desnimo  no  romperam  o  ntimo relacionamento dos dois? John, o marido, tinha uma  profunda compreenso do que se  passava,  pois 
era  assistente do capelo num hospital, onde vinha observando as  reaes  das pessoas  dor e  morte.
      - Tenho visto pacientes morrerem, - contou-me John. -  No  como nos espetculos  de  televiso  ou  nos  filmes  como Aeroporto. Nos filmes, casais que h 
anos vivem    brigando, quando se vm diante de  perigos,  esquecem  todas  as  suas diferenas e unem-se. Entretanto, no  assim na vida real.
      - Quando h uma crise na vida do casal, o  resultado    a caricatura do que j existe no seu relacionamento. Ns  dois j nos amvamos profundamente e entendamo-nos 
muito bem.
      Por essa razo, a crise uniu-nos ainda mais. Confivamos  um no outro. No houve  sentimentos  de  censura  ou  irritao entre ns dois. A crise da doena 
de Claudia apenas  trouxe  superfcie e aumentou os sentimentos que j existiam.
      De acordo com a opinio  de  John,  a  melhor  maneira  de preparar-se para uma crise  ter  uma  vida  profunda  e  de apoio mtuo enquanto se tem sade. 
Sofrimento mental  e  dor fsica so apenas um aviso de que h  um  problema;  so  os sintomas de uma doena, no a doena  em  si.  No  se  pode construir repentinamente 
bases de fora moral  a  partir  do nada; elas tm de vir desde o princpio  do  relacionamento.
      Quem aprende a confiar nos outros e  partilhar  a  vida  com eles quando tem sade, ter uma reao  mais natural  quando chegar a dor.
      V-se isso comumente nos diversos  modos  das  pessoas  se prepararem para a velhice, um perodo de  grande  sofrimento psicolgico. H um ditado: "Os jovens 
tm o semblante  com o qual nasceram; os velhos adquirem o semblante que  merecem."
      Aquilo que j  foi  vivido  cristaliza-se  na  personalidade menos flexvel da velhice. Nessa idade,  o  corpo  comea  a decair. Descobre-se que no se pode 
mais fazer o  mesmo que antes.  Evitam-se  os  espelhos,  porque  a    beleza    foi substituda por cabelos ralos, rugas,  e pele  manchada.  Os amigos morrem, 
a pessoa torna-se um peso para a famlia, e  fcil para o velho pensar que est apenas esperando a morte; -lhe extremamente  fcil imaginar que no est contribuindo 
com coisa alguma para a vida, e que apenas dela retira.
      J. Robeitson McQuiIkin, presidente da Faculdade Bblica  da Colmbia, foi certa vez interpelado por uma senhora  idosa, que enfrentava estes problemas:
      - Robeitson, por que Deus  permite  que  fiquemos  velhos  e enfraquecidos?  Por  que  tenho  eu  de  passar  por    este sofrimento?
      Depois de pensar um momento, ele replicou:
      - Acho que Deus planejou a fora e  a  beleza  da  juventude como um dom fsico. Mas a fora e a beleza  da  velhice  so dons espirituais. Aos poucos, vamos 
perdendo a   fora  e  a beleza que so temporrias para que possamos  concentrar-nos na fora e na beleza que duram  para  sempre.  Sendo  assim, estaremos ansiosos 
para deixar o que   temporrio, a  parte do nosso ser que est em decadncia, ansiosos para entrar no nosso lar eterno, celestial. Se  ficssemos  sempre  jovens, 
fortes e bonitos, era  bem possvel que  jamais  quisssemos deixar este mundo!
      Se h um segredo em lidar com o sofrimento,  o  mais  citado por aqueles a quem entrevistei combina  com  essa  linha  de pensamento.  Para  sobreviver,  o 
esprito  precisa     ser alimentado de tal maneira que seja  libertado  alm  do  seu corpo; e, assim, no final, o esprito triunfar. A f crist nem sempre  oferece 
recursos  para  o  corpo.    Nem  Brian Sternberg, nem  Joni  Eareckson  foram  curados,  apesar  de milhares  de  oraes.  Entretanto,  Deus   promete    fora 
sobrenatural para o esprito. Quando no h   mais  nada  em que se possa apoiar, nem na prpria pessoa,  Deus  l  est, firme como uma rocha.
      Falando a seus seguidores, Jesus constantemente enfatizava uma nova viso da vida, viso que ressaltava  o  esprito  e no o corpo. "No temais os que matam 
o corpo  e  no  podem matar a alma..." (Mateus 10:28), disse ele aos discpulos.
      Paulo escreveu sobre o mesmo assunto: "Ora, de  um  e  outro lado estou constrangido, tendo  o desejo de partir  e  estar com Cristo, o que  incomparavelmente 
melhor. Mas, por vossa causa,  mais necessrio permanecer na  carne."  (Filipenses 1:23, 24).
      O Livro  dos  Mrtires,  escrito  por  Fox,    geralmente considerado uma narrativa estranha, forjada, de pessoas  que procuraram ser  alvo  de  atenes 
mediante  o  sofrimento. 
      Entretanto, quem o ler cuidadosamente ficar impressionado com a verdade da expresso "o  sangue  dos mrtires  foi  a semente da igreja". Com o Cristianismo, 
entrou  no mundo  um novo pensamento: o corpo  habitao de um  esprito  eterno e,  assim,  todo  sofrimento  deve  ser  considerado    como infortnio temporrio 
que  somente  atinge    parte  do  ser humano.  Fox  registra  relatos  de  medonhas  e   incrveis torturas que os santos suportaram com hinos  de  louvor  nos 
lbios.  o triunfo do esprito sobre  o corpo.
      A dor no  apenas um fenmeno fsico. Atitudes de medo  e desnimo afetam a intensidade da dor. Mas temos os  exemplos inspiradores daqueles  que  demonstraram 
ser    o  esprito humano capaz de superar as  piores  circunstncias. Como  o homem  tanto corpo quanto  esprito, o Cristianismo  pode oferecer uma verdadeira 
e benfica esperana.
      Jamais achei que o  cristo  estaria  livre  de sofrimento, porque nosso Senhor sofreu. E cheguei   concluso  que  ele sofreu,  no  para  livrar-nos  do 
sofrimento,  mas    para ensinar-nos a suportar o sofrimento. Pois ele sabia que  no h vida sem sofrimento.
      Alan Paton Clamor, O querido pas 
      
O Antecessor
      O Cristianismo oferece uma contribuio enigmtica,  quase paradoxal queles que lutam com o  problema  do  sofrimento.
      Alguns, obviamente, no compreendem a sua mensagem. 
      Vejamos  uma  declarao  eloqente  de  uma  trabalhadora rural, migrante e me, conforme a narrativa de Robert  Coles no livro Migrantes, montanheses e mineiros.
      No ano passado fomos a uma pequena igreja em Nova Jersey... Na mesma cidade em que  nasceram  todos  nossos  filhos, inclusive o nen. O reverendo Jackson 
estava  l na  igreja, nunca vou esquecer o  nome  dele;  ele  nos  disse  que  nos calssemos, que devamos  estar  felizes  por  estarmos  nos Estados Unidos, 
porque  um pas cristo e no um  pas  sem Deus. Ento, o meu marido perdeu a pacincia; acho que ficou muito nervoso. Ele se levantou e comeou a gritar, foi 
sim!
      Chegou perto do reverendo Jackson e mandou que ele calasse a boca e no viesse falar a  ns,  os  migrantes.  Mandou  que voltasse para sua igreja, fosse onde 
fosse, e  nos  deixasse sozinhos e no ficasse  ali  em  p,  como  se  fosse muito bonzinho fazendo favor para a gente.
      Ento, ele fez a coisa pior que  podia:  pegou  a  Ana,  a nenezinha, e ps bem na cara dele, do ministro,  como nunca vi ningum fazer. No sei bem o que 
ele disse,  as  palavras certas, mas disse que ali estava a nossa Aninha,  que  nunca tinha ido ao mdico, mas estava doente... que a gente  no tinha dinheiro, 
nem para a Ana,  nem  para  os  outros,  nem para ns.
      Depois, ele levantou a Ana bem alto, mais alto  do  que  o reverendo, e perguntou por que ele no orava  por  ela,  por que no orava para os donos da plantao 
serem    castigados pelo  que  estavam  fazendo  com  a  gente,  com  todos   os migrantes. . . Da, meu marido comeou a  gritar,  cada  vez mais alto, contra Deus, 
que  ele  no  cuidava    da  gente, cuidava s e muito bem das outras pessoas dali.
      O reverendo respondeu, e esse foi o grande erro, se foi! O reverendo disse que era para a gente  tomar  cuidado  e  no comear a pr a culpa em Deus, a criticar 
e  a fazer  queixa dele, porque Deus no tinha nada que cuidar das  coisas  que os donos da plantao faziam, no tinha nada  a  ver  com  a vida da gente, aqui 
na terra.
      - Deus cuida do futuro de vocs. - Foi o que  o  reverendo disse, e, puxa, meu marido explodiu!  Acho  que  ele  gritou umas 10 vezes para o reverendo:
      - Futuro, futuro, futuro. - Da meu marido pegou a  Ana  e quase enfiou na cara do reverendo. A Ana comeou a chorar, a coitadinha, e ele perguntou ao reverendo 
qual o futuro"  da Ana, e perguntou o que  que ele, o reverendo, ia fazer,  se tivesse um "futuro" igual ao da gente. Disse depois  para  o reverendo que ele era 
igual    a  todo  o  resto,   ganhando dinheiro  custa da gente. Segurou a Ana to alto como pde, bem juntinho da cruz, e falou para Deus que era  melhor  ele 
no ter ministros  falando por ele, que era melhor  ele  ver as coisas  ele  mesmo,  e  no  ter  pregadores" - continuou falando pregadores, pregadores" - falando 
por ele.
      Quando acabou de falar dos pregadores, veio  para  junto  da gente. No havia um barulho  na  igreja,  no  senhor,  tudo quieto... at que uns homens falaram 
que ele tinha razo, que meu marido estava certo. . . e todo mundo bateu  palmas. 
      Achei tudo isso meio esquisito.
      Esta famlia de migrantes demonstra perfeitamente  o  dilema da dor e do sofrimento. Por que Deus permite um  mundo  onde h  crianas  doentes,  onde  falta 
dinheiro,  e      falta esperana? O problema deles no  abstrato nem filosfico.  humano.  o sofrimento da  filhinha  Ana  e  eles  no  vem soluo. Ser que 
Deus se importa com isso?
      Gostaria de ter uma resposta para o dilema daquela  famlia, mas no me  possvel. So pessoas que precisam  de  soluo para o seu problema, e no de conselhos. 
E  essa soluo  s vir, se algum corresponder s suas necessidades  com  amor verdadeiro.
      Mas, eu posso afirmar que num ponto aquele irado trabalhador rural estava completamente errado. Segurando a  filhinha  na cara do reverendo, e no alto perto 
da cruz,  ele  interpelou a Deus que descesse  terra e visse ele mesmo como era  esse mundo. No adiantava, ele disse, que Deus tivesse pregadores falando por ele.
      Acontece que Deus veio. Ele tornou-se um ente humano, ele viu e sentiu por si mesmo como este mundo  . Jesus  teve  o mesmo corpo que cada um de ns. As suas 
fibras  nervosas no eram binicas. Sentiam a dor, como todos sentem.  Este  fato histrico pode ter  muita  repercusso  sobre  o  medo  e  o desespero impotente 
dos  sofredores.  Este  fato  histrico ajuda-nos a enfrentar a dor.
O Homem Que Queria Ser Rei
      Pense naquilo que voc conhece da vida de Jesus. A  Bblia diz que no h tentao conhecida pelo homem que  Jesus  no tenha experimentado. Ele sentiu-se 
s,  cansado,    faminto, atacado  pessoalmente    por    Satans,    assediado    por aproveitadores, perseguido por inimigos poderosos.
      Jesus foi a nica pessoa que  pde  planejar  seu  prprio nascimento. Ele humilhou-se,  trocando  um  corpo  celestial perfeito por um frgil corpo de sangue, 
msculos  e ossos. 
      Quando ele comeou o seu ministrio,  o  povo  escarneceu:
      "Pode alguma coisa boa vir  de  Nazar?"... uma  antiga caoada tnica. Jesus, o caipira, o aldeo de Nazar. 
      E como era Jesus? H uma nica descrio  fsica  dele em toda a Bblia, e encontra-se no livro do profeta Isaas: No tinha aparncia nem formosura; olhamo-lo, 
mas nenhuma beleza havia que nos agradasse" (Isaas 53:2).
      Os seus vizinhos de infncia  expulsaram-no  da  cidade  e tentaram mat-lo. Os seus amigos duvidaram da  sua  sanidade mental. Os lderes da poca relataram 
orgulhosamente    que nenhuma  autoridade  ou  lder  religioso  acreditava  nele.
      Aqueles  que  o  seguiam  eram  um  heterogneo  grupo    de pescadores e camponeses,  entre  os  quais  aquele  migrante sentir-se-ia perfeitamente  vontade.
      As  promessas  feitas  por  Jesus  devem   ter    parecido tremendamente vazias  ao  povo  daqueles  dias.  Ele  acabou defrontando Pilatos, um perplexo governador 
romano. Do lado de fora, as massas gritavam:
      - Crucifica-o, crucifica-o!
      Ele que curou a tantos no pde salvar-se a si prprio.
      Um Rei, este homem? S se fosse de  "faz-de-conta"! jogaram um belo manto  de  prpura  sobre  ele,  mas  o  sangue  das pancadas de Pilatos escorreu pelas 
suas costas e pelas suas pernas, coagulando-se no pano.
      Este homem, Deus? Mais improvvel ainda. At mesmo para  os seus discpulos, que o tinham amado e seguido por trs anos, as perspectivas eram sombrias. Eles 
recuaram,  por  entre  a multido, temerosos de serem identificados com o falso  rei.
      Os seus sonhos de um soberano poderoso, capaz de banir a dor e o sofrimento do mundo, tornaram-se  pesadelo.
      A cena, com os cravos pontudos e morte sangrenta e  o  baque surdo da cruz ao cair no  buraco  aberto  no  solo,  j  foi contada tantas vezes, que ns, que 
nos horrorizamos  com  as notcias da morte de um cavalo de corrida ou de filhotes  de focas, nem mais prestamos ateno  quando  nos    novamente narrada. Foi 
uma morte horrvel, uma   execuo  muito  mais cruel do que as execues rpidas do mundo de hoje:  cmaras de gs, cadeiras eltricas, enforcamentos. Foi uma  
execuo que durou horas em frente  a uma multido escarnecedora.
      A humanidade de Jesus vergada pelo peso que carregava entrou em colapso quando, no apogeu da agonia,  ele,  o  mestre  da orao, descobriu repentinamente 
que suas oraes  no  eram ouvidas. Abandonado pelos homens, viu-se abandonado por Deus e gritou:
      - Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
      Foi  como  se  a  terra  entrasse  em  convulso.  O    solo estremeceu, pedras despedaaram-se,  os  tmulos  devolveram corpos mortos h muito tempo, e o 
sol escondeu-se da   terra por  trs  horas.  Incrivelmente,  o  Criador  do   Universo demonstrou uma  ltima  qualidade  humana,  a  coragem,  que nenhum soberano 
onipotente  seria  normalmente  chamado    a experimentar. A sua alma chegou ao ponto extremo, mas no se desintegrou.
      A morte de Jesus  a pedra angular da f  crist,  o  fato mais importante da sua vinda ao mundo. No  se  pode seguir Jesus sem defrontar  a  sua  morte; 
os  Evangelhos    esto repletos de detalhes. Ele profetizou sobre o que aconteceria durante  o  seu  ministrio,  mas  as  predies  s   foram compreendidas depois 
que aconteceram,  quando ento  tudo parecia acabado para os discpulos. Parecia que a  sua  vida tinha-se acabado prematuramente. Os seus seguidores ouviram as 
suas palavras triunfantes na  noite  anterior;  ao  v-lo gemer e contorcer-se na cruz, aquelas palavras devem  t-los assediado cruelmente.
No Mais Sozinhos
        Que consolo para o problema da dor e do sofrimento poderia vir  de  uma  religio  baseada  num  acontecimento  como  a Crucificao? Foi na cruz, que o 
prprio Deus  sucumbiu  dor.
      Acontece,  porm, que no estamos abandonados. O trabalhador rural com a sua filhinha  doente,  o  garoto  de seis anos sofrendo de leucemia, os angustiados 
parentes  dos acidentados de Yuba, os leprosos de Louisiana, nenhum deles precisa sofrer sozinho. Porque Deus esteve  entre  ns,  ele entende perfeitamente.
      O conceito da cruz deixado por Jesus no mundo, o  conceito mais universal da religio crist,  prova de que Deus muito se importa com o nosso sofrimento, 
com a    nossa  dor.  Ele morreu de dor. Atualmente a cruz  coberta de ouro e  levada ao pescoo por lindas garotas, o que mostra o  quanto  nos temos desviado 
da realidade histrica. Mas  o smbolo   vlido, o nico entre todas as religies  do  mundo. Muitas delas tm deuses. Mas o Cristianismo  tem  um  Deus que  se 
preocupa com o homem de tal maneira  que se tornou  homem  e morreu. Dorothy Sayers diz: Seja qual for o motivo pelo qual Deus resolveu fazer o homem como ele , 
limitado, sofredor e sujeito a tristezas e morte, ele  teve  a  honestidade  e  a coragem de  tornar-se tambm homem.  Seja  qual  for  o  seu plano para com a sua 
criao, ele cumpriu as  suas  prprias regras e foi justo. Nada exigir do  homem,  que  no  tenha exigido  de si mesmo. Ele prprio  sofreu  toda  a  gama  da 
experincia humana, desde as irritaes triviais da vida  em famlia, desde as  restries  constrangedoras  do  trabalho pesado, desde a falta de dinheiro at os 
piores horrores  da dor e da humilhao, derrota, desespero e morte. Quando  ele foi homem, agiu como homem. Ele nasceu na  pobreza e  morreu na desgraa, e achou 
que valeu a pena.
      Para alguns, a imagem de um corpo plido tremendo numa noite escura d idia de derrota. Que bondade h num Deus que  no controla o sofrimento do seu filho? 
Que  bem pode  tal  Deus fazer  humanidade? Todavia, pode-se ouvir um som mais alto: o som de um Deus gritando ao homem:
      - Eu o amo.
      O amor foi condensado para todos os  seres  humanos  naquela figura solitria e ensangentada. Jesus, que tinha declarado que poderia chamar os  anjos,  a 
qualquer  momento,    para salv-lo do horror, escolheu no faz-lo, por  nossa  causa.
      Porque Deus nos ama de tal maneira, que mandou o  seu  nico Filho morrer por ns.
      Deste modo, a cruz, que  um eterno empecilho  para  alguns, tornou-se a pedra angular da nossa f. Qualquer debate sobre a dor e o sofrimento entrosados no 
sistema  divino leva-nos, realmente, de volta  cruz.
      Sujeitando-se Jesus  dor, de certo modo ele  dignificou-a.
      De todas as vidas que ele poderia ter vivido,  escolheu  uma vida sofredora.  por causa de Jesus, que jamais posso dizer de algum:
      - Deve estar sofrendo por ter  cometido  algum  pecado. - Jesus no pecou, mas sentiu dor. Tambm no posso dizer:
      - Sofrimento e dor devem significar que Deus  esqueceu de ns; ele deixou-nos ss  para  a  autodestruio. - Embora Jesus tenha morrido, a sua morte tornou-se 
a grande  vitria do mundo, unindo Deus e o  homem.  Deus  transformou  aquele terrvel dia em um bem supremo.
      Os seguidores de Jesus no  esto  isentos  das  tragdias deste mundo, bem como ele no esteve.  Deus  nunca  prometeu que os tornados no atingiriam as nossas 
casas    quando  em direo das casas dos nossos vizinhos pagos.  Os  micrbios no fogem dos corpos cristos. Entretanto, Pedro pde  dizer aos sofredores cristos: 
"Porquanto  para isto mesmo  fostes chamados, pois que tambm  Cristo  sofreu  em  vosso  lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes  os  seus  passos"  (1Pedro 
2:21 ). A Bblia ainda  vai  alm,  usando  expresses que  no  tentarei  explicar,  como  "participantes  do  seu sofrimento" e "completai o seu sofrimento", indicando 
que  o sofrimento pode ser,  no um horror a ser evitado a  todo  o custo, mas um meio de graa para tornar-nos  mais  parecidos com Deus.
A lembrana de Jesus
      Qual o resultado prtico da identificao de Cristo com a pessoa que sofre? J vimos os exemplos de Brian Sternberg e Joni Eareckson. Ambos narraram a fortaleza 
conseguida por eles quando compreenderam que Deus tambm tinha suportado  a dor.  Um  dramtico  exemplo  desta  compreenso  pode   ser observado  no  ministrio 
do  Dr.  Paul    Brand,    quando trabalhava entre os leprosos em Velore, na ndia. Ele pregou ali um sermo, um dos mais conhecidos e dos mais apreciados.
      Naquela ocasio, Brand e  os seus auxiliares  estavam  entre os poucos daquela regio capazes de tocar ou de aproximar-se de algum com o mal de Hansen. O 
povo da cidade afastava-se dos leprosos.  Brand entrou discretamente numa  reunio  dos doentes, e sentou-se numa esteira no ptio, ao ar  livre.  O ar  estava  
pesado  com  os  diversos  odores   de    corpos amontoados,  misria, condimentos velhos, ataduras imundas.
      Os doentes insistiram com o Dr.  Brand  para  que  ele  lhes falasse algumas palavras, e  ele  relutantemente  aquiesceu.
      Ficou de p, sem saber o que dizer, olhou para  os pacientes  sua frente. Seu olhar pousou  nas  suas  mos,  dezenas  e dezenas, quase todas viradas para 
dentro, na posio  tpica do leproso, mos que pareciam garras,   algumas  sem  dedos, outras ainda com alguns tocos. Muitos deles sentavam em cima das mos, para 
escond-las.
      - Sou um cirurgio mdico, especialista em mos, - comeou ele, e aguardou que fosse feita a traduo para o tamil  e para o hindi. - Por esse motivo, toda 
vez que   me  encontro com  algum, olho  instintivamente  para  as  suas  mos.  O quiromante diz que pode contar o futuro pelas mos. Eu posso contar o passado. 
Por exemplo, posso  dizer qual o  trabalho de uma pessoa pela posio dos calos  e  pela  condio  das unhas. Posso at dizer  algo  sobre  o  carter  da  pessoa; 
realmente, gosto muito de mos.
      Fez uma pausa e olhou  para  aquelas  fisionomias  ansiosas.
      - Como eu gostaria de ter tido a oportunidade de encontrar-me com Cristo e estudar as suas mos! Mas, sabendo    como  ele era, posso quase imagin-las, posso 
quase senti-las.
      Parou novamente, e depois passou a imaginar como teria  sido o seu encontro com Cristo e o que ele falaria das suas mos.
      Ele descreveu as mos de Cristo,  desde  a    sua  infncia, quando ainda eram pequenas, desajeitadas, tentando pegar  as coisas inutilmente. Falou, depois, 
das mos do menino Jesus, pegando desajeitadamente um   pincel  ou  um  estilete  para tentar desenhar as letras do alfabeto. Chegou depois s mos do  carpinteiro, 
speras,  cheias  de  ndoas,  com   unhas quebradas e contuses  causadas pela serra e pelo martelo.
      Passou a falar das mos de Cristo, o mdico, o  restaurador.
      Parecia que a compaixo e  a  sensibilidade  irradiavam  das suas mos, pois quando ele tocava as pessoas   elas  sentiam que algo de divino vinha delas. Cristo 
tocou  os  cegos,  os enfermos, os necessitados.
      - Ento, - continuou o Dr.  Brand,  -  as  suas  mos foram crucificadas.  Sofro  s  ao  pensar  que  um  prego   possa atravessar o centro da  minha  mo, 
pois  sei  que  h  ali dentro  um  enorme  conjunto  de  tendes,  nervos,    vasos sangneos  e  msculos.    impossvel  fazer   um    cravo atravessar o centro 
da mo, sem incapacit-la. Quando  penso que  aquelas  mos  benfazejas  e  curadoras  sofreram   tal tortura, isso me lembra do quanto Cristo estava  preparado 
para suportar.  Deixando  que isso acontecesse, ele identificou-se com  todos  os  seres  humanos deformados e aleijados existentes neste mundo. Ele no somente 
foi capaz de suportar a pobreza com os  pobres,  o  cansao com  os cansados, mas... tambm teve as mos dilaceradas, as  mos de garra, dos aleijados.
      O efeito sobre os pacientes  que  o  escutavam,  todos  eles prias da  sociedade,  foi  eletrificante.  Jesus...  um aleijado, com as mos dilaceradas, mos 
de garra, como as deles?
      Brand continuou:
      - Mas, vieram depois as suas mos ressurretas. O que mais me admira  que, apesar de pensarmos na vida futura  como  algo perfeito, quando Cristo apareceu 
aos seus    discpulos  ele disse: "V as minhas mos" e convidou Tom para pr  o  dedo na marca deixada pelo prego. Por que ele quis continuar  com os ferimentos 
da sua humanidade?   No  seria  por  que  ele queria levar de  volta  consigo  uma  lembrana  eterna  dos sofrimentos das pessoas aqui na terra? Ele levou consigo 
os sinais do sofrimento para  que pudesse continuar a  entender as necessidades daqueles que sofrem. Ele  quis  ser  um  dos nossos para todo o sempre.
      Ao terminar, Paul Brand observou novamente  as  mos,  todas elas levantadas, por todo o ptio, palmas  com  palmas,  num gesto de respeito indiano, o namaste. 
Eram os  mesmos tocos, as  mesmas  mos  sem  dedos,  as  mesmas  mos  encurvadas.
      Entretanto, ningum tentava escond-las.  Elas  ali  estavam erguidas, perto do rosto, em homenagem  a Brand, mas  tambm com um novo sentimento de orgulho 
e dignidade. A  reao  de Deus ao prprio sofrimento tornou mais fcil a reao deles.
      T. S. Eliot escreveu em um dos seus Quatro Quartetos:
    O cirurgio ferido maneja o ao
    Que contesta o elemento  sem tmpera;
    As  mos  sangrentas  concedem,  sentimos,
    A  bem marcante compaixo do mdico divino
    Solvendo  o  enigma  da febre.
    A cirurgia da vida fere.
    No entanto, consola-me saber que  o
    Prprio Cirurgio, o
    Cirurgio Ferido, sentiu as  punhaladas
    da dor e todas as tristezas.
    No pergunto ao ferido como se sente,
    eu mesmo me torno  uma pessoa ferida.
    Walt Whitman
O Resto do Corpo
      Mesmo com o exemplo da sua vida,  morte  e  ressurreio,  a misso de Jesus na terra no foi terminada.  "Construirei  a minha igreja", declarou ele, "e as 
portas do    inferno  no prevalecero contra ela."
      Nestes quase 2.000 anos, a  igreja  esteve  sem  a  presena visvel de  Cristo.  No  podemos  levar  as  pessoas  a  um lugarejo do Oriente Mdio para que 
o nosso lder as    cure.
      Ao contrrio, ele deixou a sua mensagem com pequenos  grupos de fiis que se reuniam para ador-lo.  Refletindo  sobre  o papel da igreja sem o seu lder visvel, 
o  apstolo  Paulo fez a analogia do corpo de Cristo, a qual , para  mim,  uma das melhores em toda a Bblia. Cristo  a cabea  invisvel, disse Paulo, e ns somos 
os membros do seu  corpo.  Estamos organicamente ligados com a parte  restante  da  igreja,  e, como os bilhes de clulas individuais do nosso corpo,  cada um de 
ns pode  afetar a sade e a sobrevivncia de  todo  o corpo. Quais so as dedues desta analogia? Haver no corpo de Cristo a estrutura da dor como no nosso corpo?
O Rei Que Se Tornou Servo
      Todos os cristos esto  familiarizados  com  a  idia  de Cristo como Senhor. Entendemos o fato de ele, como cabea  do corpo, dirigir a sua  igreja  no  
mundo.  Teremos,    porm, negligenciado outra faceta da analogia: as limitaes que  a cabea tem?
       uma impressionante e misteriosa verdade que Deus,  de uma maneira estranha, limitou-se. Quando ele resolveu no ser  o corpo  inteiro,  mas  apenas  a  cabea 
invisvel, Jesus tornou-se, de certo modo, servo do corpo.
      Mesmo durante a sua  vida  aqui  na  terra,  Jesus  estava preparando-nos. Em que foi que  ele  demonstrou satisfao?
      No foi como realizador de atos sobrenaturais. J  mencionei a tendncia que Jesus tinha em "minimizar" a repercusso dos seus milagres, tendo-os realizado 
s  vezes  relutantemente.
      Mas Lucas 10 registra o  exemplo    de  um  fato  que  muito alegrou a Jesus. Ele mandou setenta dos seus seguidores  aos lugarejos circunvizinhos e esperou 
por eles. Quando voltaram e contaram as extraordinrias  vitrias,  como  expulso  de demnios, Jesus proferiu uma torrente de exultao e  louvor espontneo. Ele 
estava verdadeiramente emocionado.
      O prprio Jesus no fez o trabalho dos setenta; limitou-se a dar-lhes instrues e a envi-los. A experincia  foi  bem sucedida, provando que o seu trabalho 
podia   ser  realizado por seus inexperientes seguidores. O plano de Jesus foi o de entregar a mensagem do evangelho nas mos de homens vaidosos e imperfeitos. Limitou-se 
a ser a cabea da igreja.  Deixou os braos, pernas, ouvidos, olhos e a voz para um  grupo  de discpulos incompetentes. . . e para voc e para mim.
      A deciso de Jesus de agir como cabea de  um  grande  corpo afeta a nossa opinio  sobre  o  sofrimento.  Ele  nos  usa, freqentemente, para ajudarmos uns 
aos outros quando   surge o sofrimento. De certo modo, a dor  uma  luta  pessoal  que ningum pode ajudar a suportar. Mas um  corpo  constitui  um complexo, dentro 
do  qual  dores  individuais    podem  ser cuidadas, tratadas, e talvez curadas.
      A dor fsica  til porque fora o  corpo  a  cessar  outras atividades e concentrar-se na causa da dor. Se um jogador de basquete quebrar o pulso, ele precisar 
deixar    o  jogo  e tratar dele at que sare. Da mesma maneira, ns, os membros do corpo de Cristo, devemos aprender a devotar-nos s  dores do  resto  do  corpo. 
Podemos  tornar-nos    a   encarnao emocional do corpo de Cristo.  Assim  como  o  mundo  jamais ouvir as Boas Novas,  a  no  ser  pelos nossos  esforos, tambm 
a igreja de Cristo jamais  experimentar    a  reao curativa do sofrimento, a menos que aprendamos  a  focalizar as dores do corpo e a agir como agentes curativos. 
      O Dr. Paul Brand desenvolveu esta idia como a chave da  sua filosofia pessoal:
      As clulas individuais precisam desistir da sua autonomia  e aprender a sofrer umas com as outras antes que os organismos multicelulares possam ser produzidos 
e depois sobreviver.  O mesmo planejador criou tambm a raa humana, tendo em  mente um propsito novo e mais elevado. No somente as clulas  do corpo humano devem 
cooperar umas com as outras para que haja harmonia no organismo, como tambm  os  indivduos  da  raa humana devem sentir-se responsveis uns pelos outros  de tal 
modo que haja um novo relacionamento entre os indivduos,  e entre esses e Deus.
      Tanto  no  corpo  humano  como  nesta  nova    espcie    de relacionamento, a chave do sucesso est na sensao de  dor.
      Todos ns nos regozijamos com o perfeito funcionamento    do corpo  humano.  Entretanto,  quando  se   trata    do    mau relacionamento existente entre os 
homens, nada mais  fazemos a no ser entristecer-nos. Na sociedade humana porque  ainda no sofremos suficientemente continuamos a sofrer.
      Grande parte da tristeza existente no mundo tem como  motivo o egosmo do ser humano, que simplesmente  no  se  incomoda com o sofrimento do prximo. No corpo 
humano,    quando  uma clula ou um grupo de clulas cresce e desenvolve-se  custa do resto do organismo, chamamos isso  de  cncer  e  sabemos que, se lhe for 
permitido  multiplicar-se, o corpo  est condenado.  importante notar o seguinte: para que o  cncer no se desenvolva,  preciso que haja absoluta  lealdade  de 
cada clula para com o corpo  e para com a cabea. Nos  dias de hoje, Deus est incitando-nos a  aprender  com  os  seres mais elementares da sua criao e, ento, 
em um  nvel  mais elevado, aplicar   esses  ensinamentos,  participando  desta comunidade que  ele  est  preparando  para  a  salvao  do mundo.
Gritos e Sussurros
      Nada h que  possa  unir  tanto  os  nossos  corpos  como  a estrutura da dor. Uma unha  infeccionada,  no  dedo  do  p, proclama alto e bom som que aquele 
dedo  importante, que   meu, que precisa de ateno. Se algum pisar  no  meu  dedo, vou gritar:
      - Ei, o de baixo  meu!
      E isso eu sei muito bem, porque naquele momento algum  est se apoiando num sensrio da dor. E eu  sou  delimitado  pela dor. Quando os gritos de  dor  so 
ignorados,    ou  talvez quando a pessoa se torna calejada  e  insensvel  a  eles  e deixa parte do seu corpo deteriorar-se, o corpo caminha para a autodestruio. 
Lembremo-nos do  exemplo  da  criana  que mordeu o prprio dedo, brincando depois com o sangue, porque havia perdido o sentido do tato. No  tinha  conscincia 
de que o dedo  fazia  parte    do  corpo,  uma  parte  que  ela precisava proteger.
      Sabe-se que os lobos devoram uma das suas  pernas  traseiras quando ela se torna dormente no frio  inverno.  A  dormncia interrompeu a unidade do corpo; evidentemente 
eles no mais percebem a perna como parte do corpo.
      Lbano, Rodsia, Irlanda so altos gritos de dor  vindos do corpo de  Cristo.  Dissenes  em  Snodos.  Escndalos com alguns lderes cristos. Ser que paramos 
para   escut-los?
      Qual a nossa reao? Ou ser que, pela dormncia, permitimos que eles se destruam, sacrificando um  membro  do  corpo  de Cristo? Os gritos de dor nem sempre 
esto  longe  de  ns; sempre h alguns em todas as igrejas, em todas  as  posies eclesisticas. Desempregados, divorciados,  vivos, acamados, decrpitos, velhos. 
.  . estamos procurando escut-los?
      Atravs dos anos, a igreja crist, segundo a opinio  geral, tem feito um trabalho medocre quanto ao  corpo  de  Cristo.
      Parece, s vezes, que ir devorar a si prpria, como  por exemplo durante a Inquisio e nas guerras religiosas. Mesmo assim, Cristo,  comprometido  com  o 
livre-arbtrio,  ainda conta conosco para cumprir a sua vontade  no  mundo,  com  o poder do Esprito Santo.
      Ouamos algum que conhece a  lealdade  devida  ao  corpo:
      "Quem enfraquece, que tambm  eu  no  enfraquea?  Quem  se escandaliza, que eu no me inflame?" (2 Corntios    11:29).
      Ou ainda: "Lembrai-vos dos encarcerados, como se presos  com eles; dos que sofrem maus tratos, como se, com  efeito, vs mesmos em pessoa fsseis os maltratados" 
(Hebreus 13:3).  Ou ainda outra voz:
    A igreja  catlica, universal, do mesmo modo  que  as  suas aes; tudo o que ela faz pertence a todos, quando a  igreja batiza uma criana, isso me afeta, 
pois aquela  criana est desde ento relacionada com a cabea  que    minha  cabea, incorporada a um corpo do qual tambm sou membro. E quando a igreja enterra 
um homem, isso  me afeta, pois  a  humanidade toda  do mesmo Criador, e  uma coisa s; quando  um  homem morre,  o  captulo  no    arrancado  do  livro,  mas 
sim traduzido  para  uma  linguagem    melhor;  portanto,   cada captulo  precisa  ser  traduzido.  Deus  emprega   diversos tradutores; h captulos traduzidos 
pela idade, alguns  pela doena, alguns pela guerra, outros pela justia; todavia,  a mo de Deus est em  cada traduo, e a  sua  mo  levantar todas as folhas 
para traz-las para aquela biblioteca,  onde cada livro estar aberto um para o outro... O homem no   uma ilha, bastando-se a si prprio; cada homem   um  pedao 
do continente, uma parte do todo.  Um  torro  levado  pelas guas do mar  significa  perda  para    o  continente,  como significaria perda se desaparecesse um 
promontrio, ou a sua propriedade, ou a do seu amigo; a morte  de  qualquer homem diminui o meu prprio ser,  pois fao tambm parte do gnero humano. Jamais preciso 
indagar por  quem  os  sinos  dobram, eles dobram por mim e por ti.
    Se o homem levar o seu tesouro em lingotes de  ouro,  e  no tiver coisa alguma em moeda corrente,  o  seu  tesouro  ser intil quando estiver viajando. A  
tribulao      ouro  em lingote, no  moeda corrente para o uso dirio; mas  com  o seu auxlio chegamo-nos cada vez mais  perto  do  nosso  lar celestial. Algum 
pode estar terrivelmente   doente,  e  sua aflio pode ser muito profunda, como o ouro  numa  mina,  e no lhe ser de nenhuma utilidade. Mas os sinos que me  contam 
da sua aflio podem retirar  o ouro, que ser  de  proveito para mim. Isso se,  ao  considerar  o  mal  dos outros,  eu refletir sobre o mal que h em mim e recorrer 
a Deus, que   a nossa nica segurana.
    Levai as cargas uns dos outros, diz a Bblia.    uma lio sobre dor que todos concordam. Alguns no acham  que  a  dor seja uma ddiva; outros acusam Deus 
de  ser  injusto    por permiti-la. Mas o fato permanece que a dor  e  o  sofrimento habitam conosco, e precisamos reagir. A reao de Jesus  foi carregar os fardos 
daqueles que ele tocava.  Para  viver  no mundo  como  o  seu  corpo,  a  sua  encarnao   emocional, precisamos seguir o seu exemplo.
    "Bendito seja o Deus e Pai. . .", diz Paulo. " ele que  nos conforta em toda a nossa tribulao, para podermos  consolar aos que estiverem em qualquer angstia, 
com    a  consolao com que ns mesmos  somos  contemplados  por  Deus. Porque, assim como os sofrimentos de Cristo se manifestam em  grande medida a nosso favor, 
assim  tambm    a  nossa  consolao transborda por meio de Cristo" (2 Corntios 1:3-5).
    O plano que Deus tem para o seu corpo sintoniza-se  com  a maneira pela qual ele est  trabalhando  no  mundo. Algumas vezes ele interfere no relacionamento 
dos membros,   fazendo milagres,  dando  freqentemente  uma  fora sobrenatural queles que dela necessitam. Mas, na maioria das vezes,  ele conta conosco, que 
somos os seus agentes,  para fazer o  seu trabalho neste mundo. Anunciamos a sua mensagem, trabalhamos para a sua justia, oramos por misericrdia e...  sofremos 
com os sofredores. Precisamos  confortar uns aos  outros,  e transmitir a cura; assim fazendo, seremos reconhecidos  como o corpo de Cristo e ele, a cabea, receber 
a glria.
    As  pessoas  morrem  da  maneira  que  viveram.  A morte torna-se a expresso de tudo o que  se  foi,  e  s  podemos levar para a morte aquilo que trouxemos 
para a vida.
    Michael Roemer
    Produtor de Morte
      
Um Perfeito Mundo Novo no Alm
      Para aqueles que sofrem, o Cristianismo oferece  uma  ltima contribuio, a mais importante de todas.  Como  j  tivemos oportunidade de observar, a Bblia 
toda,  3.000    anos  de histria, cultura e drama humanos, focaliza como  uma  lente de aumento a sangrenta morte no  Calvrio.    o  clmax  da histria, a pedra 
angular. Mas no o fim  da histria. Jesus no permaneceu na cruz. Depois de passar trs dias na  tumba escura, ele foi visto com vida novamente. Vida! Seria  mesmo 
possvel? Os seus discpulos,  no comeo,  no  acreditaram.
      Ele, porm, apareceu a eles  deixando-os  tocar-lhe  o  novo corpo.
      Cristo deu-nos a possibilidade de uma vida futura sem  dor e  sem  sofrimento.  Assim,  todas  as  nossas  dores    so temporrias. Teremos um futuro sem 
dor.  Nos  dias  atuais, quase nos sentimos embaraados ao falar sobre  a  crena  de uma vida futura perfeita com recompensas e punies baseadas em  nosso  procedimento 
aqui  na  terra.  Uma  vida    alm parece-nos um modo fcil, estranho e covarde  de  fugir  aos problemas deste mundo. Os muulmanos negros tm  um  costume funerrio 
que rivaliza com alguns  dos  costumes    cristos pela sua estranheza. Quando o corpo est exposto, os  amigos ntimos e a famlia rodeiam o esquife e ali,  todos 
em  p, olham silenciosamente para o morto.  No  h  lgrimas,  nem flores, nem  canto.  As  irms  muulmanas  passam  pequenas bandejas das quais todos tiram 
uma pastilha de hortel. A um dado sinal, colocam-nas  na boca. Vagarosamente as pastilhas se derretem, e, ao sentirem a doura, meditam na  doura  da vida que 
eles esto comemorando. Quando a pastilha se acaba, isso  tambm tem um significado. Simboliza o  fim  da  vida. 
      Ela simplesmente dissolve-se, no mais existe.
      H algo no homem que se rebela contra tal crena. De  onde vem a palavra "Imortal"? Por  que    assassinato  matar  um homem e no o  matar um gato?
      Poderemos concordar  com  os  muulmanos  negros,  com  os materialistas, com os marxistas  que  este  mundo,  corrodo pelo infortnio e pelo sofrimento, 
 o fim do  homem?    Tal noo apareceu somente depois  de  7.000  anos  de  registro histrico.  Todas  as  sociedades  primitivas  e  todas   as culturas antigas 
acreditavam numa vida aps a terrena.   (Se no fosse pelas suas crenas,  o  trabalho  dos  arquelogos teria sido muito difcil, pois os antigos deixaram  indcios 
culturais nos tmulos.)
A Mudana Que Est Para Vir
      Em contraste, os cristos esperam por um mundo onde  toda  a lgrima ser enxuta e onde todo o  sofrimento  desaparecer.
      Temos metforas no muito comuns para descrever  a vida aps a morte, tais como estradas de ouro e  portes  de  prolas, que simbolizam para os escritores 
o  mximo  de  esplendor.
      Seja o cu como for, no haver nele   o  desconforto  desta vida. Novos prazeres, no imaginados, faro  parte  da  vida futura,  temos  vislumbres  do  que 
ela   ser,    ligeiros sentimentos de uma profunda alegria,  to efmera agora,  mas ento realizada e permanente.
       como se estivssemos fechados num quarto escuro,  como  no livro Sem Sada de Sartre. Mas,  frestas  de  luz  conseguem infiltrar-se - virtude, glria, amostras 
da verdade    e  da justia - convencendo-nos de que  alm  das  paredes  h  um mundo que vale todo o sofrimento aqui suportado.
      A esperana que esta crena pode trazer a algum  prestes  a morrer est claramente ilustrada num filme  documentrio  de 1976, que foi apresentado  pela  
Rede  Norte-Americana    de Televiso. O diretor-produtor Michael Roemer filmou Morte em Boston. O filme apresenta os ltimos meses de  atividade  de diversos pacientes 
cancerosos desenganados.  Entre eles,  h dois casos que demonstram o mximo de desespero e  o  mximo de esperana.
      Harriet e BilI, este de 33 anos, so vtimas de  um  colapso nervoso. Preocupada com a perspectiva  de  ficar viva  com dois filhos, Harriet ataca violentamente 
o esposo que  est s portas da morte.
      - Quanto mais isso se prolongar, pior ser para todos  ns -. Diz-lhe ela.
      - O que aconteceu com a meiga e suave  garota  com  quem  me casei? - pergunta Vili. Harriet conta ao entrevistador:
      - Aquela garota meiga est sendo torturada pelo cncer do marido. Quem vai querer uma viva com dois filhos de 8 e 10 anos? Eu no queria que ele morresse, 
mas  se tem de morrer, por que no morre logo?
      Nas ltimas semanas  de  vida  em  comum,  a  famlia  no suporta o medo da morte. Atacam-se mutuamente,  queixando-se e gritando, destruindo o amor e a confiana. 
O  espectro  da morte  demasiadamente grande.
      Todavia, o Rev. Bryant, de 56 anos, tambm  s  portas  da morte, pastor de uma Igreja Batista de negros, apresenta  um contraste surpreendente.
      - Justamente agora, - diz ele,  -  estou  vivendo  um  dos maiores momentos da minha  vida.  Acho  que  nem Rockfeller chegou a ser to feliz como eu.
      A cmara focaliza o Rev. Bryant pregando  sua congregao sobre a morte, lendo a Bblia para os seus netos, e  fazendo uma viagem ao Sul para visitar o local 
em  que nascera.  Ele manifesta uma calma serenidade  e  confiana  de  quem  est apenas dirigindo-se para o lar, para um lugar sem dor.
      No seu funeral, o coro batista canta  "Ele  dorme".  E,   medida que as pessoas passam pelo esquife, alguns  tocam-lhe a mo ou o peito.  Eles  sabem  estar 
perdendo um amigo querido, mas s  por  um  pouco  de  tempo.  O  Rev.  Bryant defronta-se com um comeo e no com um fim.
      Qualquer  debate  sobre  a  dor    incompleto  sem esta perspectiva sobre a sua natureza  temporria.  Um  polemista hbil poderia possivelmente convencer 
algum de que  a dor  uma coisa boa, melhor do que qualquer alternativa  permitida por Deus. Talvez. Mas, na realidade, a dor  e  o  sofrimento so muito menos 
do que se pensa. Como imaginar a eternidade?
       to mais extensa do que a nossa curta vida aqui  na  terra que se torna difcil at mesmo visualiz-la. Pode-se  traar uma linha de giz  de ponta a ponta 
num quadro-negro de  trs metros, e depois fazer na linha um pequenino  crculo.  Para uma clula microscpica de um germe, localizada no  meio  do crculo,  o trao 
pareceria enorme. A clula  poderia  levar toda a vida explorando o  seu  comprimento  e  largura.  At mesmo um ser humano, que se afaste para melhor observar o 
quadro-negro, se admirar e achar imenso  aquele  trao  de trs metros  em  comparao  com  o  crculo  que  a  clula chamaria de seu lar.
      O mesmo acontece com a eternidade comparada com esta vida.
      Setenta anos  muito tempo, e d para termos muitas idias a respeito  de  Deus  e  da  sua  aparente  indiferena     ao sofrimento  ao  longo  daqueles  
setenta  anos.  Mas,   ser razovel julgar Deus e o seu  plano  para  o  universo  pela pequenina amostra de tempo que passamos aqui na terra? To pouco razovel 
quanto  o    para  aquela  pequenina clula julgar um quadro-negro inteiro pela pequena  mancha de  giz onde ela passa a vida. Ser um julgamento justo? Ser que 
nos falta a perspectiva do universo e do infinito?
      Quem  se  queixaria  se  Deus  permitisse  uma  hora    de sofrimento numa vida inteira de conforto?  Por  que,  ento, nos queixamos de uma  vida  que  inclui 
sofrimento,  quando aquela vida  apenas uma hora dentro da eternidade?
      Segundo o esquema cristo, este mundo e o tempo  que aqui passamos no so tudo o que  existe.  A  terra    um campo experimental, um ponto na eternidade, 
mas um  ponto muito importante, porque Jesus disse que o nosso  destino depende da nossa obedincia aqui. Na prxima  vez  que  voc quiser clamar contra Deus em 
desespero angustiante,  pondo toda  a culpa nele por estar neste mundo miservel, lembre-se de que foi apresentado menos de um milionsimo da evidncia, e  que  
esse milionsimo que desfralda  a bandeira da rebeldia.
Ainda No
      O  escritor  Thomas  Howard  comenta  que   a    dor real  do sofrimento no  a dor do  momento,  pois  mrtires  tm provado que essa dor pode ser bem suportada. 
A grande  mgoa  que Deus parece ter os olhos fechados. Parece que os  seus ouvidos esto tapados  com  cera.  Lemos  na  Bblia  muitos relatos de cura, vemos 
outros testemunhos na  televiso, e ns ou nossos queridos continuamos  a ser  consumidos pela doena. Onde est Deus? Por que ele nos evita? Por que no responde? 
A nica resposta que  conseguimos    o  silncio mortal.
      Nada.
      Nesses casos, a Bblia no auxilia  muito,  pois  ao lado da ressurreio do  filho  da  viva  de  Naim,  muitos outros filhos permaneceram mortos. Pedro 
foi  libertado  da priso; Joo Batista foi executado.  Paulo  foi  usado  para curar pessoas, mas o seu pedido para a prpria cura no  foi atendido.
      Howard destaca duas passagens  surpreendentes  pela  lio que oferecem:
      O sepultamento de Lzaro e a conversa na  estrada para Emas. Poderamos, porm, contestar:
      - Ambas tiveram uma concluso  dramtica  alm  de  feliz.
      Isso no acontece agora. - Mas o tempo  de  espera  de  cada histria pode trazer-nos um ensinamento: os quatro  dias  em que o corpo de Lzaro apodrecia  
no  tmulo  e  sua famlia chorava lgrimas de desapontamento pela aparente  indiferena de  Jesus;  e  os  dias  em  que  os  discpulos     estavam convencidos 
de  que  o  reino  dos  cus  tinha  sofrido  um colapso. Aqueles dias  (Lzaro  morto  e  Jesus  no  tmulo) formam  um  paralelo  com  os  tempos  de  angstia, 
que despendemos, com coraes ansiosos,  defrontando-nos  com  a dor. Aqueles seguidores aniquilados haviam visto Jesus curar muitas pessoas. Por que no tinha ele 
agido?  Seria  porque eles tinham f pequena? Como, ento,  conseguir    mais  f?
      Naqueles dias de  depresso,  parecia-lhes  que  Deus  havia passado de largo.
      Analisando, agora, ambas as histrias, podemos ver  como  as peas se ajustam. Em quatro dias, as duas tiveram  um  final triunfante. Tanto Lzaro como Jesus 
voltaram   vida.  Todos regozijaram-se. Na verdade, a histria  de  ambos  tornou-se mais exultante porque houve morte.
      Howard comenta aqueles dias de depresso:
    A questo  que por um nmero X de dias a experincia deles foi de fracasso. Para ns,  infelizmente,  o  "nmero  X de dias" pode ser grandemente multiplicado. 
E no nos conforta muito saber que, comparando o  nosso  sofrimento com  o  de Maria e Marta ou comparando-o com o dos dois  discpulos  na estrada de Emas, a diferena 
est   apenas  na  quantidade.
    Eles tiveram de esperar quatro dias. Ns teremos de  esperar um, cinco, ou setenta anos. Qual a diferena  real?  Isso   como dizer a algum,  que est sendo 
torturado,  que  a  sua dor  diferente da minha  apenas  na  quantidade,  quando a minha dor resume-se numa cutcula solta  que  nem  incomoda.
    Entretanto,  a diferena    mesmo  a  quantidade.  Mas  h, talvez,  pelo  menos  certo  consolo  para   aqueles    cuja experincia  idntica  de Maria e 
Marta, e idntica    de outros: na  experincia do  cristo  fiel  est  includa  a experincia da morte. Parece fazer parte do plano,  e  seria quase impossvel 
declarar que a morte  foi  o  resultado  da falta  de f de algum.
    Para cada um de ns, no s para Maria e Marta  ou  para  os dois  homens  do  caminho  de  Emas,  haver  uma   soluo triunfante. Com Deus, estamos seguros. 
Nenhum pardal cai sem o seu consentimento e at os cabelos da nossa  cabea  esto contados. Toda e qualquer orao  foi ouvida, mesmo  aquelas que nos pareceram 
vazias e sem resposta.
      George MacDonald diz: "O Senhor veio para  enxugar nossas lgrimas.  o que ele est fazendo agora;  o que  ele far to-logo possa; e, enquanto no puder 
faz-lo,  prover para que as lgrimas fluam sem amargura; ele nos dir que chorar  uma bno, pois traz consolo. Aceite agora o seu consolo, e prepare-se assim 
para o consolo  que vir."
      Para que se tenha a perspectiva completa do papel da dor e do sofrimento,  preciso que se visualize  toda  a  vida do indivduo. E as promessas da Bblia 
so em  grande nmero:
      "Ora, o Deus de toda a graa, que em Cristo vos  chamou   sua eterna glria, depois de terdes sofrido  por  um  pouco, ele mesmo vos h  de  aperfeioar, 
firmar,  fortificar    e fundamentar"  (1Pedro  5:10).  "Porque  a  nossa  leve   e momentnea tribulao produz para ns eterno peso de glria, acima de toda comparao, 
no atentando ns nas  coisas  que se vem, mas nas que se no vem; porque as que se vem  so temporais, e as que se no vem so  eternas.  (2  Corntios 5:17, 
18).
      Pedro e Paulo estavam to certos do  resultado  final  que tudo, ministrio, sade e a prpria vida, tinha como base as promessas de Cristo.
Morte e Nascimento
      Ironicamente,  a  morte,  a  ocorrncia  que  mais   causa sofrimento emocional,  na realidade uma transferncia,  uma poca de grande alegria, pois s ento 
ns nos apropriaremos da vitria de Cristo. Descrevendo o resultado da prpria morte, Jesus usou o smile  de  uma  mulher  em dores de parto, sofrendo at o momento 
do nascimento do  seu filho quando, ento, tudo   substitudo  por  arrebatamento (Joo 16:2 1).
      A nossa morte pode ser considerada um nascimento. Imagine s o que no seria se voc  tivesse  conscincia  da  sua  vida fetal e pudesse lembrar-se agora 
daquelas sensaes:
      O mundo era escuro,  sem  perigos,  seguro.  Voc  achava-se circundado por  um  lquido  morno,  protegido  de  qualquer choque. Nada fazia. A alimentao 
era  automtica  e    uma batida sussurrante de um corao assegurava que algum muito maior do que voc provia todas as suas necessidades. A  vida consistia em 
simplesmente esperar, sem  saber propriamente o qu, mas qualquer mudana parecia remota. No havia objetos pontudos, nem dor, nem aventuras  ameaadoras.
      Uma existncia ideal.
      Um dia, voc sentiu um puxo.  As  paredes  caram. Aquelas macias almofadas comearam a pulsar  e  a  desferir  golpes, esmagando-o e empurrando-o para baixo. 
O seu corpo    estava dobrado, pernas e braos curvados. Voc caiu, de cabea para baixo. Pela primeira vez em sua vida, sofreu dor. Estava num mar de substncia 
irritante. Sentiu,    ento,  uma  presso ainda maior,  quase  insuportvel.  A  cabea  estava  sendo achatada, e foi voc empurrado mais e mais para dentro de 
um tnel escuro. , a dor! Barulho!  Mais presso!
      Voc sentia dores. Ouviu um gemido, e  foi  tomado  de  medo sbito  e  terrvel.  O  seu  mundo  entrou em colapso.
      Pareceu-lhe o fim. Viu, ento, uma luz cortante,  ofuscante.
      Mos frias e speras puxaram-no. Uma palmada dolorosa! U!
      Parabns, acabou de nascer.
      A morte  bem semelhante. No final do canal  do  nascimento, tudo parece aterrador, agoureiro, e cheio de  sofrimento.  A morte  um tnel assustador e ns 
somos sugados  para dentro dele por uma  fora  poderosa.  Ningum  espera  pela  morte ansiosamente. Temos medo. H opresso, dor, escurido...  o desconhecido. 
Mas, alm da escurido e da dor, h um  novo mundo perfeito.  Quando, depois da morte, acordarmos naquele radiante mundo novo, nossas lgrimas e  dores  sero  apenas 
memria. Apesar de sabermos que o novo mundo  muito melhor do que este aqui, no temos condies  de  saber  exatamente como ele . Os escritores da Bblia contam-nos 
que,  em  vez do silncio de Deus, teremos a sua presena    e  v-lo-emos face a face. Receberemos, ento, uma pedra e sobre ela  ser escrito um nome, que ningum 
mais sabe. O  nosso  nascimento ser completo. Seremos novas  criaturas (Apocalipse 2:17).
      Voc pensa s vezes que Deus no ouve? Que seus gritos  de dor desvanecem-se no nada? Deus no  surdo.  Ele  est  to mortificado pelo mundo quanto  voc. 
O  seu  nico    Filho morreu aqui. Ele,  porm,  prometeu  p-lo  em  ordem.  Nada desaparece simplesmente.
      Esperemos pelo fim. Deixemos que a  sinfonia  arranque  as ltimas notas discordantes de lamento antes  de  irromper a melodia. Como Paulo disse: "Porque para 
mim tenho  por certo que os sofrimentos do tempo presente no so  para  comparar com a glria por vir  a  ser  revelada  em  ns.  A  ardente expectativa da criao 
aguarda a revelao   dos  filhos  de Deus" (Romanos 8:18, 19).
      "Porque sabemos que toda a criao a um s  tempo  geme  e suporta angstias at agora. E no somente ela,  mas tambm ns que temos as primcias do Esprito, 
igualmente   gememos em nosso ntimo, aguardando a adoo de filhos,  a  redeno do nosso corpo" (Romanos 8:22, 23).
      Quando olhamos para trs, para a partcula  da  eternidade que foi a histria deste planeta, ficamos impressionados no por sua importncia, mas por sua insignificncia. 
Vista da constelao Andrmeda, a destruio do nosso  sistema  solar inteiro  seria  quase  invisvel,  um  palito  de fsforo bruxuleando  distncia, para depois 
escurecer  para sempre.
      Pois nesse simples palito de fsforo, Deus sacrificou  a  si prprio.
      A dor pode ser considerada, no dizer de Berkouwer, o grande "ainda no" da eternidade. Faz-nos  lembrar  do  lugar onde estamos, e desperta em ns a  sede 
do  lugar  para aonde iremos um dia.
      No auge do sofrimento, falou J:
      Quem me dera fossem agora escritas as minhas palavras!  Quem me dera que fossem gravadas em livro! Que com pena de ferro, e com chumbo, para  sempre  fossem 
esculpidas    na  rocha!
      Porque eu sei  que  o  meu  redentor  vive,  e  por  fim  se levantar sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei 
a Deus.  V-lo-ei  por  mim mesmo, os meus olhos o vero, e no outros;  de  saudade  me desfalece o corao dentro em mim (J 19.23-27).
      Eu creio que um dia, todas as contuses,  todas  as  clulas cancerosas, toda a dor, todo o embarao e toda  mgoa  sero curados e todos os cruis momentos 
de esperar  sem esperana sero recompensados.
Deus Sabe Que Sofremos
      Durante grande parte da minha vida, concordei com os que  se rebelam contra Deus por ele permitir  a  dor.  O  sofrimento pesava muito. No conseguia compreender 
um mundo  to  cheio de coisas ms como este.
      Porm, ao conversar com aqueles cuja dor era muito maior  do que a minha, seus  efeitos  surpreenderam-me.  O  sofrimento tanto podia produzir f, realmente 
fortalecida  como  semear o agnosticismo. E, ao conversar com aqueles que  sofriam  do mal de  Hansen,  especialmente,  convenci-me  do  importante papel da dor 
no mundo.
      De um modo geral, no haver soluo para a  dor  at  que Jesus volte e transforme a terra. Pela  f,  apio-me  nessa grande esperana. Se eu no acreditasse 
verdadeiramente  que Deus  um mdico e no um sdico, e que ele sente  em  si  a presena torturante dos nervos que no esto em harmonia com o organismo", abandonaria 
imediatamente  todas as tentativas de investigar os mistrios do sofrimento. A minha  irritao contra a  dor  dissipou-se  principalmente  por  uma  razo: passei 
a  conhecer  Deus.  Ele    me  deu  alegria,   amor, felicidade e misericrdia. Foram centelhas, no meio  do  meu mundo confuso e inquo, mas a sua  presena  foi 
suficiente para convencer-me de que  o meu Deus  digno  de  confiana.
      Conhec-lo vale qualquer sofrimento.
      Como me sentiria, ento, ao defrontar-me novamente com uma pessoa amiga,  num  leito  de  hospital,  com  a  doena  de Hodgkin? Afinal de contas, foi assim 
que comeou    a  minha pesquisa. Eu me sentiria com uma f  slida  em  algum,  f esta  que  sofrimento  algum  pode  corroer.  E,   como o Cristianismo  posto 
em  prtica  num  mundo  real    entre pessoas reais, tambm tenho  necessidade  de  conforto  para entender o papel do sofrimento no mundo.
Onde est Deus quando chega a dor?
      Desde o comeo ele esteve presente, planejando um sistema de dor que, mesmo em um mundo decado e rebelde, leva  a  marca do seu gnio e equipa-nos para a 
vida neste planeta.
      Ele tem observado o reflexo de sua imagem em ns enquanto entalhamos grandes obras de  arte,  empreendemos aventuras grandiosas, sobrevivemos num misto de 
dor e  prazer quando ambos se entrelaam to intimamente   que  se  tornam quase indistinguveis.
      Ele tem usado a dor, at mesmo nas suas formas mais cruas, para ensinar-nos, pedindo-nos que nos voltemos para ele. Ele tem-se humilhado a fim de conquistar-nos. 
Ele tem  observado este planeta em que vivemos, permitindo  misericordiosamente que o empreendimento humano  siga o seu prprio caminho.
      Ele tem permitido que clamemos aos cus e  imitemos  J  com estridentes e ruidosos acessos de raiva, culpando a Deus por um mundo que ns estragamos.
      Ele tem-se unido ao pobre e ao  sofredor,  estabelecendo  um reino celestial que lhes  favorvel, do  qual  os  ricos  e poderosos freqentemente se esquivam.
      Ele tem  prometido  fora  sobrenatural  para  nutrir nosso esprito, ainda que  o  nosso  sofrimento  fsico  no seja aliviado.
      Ele tem-se unido a ns.  Tem  sofrido,  sangrado  e  clamado conosco. Ele tem  honrado  eternamente  aqueles  que  sofrem compartilhando da sua dor.
      Ele est  conosco  agora,  ministrando-nos  atravs  do seu Esprito e por meio dos membros do seu corpo,  comissionados a auxiliar-nos e a aliviar-nos os 
sofrimentos  por  amor  de Cristo, a cabea.
      Ele est esperando e reunindo os exrcitos do bem.  Um dia, ele desencade-los-. O mundo ver uma ltima exploso de dor antes da vitria final. E, ento, 
ele criar   para  ns um incrvel mundo novo, e a dor no mais existir.
      Eis que vos digo um  mistrio:  Nem  todos  dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da ltima trombeta. 
A  trombeta soar, os mortos ressuscitaro incorruptveis, e ns seremos transformados.  Porque    necessrio   que    este    corpo corruptvel se revista da incorruptibilidade, 
e que o corpo mortal se revista  da  imortalidade.  E  quando  este  corpo corruptvel se revestir de incorruptibilidade,  e  o  que   mortal se revestir de imortalidade, 
ento  se  cumprir  a palavra que est escrita: Tragada foi a morte pela  vitria. 
      Onde est,  morte, a tua vitria? onde est,  morte, o teu aguilho? (1 Corntios  15.-SI-55).
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